Como a IA está reescrevendo o underwriting de seguros de vida no Brasil

Por André de Brito Iziquiel — Head of Sales & Business Development, Altiora Advisory Group

Até poucos anos atrás, contratar um seguro de vida no Brasil significava papel, assinatura física, exames médicos completos e um prazo de análise que podia levar semanas. Esse modelo foi construído para um mercado que vendia pouco e devagar. Ele começou a ficar visivelmente incompatível com a velocidade que o restante do setor financeiro já havia alcançado, especialmente à medida que o próprio setor passou a crescer com mais força.

Segundo a Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (FenaPrevi), com base em dados da SUSEP, o setor de seguros de pessoas arrecadou R$ 72,7 bilhões em prêmios em 2024, crescimento de 16,2% frente a 2023, impulsionado principalmente pelo seguro de Vida Individual, que avançou 21,5% no período. Em 2025, esse total subiu para R$ 78,8 bilhões, um crescimento adicional de 8,3%. Um mercado nesse ritmo de expansão não sustenta operação em papel por muito tempo.

A digitalização não veio, na maior parte dos casos, de um plano de longo prazo cuidadosamente desenhado. Ela nasceu de uma necessidade abrupta. Durante a pandemia, com o atendimento presencial inviabilizado, seguradoras que ainda dependiam de processos manuais precisaram digitalizar operações inteiras em poucos meses. Contratação com assinatura eletrônica, integração de dados via API com plataformas parceiras e novos modelos de aceitação de risco deixaram de ser diferencial competitivo. Passaram a ser condição de sobrevivência comercial.

Na minha opinião, a inteligência artificial representa a maior transformação estrutural no underwriting de seguros de vida desde a digitalização da contratação. O passo seguinte, e talvez o mais relevante dessa evolução, foi a entrada da AI no processo de análise de risco: a etapa que define se, e em quais condições, uma apólice será emitida. Modelos baseados em árvores de decisão automatizadas passaram a avaliar parte relevante das propostas sem intervenção humana. Apólices que levavam dias para ser emitidas passaram a sair em minutos, a partir da assinatura digital do cliente.

O impacto disso não é só de velocidade. É de escala. Um processo que depende de um analista humano por proposta tem um teto de capacidade natural: mais volume exige mais gente contratada e treinada, e o crescimento vira linear. Um processo automatizado, bem calibrado, escala de outro jeito. O mesmo motor de decisão que processa poucas centenas de propostas por mês consegue processar milhares, sem que a estrutura por trás precise crescer na mesma proporção. É esse tipo de mudança que permite a um canal de distribuição de seguros de vida, seja via corretoras, bancos ou plataformas de investimento, ampliar o número de parceiros e o volume atendido sem comprometer prazo ou qualidade de serviço.

Mais do que acelerar processos, acredito que a inteligência artificial está mudando a lógica operacional das seguradoras. Pela primeira vez, tornou-se possível aumentar significativamente o volume de negócios sem que o crescimento da estrutura acompanhe a mesma proporção. Em um mercado que ainda possui enorme potencial de expansão, essa capacidade tende a se tornar um diferencial competitivo cada vez mais relevante.

O movimento não é exclusivo do Brasil, mas já ganha contornos concretos por aqui. Segundo levantamento da CNseg em parceria com a EY, o setor segurador brasileiro deve investir até R$ 2,8 bilhões em inteligência artificial até 2026, e cerca de 80% das seguradoras já utilizam a tecnologia em alguma etapa da operação, principalmente em subscrição de risco e sinistros.

Exemplos concretos já aparecem no mercado. A Prudential do Brasil, ao lançar em 2021 sua ferramenta de automação de análise de risco, reduziu o prazo médio de emissão de apólice de 13 para 9 dias. Segundo a própria seguradora, hoje 44% dos casos já têm subscrição automática e online, e 20% das apólices são emitidas em até 24 horas. A insurtech Azos desenvolveu sistema próprio de inteligência artificial para apoiar a subscrição, hoje aprovando cerca de 22% das apólices em segundos, com meta de chegar a 40% até o fim do ano. Do lado dos resseguradores, que fornecem boa parte da tecnologia e capacidade técnica por trás dessas soluções, a Swiss Re firmou parceria de resseguro com a própria Azos para sustentar esse ritmo, enquanto a Munich Re lançou uma plataforma de automação de underwriting adotada por seguradoras nos Estados Unidos. Globalmente, a Zurich subiu quatro posições em um ranking internacional de maturidade em IA depois de lançar uma plataforma própria de inteligência artificial generativa integrada à subscrição.

Ainda assim, o espaço para crescer é grande. Segundo pesquisa da FenaPrevi em parceria com o DataFolha, 82% dos brasileiros acima de 18 anos não têm nenhum tipo de seguro de vida. O Brasil ocupa apenas a 42ª posição num ranking da OCDE que avalia 54 países pelo volume de prêmios de seguros de vida sobre o PIB, abaixo do que seria esperado para a 9ª maior economia do mundo. Um mercado com essa margem de crescimento não avança só com mais vendedores. Avança com processos capazes de atender, de forma simples e rápida, uma base de clientes muito maior do que a atual.

Automatizar decisão de risco não pode significar abrir mão de governança. Modelos de IA em underwriting funcionam de forma responsável quando são calibrados com dados de qualidade e passam por auditoria constante, para evitar vieses ou decisões inadequadas em casos de maior complexidade médica ou financeira. A automação resolve bem o volume de propostas mais simples e padronizadas. Casos de maior risco continuam, e devem continuar, exigindo análise humana especializada.

O Brasil está no meio dessa transição, não no fim dela. Na minha visão, a discussão já não é se a inteligência artificial fará parte do underwriting, porque ela já faz parte desse processo. O verdadeiro desafio agora é combinar automação, qualidade dos dados e supervisão humana para construir processos mais rápidos, escaláveis e confiáveis.

Nos próximos anos, acredito que as seguradoras que conseguirem equilibrar eficiência tecnológica e governança na tomada de decisão estarão mais preparadas para ampliar o acesso ao seguro de vida em um mercado que ainda possui enorme espaço para crescer. Nesse cenário, o underwriting deixa de ser apenas uma etapa operacional e passa a representar uma competência estratégica para o crescimento sustentável do setor.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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