Seguro paramétrico: uma proteção financeira para eventos climáticos

Ferramenta já testada em países vulneráveis a eventos climáticos extremos pode reduzir incertezas fiscais, acelerar socorro a populações atingidas e atrair capital privado para a resiliência climática

Por lvan Gonçalves Passos, especialista em grandes riscos

O Brasil convive com um ciclo repetido: chuvas intensas, alagamentos, pedidos de calamidade, verbasemergenciais, reconstrução lenta — e, depois, tudo recomeça. Esse modelo não é só caro. É ineficiente. Em um país onde desastres climáticos levam, em média, R$ 14 bilhões por ano dos cofres públicos, segundo o IBGE, é urgente pensar em ferramentas novas para mitigar impactos. Uma delas vem ganhando força por recomendação do Banco Mundial.

Ao contrário do seguro tradicional, o paramétrico não indeniza com base em laudos de danos físicos. Ele paga quando um indicador objetivo ultrapassa um limite pré- definido. Pode ser a quantidade de chuva medida por estação oficial ou satélite, o nível de um rio ou a intensidade do vento de um ciclone. Se o índice é atingido, o seguro é automaticamente acionado. Sem perícia. Sem burocracia. Com previsibilidade.

Essa dinâmica resolve dois problemas de uma só vez: a demora na liberação de recursos após um desastre e a incerteza orçamentária enfrentada por governos. É o que explica o Banco Mundial em suas estratégias de proteçãofinanceira climática. No Caribe, por exemplo, o Caribbean Catastrophe Risk Insurance Facility (CCRIF) já desembolsou dezenas de milhões de dólares em poucos dias após enchentes e furacões — dinheiro usado parasaneamento, saúde pública e limpeza urbana. Agora mesmo, o governo da Jamaica recebeu US$ 70,8 milhões pela ocorrência do furacão Melissa. Na Ásia, Filipinas utiliza apólices paramétricas para financiar respostas a tufões sem necessidade de decretos de crédito extraordinário. México e Peru têm cat bonds paramétricos que garantem cobertura em terremotos severos. ARC (África) pagou indenizações em até 10 dias a governos atingidos por secas, que utilizaram os recursos para distribuir à população afetada.

No Brasil, a oportunidade é clara. Bacias urbanas como a do Vale do Itajaí, Rio Taquari ou a Região Metropolitana de São Paulo poderiam ser protegidas com contratos baseados em gatilhos de chuva acumulada, medidas por redes do Cemaden, da ANA

ou satélites internacionais. Estados ou consórcios de municípios poderiam firmar apólices com valores pré-ajustados, recebendo indenizações automáticas após eventos críticos.

No Brasil a ABGF (Agência Brasileira Gestora de Fundos Garantidores e Garantias), empresa pública federal vinculada ao Ministério da Fazenda, tem vocação para coordenar esse tipo de instrumento. Ela poderia agrupar estados e municípios em um pool de riscos nacional ou regional, padronizar índices climáticos e negociar com seguradoras e resseguradoras. Com a ABGF no papel de coordenador técnico e institucional, o Brasil poderia finalmente integrar finanças a estratégias climáticas

Para o mercado segurador, trata-se de uma fronteira de inovação promissora, seguradoras e resseguradoras locais e globais já têm capacidade técnica para construir índices, calibrar riscos e oferecer contratos em reais. Agovernança é crucial: índices transparentes, gatilhos auditáveis, contratos simples e uma arquitetura de dados confiável.

Adotar seguros paramétricos é uma escolha estratégica. Não substitui medidas de adaptação física, comodrenagem urbana, reflorestamento de encostas ou códigos de obra mais rígidos. Mas reduz danos econômicos e acelera a reconstrução. Dá ao poder público uma ferramenta moderna para transitar de uma lógica reativa e fragmentada para uma gestão financeira proativa, baseada em dados e compartilhada com o mercado.

E, sobretudo, reconhece que os efeitos das enchentes, inundações, queimadas, secas, entre outras catástrofesclimáticas, já não devem ser tratadas como eventos excepcionais. Fazem parte do novo normal climático. E exigem soluções possíveis, como o seguro.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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