As cinco tendências que vão transformar o mercado segurador nos próximos anos

Por Helio Kinoshita, Managing Partner da águilahub

O mercado segurador brasileiro vive um dos momentos mais relevantes de sua história recente. Ao mesmo tempo em que o setor mantém uma trajetória consistente de crescimento, novas tecnologias, mudanças regulatórias e a evolução do comportamento dos consumidores estão redefinindo a forma como seguradoras operam, distribuem produtos e geram valor.

Os números ajudam a dimensionar esse movimento. Segundo a CNseg, o setor segurador brasileiro movimentou mais de R$ 764 bilhões em 2025, crescimento de 1,8% em relação ao ano anterior. Para 2026, a projeção é de arrecadação superior a R$ 808 bilhões, reforçando a relevância econômica e social da indústria.

Mais do que crescimento, porém, o setor vive uma profunda transformação estrutural. A combinação entre inteligência artificial, dados, novos modelos de distribuição e riscos emergentes está criando um novo cenário competitivo.

Nesse contexto, destaco cinco tendências que devem orientar a agenda estratégica das seguradoras nos próximos anos.

1. Inteligência Artificial deixa de ser inovação e passa a ser infraestrutura

A Inteligência Artificial está deixando de ocupar espaço apenas em laboratórios de inovação para se tornar parte essencial da operação das seguradoras.

Subscrição, prevenção a fraudes, atendimento, análise documental, gestão de sinistros e relacionamento com clientes são algumas das áreas que já estão sendo impactadas.

O avanço da IA generativa amplia ainda mais esse potencial. Ferramentas capazes de interpretar documentos, resumir informações, identificar inconsistências e apoiar decisões tendem a aumentar significativamente a produtividade das operações.

Segundo a McKinsey, a indústria de seguros está caminhando para uma transformação operacional profunda impulsionada por inteligência artificial, automação e modelos avançados de análise de dados.

O desafio não está apenas na adoção da tecnologia, mas na construção de estruturas de governança, segurança e qualidade de dados capazes de sustentar decisões cada vez mais automatizadas.

2. Open Insurance cria uma nova economia baseada em dados

O Open Insurance representa uma das maiores mudanças estruturais já vividas pelo setor.

Ao permitir o compartilhamento padronizado e seguro de dados entre participantes autorizados, o modelo cria oportunidades para produtos mais personalizados, jornadas mais fluidas e novas formas de relacionamento com clientes.

A lógica deixa de ser centrada apenas na seguradora e passa a funcionar em ecossistemas integrados.

Na prática, isso significa utilizar dados para compreender melhor o perfil de risco, oferecer produtos mais aderentes às necessidades dos clientes e criar experiências mais simples e eficientes.

Mas a captura desse valor depende de investimentos em arquitetura de dados, interoperabilidade, APIs, segurança da informação e governança.

As seguradoras que enxergarem o Open Insurance apenas como um requisito regulatório tendem a capturar apenas parte do potencial disponível. As que tratarem o tema como estratégia de negócios poderão desenvolver novas fontes de receita e diferenciação competitiva.

3. Embedded Insurance será um dos principais canais de crescimento

O modelo tradicional de distribuição de seguros está evoluindo rapidamente.

Cada vez mais, os consumidores contratam seguros dentro de jornadas digitais já existentes, seja na compra de um produto, contratação de um serviço, solicitação de crédito ou utilização de uma plataforma digital.

Esse movimento, conhecido como Embedded Insurance, está transformando a forma como o seguro chega ao consumidor.

Segundo projeções da McKinsey, o mercado global de Embedded Insurance poderá representar mais de US$ 700 bilhões em prêmios emitidos até 2030, o equivalente a cerca de 25% de determinadas linhas de seguros em mercados desenvolvidos.

O crescimento desse modelo ocorre porque ele reduz atritos, aumenta conveniência e melhora a experiência do cliente.

Para seguradoras, isso significa a necessidade de desenvolver novas capacidades de integração, trabalhar em ecossistemas e criar produtos cada vez mais adaptáveis a diferentes canais de distribuição.

4. Modernização tecnológica será uma prioridade estratégica

Muitas seguradoras ainda operam sobre plataformas desenvolvidas há décadas.

Embora essas estruturas tenham sustentado o crescimento do setor, elas frequentemente limitam a velocidade de inovação, aumentam custos operacionais e dificultam integrações com novos parceiros e tecnologias.

A transformação digital passa, necessariamente, pela modernização dessas bases.

Cloud computing, arquiteturas baseadas em APIs, microsserviços, observabilidade, automação e governança de dados estão se tornando componentes fundamentais da estratégia tecnológica das seguradoras.

O objetivo não é apenas reduzir custos.

É criar uma infraestrutura capaz de responder rapidamente a mudanças regulatórias, lançar novos produtos, integrar parceiros e suportar modelos de negócio cada vez mais digitais.

As organizações que conseguirem equilibrar estabilidade operacional e capacidade de inovação terão uma vantagem competitiva significativa nos próximos anos.

5. Riscos climáticos e cibernéticos redefinem o setor

Talvez nenhuma tendência seja tão impactante para o futuro do seguro quanto a evolução dos riscos.

As mudanças climáticas estão aumentando a frequência e a intensidade de eventos extremos em diversas regiões do mundo.

Segundo o Swiss Re Institute, as perdas econômicas globais decorrentes de catástrofes naturais alcançaram US$ 318 bilhões em 2024, enquanto as perdas seguradas chegaram a aproximadamente US$ 137 bilhões, uma das maiores marcas já registradas.

Ao mesmo tempo, a crescente digitalização da economia amplia a exposição das empresas a riscos cibernéticos, criando demanda por novas soluções de proteção.

Esses movimentos exigem modelos mais sofisticados de análise de riscos, precificação e gestão de exposição.

Mais do que nunca, dados, inteligência analítica e tecnologia serão elementos centrais para garantir a sustentabilidade das operações seguradoras.

O futuro já começou

A discussão no mercado segurador não é mais se a transformação acontecerá, mas em qual velocidade cada organização será capaz de se adaptar.

Inteligência artificial, Open Insurance, Embedded Insurance, modernização tecnológica e novos riscos não são tendências isoladas. Elas fazem parte de uma mudança estrutural que está redefinindo o setor.

As seguradoras que conseguirem combinar tecnologia, dados, governança e visão estratégica estarão mais preparadas para capturar crescimento, aumentar eficiência e oferecer experiências mais relevantes aos seus clientes.

No fim, a inovação não substitui a essência do seguro. Ela amplia sua capacidade de cumprir aquilo que sempre foi sua principal missão: proteger pessoas, patrimônios e negócios em um mundo cada vez mais complexo.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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