Tensões na Venezuela reacendem riscos para seguradoras globais

As cinco maiores seguradoras concentram cerca de 61% do mercado, enquanto as dez principais respondem por aproximadamente 80%

Com agências internacionais

Os recentes desdobramentos políticos e militares na Venezuela voltaram a colocar o país no radar do mercado global de seguros, especialmente em linhas especializadas de não vida, como marítimo, aviação e crédito comercial. Em comunicado, a Morningstar DBRS avalia que, mais do que a exposição direta ao país, o principal risco está nos efeitos regionais, com potencial impacto sobre portos, rotas marítimas e o espaço aéreo do Caribe.

A escalada da tensão inclui a operação militar dos Estados Unidos que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro e na nomeação da vice-presidente Delcy Rodríguez como presidente interina, além do controle das exportações de petróleo venezuelano e da apreensão de navios-tanque. Segundo a agência de rating, esse conjunto de eventos amplia o risco geopolítico na região e tende a afetar cadeias logísticas, transporte internacional e fluxos comerciais.

De acordo com a Morningstar DBRS, a propagação dos riscos para além das fronteiras venezuelanas pode levar à reprecificação de prêmios, ao endurecimento de termos e condições contratuais e à redução da capacidade de resseguro disponível, com impacto direto sobre a rentabilidade e a volatilidade das seguradoras expostas a essas linhas.

No seguro de crédito, a exposição direta ao país segue limitada, mas o aumento das tensões eleva o risco de perdas em carteiras especializadas e de disputas associadas a regimes de sanções internacionais. Esses fatores podem, de forma gradual, pressionar os perfis de risco de seguradoras com atuação relevante na América Latina e no Caribe.

“Para seguradoras diversificadas, o impacto é administrável. Para grupos mais concentrados, os eventos reforçam que o risco geopolítico é persistente e volátil, exigindo gestão ativa e contínua”, afirma Marcos Alvarez, analista da Morningstar DBRS, ao portal portugues ECO.

Mercado doméstico encolhido

A Venezuela já era classificada, historicamente, como um mercado de alto risco, em função da crise econômica prolongada, inflação elevada, controles cambiais, sanções internacionais e insegurança jurídica. Como resultado, a maior parte dos grupos seguradores globais reduziu significativamente ou encerrou suas operações no país ao longo da última década.

Entre as grandes companhias estrangeiras, apenas a Mapfre mantém presença relevante, com cerca de 6% de participação de mercado. Outras deixaram o país anteriormente. Em 2019, a Liberty Mutual vendeu a Seguros Caracas ao grupo liderado pelo empresário chileno Isidoro Quiroga. A companhia ocupa atualmente a segunda posição do mercado, com aproximadamente 20% de participação. No mesmo ano, a Zurich vendeu sua operação local a um grupo venezuelano, que passou a operar sob a marca Real Seguros.

O mercado segurador venezuelano movimentou, em 2024 e 2025, o equivalente a cerca de € 1 bilhão. O valor, no entanto, é fortemente distorcido pela inflação elevada e pela volatilidade do bolívar, o que dificulta comparações em moeda local. Enquanto os prêmios apresentam crescimento expressivo em bolívares, há retração quando convertidos para dólares, em função da desvalorização cambial.

O seguro automóvel responde por cerca de 40% do volume total de prêmios. Os seguros patrimoniais representam aproximadamente 25%, saúde, 15%, e vida, cerca de 12%.

Os principais operadores do mercado são empresas privadas, sem vínculos diretos com o regime político, segundo fontes locais. A líder é a Mercantil, com 26,5% de participação, seguida pela Seguros Caracas, com 20%, Internacional de Seguros, com 6,1%, e Mapfre, com 5,6%. As cinco maiores seguradoras concentram cerca de 61% do mercado, enquanto as dez principais respondem por aproximadamente 80%.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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