Levantamento inédito da CNseg revela quem é o consumidor de seguros no Brasil e aponta baixa cobertura entre famílias

A análise indica concentração no Sudeste e na classe média, mas identifica espaço para expansão em seguro residencial, automóvel e capitalização

Um levantamento inédito, desenvolvido pela Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), traçou um retrato do consumidor pessoa física de seguros no Brasil e identificou que o acesso à proteção financeira ainda permanece concentrado entre famílias de renda mediana, moradores do Sudeste e consumidores em faixas etárias economicamente ativas ou mais maduras. A análise também aponta espaço relevante para expansão do setor, sobretudo em produtos ligados ao cotidiano das famílias, como seguro Automóvel, seguro Residencial e títulos de Capitalização.
 

O estudo foi elaborado pela Comissão de Inteligência de Mercado da CNseg com base em informações fornecidas por seguradoras que representam cerca de 56% do mercado analisado, sendo 76% do segmento de Danos e Responsabilidades e 24% do segmento de Capitalização. A análise avaliou o perfil dos consumidores de seguro Automóvel, seguro Residencial e títulos de Capitalização, cruzando faixa etária, renda, gênero e distribuição geográfica.
 

No seguro Automóvel, o levantamento mostra que o consumidor está concentrado principalmente na classe média. Cerca de 41% dos segurados pertencem à classe C, com renda entre R$ 5.648 e R$ 14.120 mensais. Outros 24% pertencem à classe B, enquanto 23% estão na classe D, com renda entre R$ 2.824 e R$ 5.648.
 

A faixa etária predominante é a de adultos economicamente ativos: 29% têm entre 36 e 45 anos e 26% entre 46 e 55 anos. O levantamento também aponta predominância masculina entre os segurados, com 51% dos clientes homens e 42% mulheres.
 

Cenário regional

Regionalmente, o Sudeste concentra 53% dos consumidores de seguro Automóvel do país, seguido pelo Sul (16%) e Centro-Oeste (15%). Segundo a CNseg, o comportamento acompanha a distribuição da frota nacional, mas também reflete diferenças de renda e acesso ao crédito entre as regiões.
 

O levantamento mostra ainda que a maior parte dos veículos segurados no país possui valor de até R$ 70 mil, faixa que representa 46% da carteira analisada. Outros 27% possuem valor entre R$ 71 mil e R$ 100 mil.
 

Mesmo com a relevância do produto, a taxa de cobertura ainda é considerada baixa. Dados cruzados pela CNseg com informações da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) mostram que apenas 29% da frota nacional possui seguro. Em dezembro de 2024, o Brasil possuía cerca de 63,3 milhões de automóveis, mas somente aproximadamente 18 milhões estavam segurados.
 

No seguro Residencial, o perfil do consumidor apresenta diferenças importantes em relação ao do Automóvel. O estudo mostra maior presença de consumidores mais velhos: 24% dos segurados têm entre 56 e 65 anos e outros 17% possuem mais de 65 anos. A renda também aparece mais distribuída. Cerca de 31% dos clientes pertencem à classe C, enquanto 27% estão na classe D e 21% na classe B.
 

Assim como visto no Automóvel, o Sudeste também lidera a contratação do seguro residencial, concentrando 56% dos clientes, seguido pelo Sul (15%), Nordeste (13%), Centro-Oeste (11%) e Norte (5%).
 

Os dados indicam ainda que o seguro Residencial segue distante da maior parte da população brasileira. Segundo estimativas utilizadas pela CNseg, com base no Censo do IBGE e dados da Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg), apenas 17% das residências brasileiras possuem seguro Residencial.
 

Alexandre Leal, Diretor Técnico, de Estudos e Relações Regulatórias da CNseg, destaca que o levantamento chama atenção para o fato de que mesmo regiões frequentemente afetadas por eventos climáticos extremos, como a Região Sul, ainda apresentam baixa cobertura securitária residencial. Para ele, o chamado “gap de proteção” representa simultaneamente um desafio econômico e uma oportunidade estrutural de expansão do mercado segurador brasileiro.
 

“Quando observamos que apenas 17% das residências brasileiras possuem seguro e que menos de um terço da frota nacional está protegida, fica evidente que existe um espaço importante de vulnerabilidade patrimonial das famílias. Ao mesmo tempo, isso mostra o tamanho do potencial de crescimento do setor e a necessidade de ampliar o acesso à proteção financeira no país”, afirmou.
 

Leal destacou que o mercado vem discutindo produtos mais aderentes à realidade da classe média e das famílias de menor renda, com modelos mais simples, acessíveis, personalizáveis e conectados ao cotidiano da população. “O setor tem avançado na discussão de produtos voltados principalmente para a Classe C, que hoje já aparece como protagonista em segmentos importantes, como Automóvel e Residencial. Há um esforço crescente para desenvolver soluções mais acessíveis, ampliar canais digitais, fortalecer educação financeira e aumentar a presença do seguro em momentos importantes da vida do consumidor”, disse.
 

Capitalização

Entre os três produtos analisados, os títulos de Capitalização aparecem como o segmento com maior presença entre consumidores de menor renda. De acordo com o levantamento, 38% dos clientes pertencem à classe E e outros 24% à classe D.
 

O estudo também mostra que a distribuição regional da Capitalização é menos concentrada do que em outros produtos do setor. O Sudeste representa 30% dos clientes, seguido pelo Sul (25%), Nordeste (19%), Centro-Oeste (15%) e Norte (11%).
 

“O comportamento sugere que os títulos de Capitalização vêm funcionando como uma porta de entrada para produtos financeiros e de proteção entre famílias de renda menor, especialmente devido ao baixo valor médio de contribuição mensal”, destacou Leal.
 

Quase metade dos consumidores (48%) possui contribuições mensais de até R$ 300. Ao mesmo tempo, 55% dos títulos possuem sorteios médios de até R$ 70 mil.
 

A divulgação do levantamento ocorre em um momento de crescimento do setor segurador brasileiro. Dados da CNseg mostram que o mercado encerrou 2025 com arrecadação de R$ 764,5 bilhões e pagamento de R$ 548,4 bilhões em indenizações, benefícios, resgates e sorteios. Nos últimos cinco anos, a arrecadação do setor cresceu mais de 52%, passando de R$ 501,3 bilhões em 2020 para R$ 764,5 bilhões em 2025. Já os pagamentos saltaram 70%, de R$ 322,5 bilhões para R$ 548,4 bilhões no período.
 

Novo cenário do setor 

Para 2026, a entidade projeta arrecadação de R$ 808,5 bilhões, com crescimento estimado em 5,8%, mesmo em um ambiente de juros elevados, inflação próxima de 5% e desaceleração econômica. Entre os destaques estão os seguros habitacionais, com projeção de alta de 12,3%, e o seguro Automóvel, que deve crescer 7,8%, impulsionado pela expansão da venda de veículos, inclusive híbridos e elétricos. 
 

A CNseg também avalia que o aumento dos eventos climáticos extremos deve acelerar mudanças na forma como a população percebe a necessidade de proteção financeira e patrimonial. De acordo com o levantamento, as mudanças demográficas e econômicas devem alterar gradualmente o perfil do consumidor de seguros no país. Dados do Censo 2022 mostram que o Brasil possui uma população mais envelhecida e com idade mediana de 35 anos, seis anos acima da registrada em 2010.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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