A arrecadação das seguradoras brasileiras manteve ritmo de crescimento acima da inflação no primeiro semestre de 2026. Os seguros de danos e pessoas, sem considerar o VGBL, movimentaram R$ 113,86 bilhões entre janeiro e junho, alta nominal de 6,51% e real de 2,07% sobre os mesmos seis meses de 2025. Somente em junho, foram R$ 20,17 bilhões, 7,15% acima do registrado no mesmo mês do ano passado, segundo dados da Superintendência de Seguros Privados (Susep).
O resultado coloca os seguros propriamente ditos entre os principais motores do setor neste ano e mostra desempenho superior à projeção mais recente da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), que estima crescimento de 2,9% para o mercado segurador em 2026, desconsiderando saúde. A comparação, no entanto, deve ser feita com cautela, porque a projeção da entidade considera um conjunto de segmentos e bases diferentes dos seguros de danos e pessoas destacados pela Susep.
Quando previdência aberta, VGBL e capitalização entram na conta, o quadro muda. O mercado supervisionado pela Susep registrou receitas totais de R$ 207,12 bilhões no primeiro semestre, avanço nominal de apenas 0,52% sobre os R$ 206,05 bilhões de igual período de 2025. Descontada a inflação, houve retração de 3,67%.

A diferença entre o desempenho do mercado total e o das seguradoras é explicada principalmente pelos produtos de acumulação. VGBL, PGBL e previdência tradicional somaram R$ 77,69 bilhões em contribuições no semestre, queda nominal de 5,55% e real de 9,49%. A capitalização também recuou, com receitas de R$ 15,57 bilhões, 7,84% inferiores às do primeiro semestre de 2025.
Vida e prestamista puxam seguros de pessoas
Os seguros de pessoas continuam sendo o principal destaque positivo de 2026. O segmento arrecadou R$ 41,34 bilhões no primeiro semestre, crescimento nominal de 11,54% e real de 6,90% sobre os R$ 37,07 bilhões registrados um ano antes. O avanço mostra que a demanda por proteção segue crescendo em ritmo bem superior ao conjunto do mercado.
O seguro de vida movimentou R$ 20,01 bilhões, com expansão nominal de 10,29% e real de 5,70%, respondendo por quase metade da arrecadação dos seguros de pessoas. O prestamista apresentou crescimento ainda mais forte, de 19,23%, para R$ 12,44 bilhões. Já acidentes pessoais recuou 0,99%, enquanto as demais coberturas de pessoas cresceram 13,54%.
O desempenho reforça uma tendência observada nos últimos anos: enquanto produtos de acumulação enfrentam maior volatilidade, os seguros voltados à proteção vêm sustentando taxas de expansão mais consistentes. O avanço de vida também ocorre em um mercado ainda marcado pela baixa penetração do produto, o que mantém espaço relevante para crescimento por meio de corretores, assessores financeiros, bancos e novos canais de distribuição.

Auto supera R$ 30 bilhões
Nos seguros de danos, a arrecadação chegou a R$ 72,52 bilhões no semestre, alta nominal de 3,84%, embora ainda represente retração real de 0,49%. O seguro auto, maior carteira do segmento, respondeu por 42% dos prêmios e alcançou R$ 30,73 bilhões, crescimento nominal de 6,29% e real de 1,86%.
Entre as carteiras com maior expansão aparecem os seguros financeiros, com R$ 5,01 bilhões e alta de 22,92%, e o habitacional, que avançou 11,34%, para R$ 4,35 bilhões. Fiança locatícia cresceu 30,63%, embora sobre uma base menor, atingindo R$ 1,25 bilhão.
Na direção contrária, o seguro rural continua sentindo os efeitos do cenário mais adverso para o agronegócio e da limitação de recursos destinados à subvenção. Os prêmios recuaram 3,56%, para R$ 5,95 bilhões. Também houve retração em riscos especiais patrimoniais, de 6,84%, transportes, de 12,22%, responsabilidade civil, de 2,86%, e riscos especiais de energia, de 24,73%.
Previdência sente queda do VGBL
Nos produtos de acumulação, o principal impacto negativo veio do VGBL. As contribuições somaram R$ 69,80 bilhões no primeiro semestre, queda nominal de 7,14% e real de 11,01%. O PGBL seguiu trajetória oposta e cresceu 14,54%, para R$ 6,43 bilhões, enquanto a previdência tradicional recuou 1,17%, para R$ 1,46 bilhão.
Apesar da queda da arrecadação, as entradas de recursos nos produtos de acumulação ainda superaram as saídas. As contribuições totalizaram R$ 77,69 bilhões, ante R$ 71,13 bilhões em resgates e R$ 2,42 bilhões em benefícios. Com isso, a contribuição líquida ficou positiva em R$ 4,15 bilhões no semestre.
Capitalização também apresentou retração. A receita de R$ 15,57 bilhões ficou 7,84% abaixo da registrada no primeiro semestre de 2025. A modalidade tradicional, responsável pela maior parcela do mercado, recuou 9,52%, para R$ 11 bilhões. Em contrapartida, instrumento de garantia avançou 15,04%, para R$ 2,14 bilhões, e incentivo cresceu 22,14%, alcançando R$ 670 milhões.
R$ 126 bilhões retornam aos consumidores
Do outro lado da operação, indenizações, resgates, benefícios e sorteios somaram R$ 126,17 bilhões no primeiro semestre, queda nominal de 3,93% sobre igual período de 2025. Apenas as indenizações dos seguros de danos e pessoas alcançaram R$ 38,69 bilhões. Nos produtos de acumulação, resgates e benefícios chegaram a R$ 73,54 bilhões, enquanto capitalização devolveu R$ 13,94 bilhões aos consumidores por meio de resgates e sorteios.
Outro indicador da dimensão financeira do setor é o estoque de provisões técnicas. Em junho, esses recursos chegaram a aproximadamente R$ 2,17 trilhões, equivalentes a 16,46% do Produto Interno Bruto (PIB). O volume cresceu 11,78% em relação a junho de 2025.
O resseguro também acompanhou a expansão das carteiras. No primeiro semestre, R$ 15,27 bilhões dos prêmios emitidos pelas seguradoras foram transferidos às resseguradoras, reforçando o papel do segmento na absorção de grandes riscos e na capacidade de subscrição das companhias.
Para o segundo semestre, os números indicam um mercado em duas velocidades. De um lado, seguros de pessoas, vida, prestamista, auto e algumas carteiras de danos mantêm crescimento consistente. De outro, a retração do VGBL e da capitalização limita o avanço da receita agregada. A própria série histórica da Susep mostra, porém, que o segundo semestre costuma apresentar receitas superiores às dos primeiros seis meses, principalmente pela sazonalidade dos produtos de acumulação, fator que poderá contribuir para uma melhora do resultado consolidado até dezembro.
Nesse cenário, a projeção de crescimento de 2,9% da CNseg para 2026 parece compatível com um ano de expansão moderada no agregado, mas com desempenho bastante mais forte nas carteiras de seguros de danos e pessoas. Se o ritmo de 6,5% observado nesses segmentos até junho se mantiver, eles deverão continuar funcionando como o principal vetor de crescimento do mercado segurador brasileiro em 2026.






















