O seguro como pilar invisível da indústria audiovisual 

por Ricardo Minc

Com a proximidade de grandes premiações internacionais, como o Oscar, o audiovisual volta a ocupar o centro do debate cultural e econômico. O olhar do público e da crítica se volta às narrativas, às performances e à inovação técnica, mas pouco se fala sobre um elemento silencioso que sustenta praticamente todas as grandes produções: o seguro. Não como acessório burocrático, mas como parte estrutural da viabilidade do projeto.

Produção audiovisual é criatividade, mas também é operação. Envolve pessoas, cronogramas rígidos, contratos complexos, equipamentos de alto valor, locações sensíveis e exposição constante a terceiros. Nesse contexto, assumir integralmente o risco não é ousadia criativa, é fragilidade financeira. A própria história da indústria demonstra que os riscos não são hipotéticos.

Acidentes em sets de filmagem acompanham o cinema desde sempre. Em 1982, durante a produção de Twilight Zone: The Movie, um helicóptero perdeu o controle e matou três pessoas em cena, em um dos episódios mais graves da história do setor. Décadas depois, em 2021, o filme Rust voltou a expor a vulnerabilidade dos sets quando um disparo com arma cenográfica matou a diretora de fotografia Halyna Hutchins, interrompendo a produção e gerando repercussões jurídicas e financeiras. Há ainda inúmeros casos de dublês gravemente feridos, incêndios em estúdios, acidentes com veículos em cena e produções paralisadas por lesões de atores.

Esses episódios deixam claro que o risco está espalhado por toda a cadeia produtiva. Ele pode estar no elenco, em um equipamento essencial, em uma locação externa, em uma cena de ação ou até em um arquivo digital perdido. O papel do seguro não é eliminar o risco – isso seria impossível – mas impedir que um imprevisto transforme um projeto viável em uma perda irreversível.

Por isso, as produções profissionais recorrem a diferentes camadas de proteção. Há seguros voltados a interrupções e cancelamentos, que preservam o orçamento quando filmagens precisam ser suspensas por acidentes, ordens de autoridade ou falhas operacionais. Outros se concentram no elenco e em profissionais-chave, garantindo a continuidade artística e financeira caso alguém indispensável se torne indisponível. Há coberturas que absorvem impactos de acidentes pessoais e viagens, protegem equipamentos de alto valor e resguardam o material filmado, hoje, em grande parte digital, contra perdas, danos ou corrupção de dados.

Do ponto de vista jurídico, o seguro de Errors & Omissions é o que sustenta o direito de exibir a obra. Ele protege produtores, investidores e distribuidores contra alegações de plágio, uso indevido de imagem, falhas contratuais ou problemas na cadeia de direitos, sendo frequentemente uma exigência para a comercialização do conteúdo.

Um exemplo recente e emblemático foi o caso da minissérie Bebê Rena. Após enorme sucesso de público, a produção passou a enfrentar questionamentos públicos e jurídicos relacionados à representação de pessoas reais, à caracterização dos personagens e aos limites entre narrativa autobiográfica, ficção e direito à imagem. Independentemente do mérito das alegações, o caso ilustra com clareza um ponto central: mesmo obras consagradas, amplamente aclamadas e já distribuídas globalmente permanecem expostas a riscos jurídicos relevantes. É exatamente nesse momento que o seguro de E&O deixa de ser um requisito contratual e se revela um pilar essencial de proteção financeira e continuidade comercial.

Quando a produção envolve cenas de ação, dublês, veículos, aeronaves, embarcações ou efeitos especiais, o risco se intensifica e exige ainda mais rigor. Esses elementos não inviabilizam a criação, mas reforçam uma premissa básica: sem transferência adequada de risco, o custo de um único evento pode superar todo o orçamento do projeto.

Esse aspecto ganha relevância adicional em produções financiadas por fundos públicos, coproduções internacionais ou investimentos privados estruturados. O seguro passa a ser um requisito de governança, transparência e preservação de recursos, contribuindo para a sustentabilidade econômica do setor e para a confiança de investidores, financiadores e parceiros institucionais.No fundo, o seguro atua como um instrumento de governança. Ele impõe planejamento, protocolos de segurança e disciplina financeira. Reduz desperdícios, protege recursos públicos e privados e reforça a confiança de investidores e financiadores. Não é coincidência que investidores exijam limites elevados de responsabilidade civil, não para imobilizar capital, mas para estruturar o risco de forma profissional.

Não por acaso, no setor de seguros o valor pago não é tratado como “custo”, mas como prêmio. É, de fato, um privilégio ter uma produção totalmente segurada. Isso traz tranquilidade, protege o investimento e permite que o produtor concentre tempo e energia no que realmente sabe fazer: produzir e contar histórias. Reter risco é uma decisão profissional. Transferi-lo adequadamente também.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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