Guerra no Oriente Médio pressiona custos e pode impactar a precificação do seguro rural no Brasil

Alta de fertilizantes e combustíveis eleva valor das lavouras seguradas e desafia equilíbrio entre custo e acesso à proteção no campo

A escalada dos conflitos no Oriente Médio elevou o nível de incerteza nos mercados globais de energia e fertilizantes, pressionando os custos de produção no agronegócio brasileiro. Embora o seguro rural no país esteja historicamente concentrado na proteção contra riscos climáticos e perdas de produtividade, esse novo choque geopolítico afeta o setor de forma indireta, ao encarecer insumos, elevar o valor segurado das lavouras e exigir ajustes na precificação de riscos pelas seguradoras.
 

O Oriente Médio ocupa posição estratégica no mercado mundial de petróleo e derivados, insumos fundamentais para a produção e logística de fertilizantes, como a ureia nitrogenada, além de impactar o transporte global de insumos agrícolas e grãos. Com a intensificação das tensões na região, o preço da ureia nitrogenada já registrou alta de cerca de 33%, segundo monitoramento da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
 

Esse movimento ocorre em paralelo ao aumento do custo do diesel, que ficou cerca de 25% mais caro, ultrapassando os R$ 7 reais, de acordo com levantamento do TruckPag – no início da guerra do Oriente Médio, no final de fevereiro, o preço médio era de R$ 5,74. A combinação desses fatores pode adicionar entre R$ 200 e R$ 300 por hectare ao custo de implantação da safra 2026/27, especialmente em culturas como soja, milho e trigo. 
 

O encarecimento da produção tende a ser refletido no valor segurado das lavouras e, consequentemente, pressiona o valor dos prêmios pagos pelos produtores nas apólices de seguro rural, justamente em um momento em que a contratação do seguro ganha ainda mais relevância para o acesso ao crédito agrícola.
 

Glaucio Toyama, presidente da Comissão de Seguro Rural da Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg), avalia que, em cenários de maior instabilidade internacional e volatilidade de preços, o seguro rural se torna ainda mais estratégico para o produtor. “O seguro rural deve ser visto como uma ferramenta essencial de proteção do sistema de produção agropecuária. Em momentos de turbulência, com custos de insumos e preços agrícolas mais voláteis, essa proteção traz tranquilidade ao produtor diante de eventuais perdas climáticas que podem comprometer ainda mais margens já pressionadas”, disse.
 

Os efeitos desse novo cenário tendem a ser mais visíveis na safra 2026/27. Eventuais atrasos logísticos ou restrições na oferta de fertilizantes podem levar a ajustes no calendário de plantio, redução de área cultivada ou uso menos intensivo de tecnologia, fatores que elevam a percepção de risco de produtividade pelas seguradoras.

Ao mesmo tempo, a crescente vinculação do seguro rural ao crédito agrícola amplia o impacto de qualquer aumento nos prêmios sobre o custo financeiro da atividade. Nesse contexto, os produtores passam a depender ainda mais de apólices compatíveis com sua estrutura de custos e fluxo de caixa. Esse cenário se soma a um momento de fragilidade para o próprio mercado de seguro rural. Dados da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) mostram que o segmento encerrou 2025 com retração de 8,8% na arrecadação, totalizando R$ 12,9 bilhões em prêmios.

A queda ocorre em um momento particularmente sensível: de um lado, a maior exigência de seguro para acesso ao crédito tende a ampliar a relevância da proteção no campo; de outro, o choque de custos provocado pela guerra no Oriente Médio – especialmente via fertilizantes e combustíveis – pressiona o valor das apólices e desafia a sustentabilidade da carteira. Para 2026, as projeções da entidade indicam queda de quase 4%.
 

Esta não é a primeira vez que conflitos internacionais afetam os produtores brasileiros. Em 2023, durante os conflitos entre Rússia e Ucrânia, houve forte pressão para garantir a chegada de fertilizantes ao país, de modo que os produtores tivessem insumos disponíveis para o plantio. “Ao mesmo tempo, o aumento do custo dos ingredientes utilizados na formulação desses fertilizantes no país pressionou, significativamente, as margens do produtor, criando naquele momento um cenário bastante complexo para o planejamento e a análise da atividade agrícola”, contou Toyama.
 

Outro fator de atenção é o risco logístico associado às rotas marítimas da região. Eventuais restrições no Estreito de Ormuz podem elevar fretes, prêmios de risco e os preços internacionais de combustíveis e fertilizantes. Com isso, o custo de implantação da safra tende a subir, elevando também o valor econômico das lavouras seguradas e ampliando a base de cálculo dos prêmios de seguro rural.
 

Diante desse novo ambiente de risco, Toyama defende uma combinação de medidas estruturais para fortalecer o sistema de proteção no campo. O Brasil ainda enfrenta limitações no orçamento de subvenção ao prêmio de seguro rural que restringe a cobertura de áreas agrícolas em um cenário internacional mais volátil como o atual. A falta de recursos contribui para a redução da área plantada segurada. Para este ano, o governo está remetendo um valor aproximadamente de R$ 1 bilhão, com possibilidade de veto. 
 

“A grande briga do setor está em ter a consistência do orçamento para 2026 e derrubada do veto pelo Congresso Nacional nas próximas semanas, o que daria mais tranquilidade para as seguradoras e o segmento agropecuário poder se planejar em relação à consideração em termos de seguros”, concluiu.
 

Em anos em que o custo da produção está elevado e os preços da commodity sendo pressionados com queda de preços, as margens dos produtores são bastante afetadas, logo, o programa de política pública deixa o produtor menos vulnerável em relação às volatilidades climáticas. 

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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