Escassez de profissionais híbridos desafia transformação digital das seguradoras

Setor busca especialistas capazes de unir conhecimento técnico, dados e inteligência artificial, enquanto disputa talentos com fintechs e empresas de tecnologia

A transformação digital das seguradoras está criando um novo desafio para o mercado brasileiro: a falta de profissionais capazes de combinar conhecimento técnico de seguros com competências em dados, inteligência artificial e desenvolvimento de produtos digitais. O cenário, que já preocupa executivos de recursos humanos e lideranças do setor, pode se tornar um dos principais obstáculos para que a indústria alcance a meta de ampliar sua participação no Produto Interno Bruto (PIB) até 2030, conforme previsto pela CNseg, a confederação das seguradoras.

Segundo Luciane Pires, Head of Financial Services & Insurance, o mercado enfrenta atualmente dois gargalos simultâneos. O primeiro envolve profissões tradicionalmente escassas, como atuários e subscritores de riscos. O segundo está relacionado ao avanço da digitalização, que elevou a demanda por profissionais capazes de transitar entre o universo técnico do seguro e o ambiente de inovação.

“Historicamente, o mercado formou subscritores muito técnicos e focados no back office. Hoje, as seguradoras precisam de profissionais que mantenham o rigor técnico, mas que também tenham habilidade comercial para negociar diretamente com corretores e clientes corporativos e customizar riscos complexos em tempo real”, afirma.

A executiva destaca ainda a crescente procura por especialistas em desenvolvimento de produtos capazes de atuar no segmento de embedded insurance, modalidade em que o seguro é incorporado à jornada de compra de produtos e serviços digitais. “Encontrar alguém que domine a complexidade técnica do seguro tradicional e, ao mesmo tempo, tenha a agilidade do ecossistema digital é um dos maiores desafios das companhias atualmente”, diz.

A escassez desses profissionais tem levado as seguradoras a buscar talentos fora do setor. Fintechs, insurtechs e empresas de tecnologia tornaram-se fontes recorrentes de recrutamento, uma vez que os programas internos de formação não conseguem acompanhar a velocidade das mudanças.

Na avaliação de Luciane, uma das estratégias mais adotadas pelas companhias tem sido a formação de equipes compostas por profissionais de perfis complementares. De um lado, especialistas experientes em subscrição, regulação e compliance. De outro, jovens profissionais oriundos do ecossistema de tecnologia, com domínio de dados e inteligência artificial. “O desafio deixa de ser técnico e passa a ser cultural. É preciso unir a agilidade de quem cresceu em uma startup com os processos consolidados de uma seguradora tradicional. Isso exige lideranças maduras para transformar diferenças em geração de valor”, afirma.

A competição por talentos também expõe uma dificuldade histórica do setor: atrair profissionais mais jovens. Segundo a executiva, muitas seguradoras ainda carregam a imagem de empresas excessivamente tradicionais, burocráticas e dependentes de sistemas legados, características que contrastam com as expectativas de profissionais das áreas de tecnologia e dados.

Entre os fatores mais relevantes para essa nova geração estão modelos flexíveis de trabalho, acesso a tecnologias modernas e oportunidades de crescimento mais aceleradas. “Os jovens buscam atuar com inteligência artificial, nuvem e plataformas digitais. Quando encontram ambientes muito dependentes de tecnologias obsoletas, a frustração é imediata”, afirma.

Outro ponto destacado é a necessidade de revisão das estruturas de carreira. Para Luciane, modelos baseados exclusivamente em tempo de empresa tendem a perder atratividade diante de formatos mais meritocráticos, comuns em startups e empresas de tecnologia.

Apesar das dificuldades, a executiva observa uma mudança importante no mercado. Seguradoras de grande porte têm ampliado a contratação de profissionais em início de carreira para projetos ligados à transformação digital e inteligência artificial, utilizando essas iniciativas como porta de entrada para atrair e desenvolver futuros líderes.

A preocupação com talentos ocorre em paralelo ao envelhecimento de parte da força de trabalho do setor. Embora exista o risco de perda de conhecimento com a aposentadoria de profissionais experientes, Luciane avalia que a principal ponte entre gerações está na camada intermediária de gestão.

“O conhecimento não é transferido diretamente da alta liderança para os profissionais em início de carreira. Essa transmissão acontece principalmente por meio da gerência média, que absorve a experiência acumulada e a adapta às novas necessidades do negócio”, explica. Para ela, o desafio das áreas de recursos humanos não é preservar modelos do passado, mas apoiar a integração entre conhecimento técnico tradicional e inovação digital.

A questão ganha relevância adicional diante da ambição de crescimento do setor segurador. Caso as empresas mantenham estratégias restritas à disputa pelos mesmos profissionais ou à contratação concentrada em fintechs e insurtechs, a falta de mão de obra especializada poderá se transformar em um gargalo estrutural.

Luciane acredita que parte da solução passa por ampliar o recrutamento para segmentos correlatos, especialmente o setor bancário. “Profissionais de bancos já possuem familiaridade com gestão de riscos, governança e ambiente regulatório, o que reduz significativamente a curva de aprendizado para atuar em seguros”, afirma.

Na avaliação da executiva, o sucesso da indústria dependerá da combinação entre formação interna acelerada e capacidade de atrair talentos de outros mercados. Caso contrário, o setor corre o risco de enfrentar uma disputa salarial crescente entre as próprias seguradoras, elevando custos e reduzindo recursos disponíveis para inovação.

“Se o mercado não oxigenar suas linhas de contratação com profissionais vindos de outros setores, teremos um leilão de salários insustentável, que pode comprometer justamente os investimentos necessários para sustentar o crescimento da indústria nos próximos anos”, conclui.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Ouça nosso podcast

ARTIGOS RELACIONADOS