Enchentes avançam mais rápido que a capacidade de adaptação de empresas, revela estudo

Relatório mostra que maioria das organizações reconhece o aumento do risco climático, mas menos de 10% possuem planos completos de resposta a inundações

Embora tenha como foco o Reino Unido, o State of Flood Resilience Report 2026 traz conclusões que refletem um desafio global: os eventos climáticos extremos estão evoluindo mais rapidamente do que a capacidade de adaptação de governos, empresas e da sociedade. O tema ganhou destaque durante a Semana de Ação Climática de Londres, que reuniu representantes do setor de seguros, especialistas e formuladores de políticas públicas em uma série de debates sobre resiliência climática e preparação para a COP31, que será realizada em Antalya, na Turquia, em novembro de 2026.

Durante o seminário “Diálogo sobre seguro, clima e meio ambiente”, promovido pela CNseg, a confederação das seguradoras, e pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS), o presidente da entidade, Dyogo Oliveira, destacou que as mudanças climáticas deixaram de ser uma preocupação futura para se tornarem uma realidade cotidiana. Ao comentar a onda de calor que levou os termômetros de Londres a ultrapassarem os 35°C, Oliveira fez uma comparação com o clima brasileiro. “O calor lá fora mostra que algo está acontecendo. E, como tudo tem um lado bom, o mundo está se transformando em um grande Brasil: quente e úmido”, brincou, lembrando que Belém sediou a COP30 e que agora o setor segurador concentra esforços na preparação para a COP31. Segundo ele, a CNseg pretende repetir, durante a conferência deste ano, a experiência da Casa do Seguro, iniciativa voltada ao diálogo entre seguradoras, reguladores e especialistas em adaptação climática.

As enchentes estão deixando de ser um risco localizado para se tornarem uma ameaça estrutural aos negócios. É o que revela a edição 2026 do State of Flood Resilience Report, elaborado pela empresa britânica Previsico com apoio de entidades do mercado segurador e de gestão de riscos. O estudo conclui que, embora a percepção sobre o risco das inundações tenha aumentado significativamente, a preparação das empresas continua muito aquém da velocidade com que os eventos extremos se intensificam.

Segundo o levantamento, os prejuízos provocados por eventos climáticos no Reino Unido chegaram a £ 1,2 bilhão em indenizações em 2025, alta de 14% em relação ao ano anterior. As projeções indicam que as perdas anuais causadas por enchentes podem ser multiplicadas por cinco até 2050 caso não haja investimentos em adaptação e prevenção.

O relatório destaca que 6,3 milhões de residências e empresas britânicas já estão expostas a algum nível de risco de inundação. Entre os imóveis comerciais, cerca de 27% estão localizados em áreas suscetíveis a enchentes. O maior risco, porém, já não está associado apenas a rios e áreas costeiras, mas às chamadas inundações por águas pluviais (surface water flooding), provocadas por chuvas intensas que sobrecarregam os sistemas urbanos de drenagem. Atualmente, o número de propriedades classificadas como de alto risco para esse tipo de evento é 75,5% superior ao das áreas sujeitas às cheias de rios e do mar.

A pesquisa ouviu mais de 70 executivos de seguradoras, empresas, órgãos públicos e especialistas em gestão de riscos. Quase metade (47,7%) afirmou que sua organização já sofreu impactos diretos de enchentes, percentual superior ao registrado em 2025. Ainda assim, a capacidade de resposta permanece limitada. Menos de uma em cada dez empresas declarou possuir um plano completo de ação para enfrentar inundações, enquanto 81% dos entrevistados disseram sentir-se frequentemente sobrecarregados diante desse tipo de ameaça.

Outro dado chama atenção: 72% dos respondentes acreditam que suas organizações serão afetadas por enchentes no futuro, evidenciando que o risco climático já é amplamente reconhecido. Apesar disso, essa percepção ainda não se traduz em investimentos efetivos em prevenção. Mais de 20% afirmaram que a incerteza sobre a evolução futura do risco dificulta justificar internamente recursos para projetos de resiliência.

O estudo também mostra uma queda na confiança dos gestores para enfrentar eventos extremos. Apenas 16% afirmam estar muito confiantes em sua capacidade de resposta, contra 28% na edição anterior da pesquisa. A maior parte dos participantes diz sentir-se apenas “parcialmente preparada”, enquanto um terço admite ter baixa confiança ou nenhuma preparação para responder a uma inundação.

Na avaliação dos autores, existe hoje uma lacuna entre conscientização e ação. Embora o tema tenha ganhado espaço nas agendas corporativas, muitas organizações ainda carecem de dados, ferramentas, treinamento e planejamento operacional para transformar conhecimento em capacidade efetiva de resposta. O relatório defende maior integração entre empresas, governos e seguradoras para ampliar o uso de tecnologias de monitoramento, sistemas de alerta antecipado e medidas de mitigação.

O mercado de seguros aparece como um dos protagonistas desse processo. O levantamento alerta que o crescimento das perdas decorrentes das enchentes pressiona a sustentabilidade da cobertura securitária. Em algumas regiões de maior exposição, seguradoras já reduzem capacidade ou elevam prêmios. Para os autores, o setor deverá ampliar seu papel não apenas como pagador de indenizações, mas como agente de prevenção, auxiliando clientes na identificação de riscos, na adoção de medidas de proteção e na redução das perdas futuras.

O estudo ressalta ainda que a adaptação às mudanças climáticas passa a ser uma prioridade econômica, e não apenas ambiental. À medida que eventos extremos se tornam mais frequentes, a resiliência contra enchentes tende a influenciar decisões de investimento, planejamento urbano, continuidade operacional e gestão de riscos corporativos, temas que também ganharão protagonismo nas discussões internacionais sobre adaptação climática rumo à COP31.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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