Quando Maria Eduarda Bomfim — mais conhecida no mercado como Duda — iniciou sua trajetória profissional, a cadeira de CEO não fazia parte dos planos. “Quando comecei minha trajetória profissional, eu nunca tinha pensado em chegar na cadeira de CEO”, conta. Naquele momento, o foco era outro: conquistar espaço, adquirir conhecimento e executar cada desafio com dedicação e esmero. A ambição, segundo ela, era ser reconhecida pela qualidade do trabalho e, a partir disso, alcançar novas posições.
Antes de ingressar no mercado de resseguro, Duda teve uma rápida passagem por um banco de investimentos, experiência que já a colocou em contato com ambientes altamente masculinos. No resseguro, essa característica se manteve. “Minha preocupação era sempre ser reconhecida pelo meu trabalho”, afirma. A chegada ao cargo de CEO foi consequência natural de um percurso consistente, construído com disciplina, entrega e curiosidade intelectual.
Para Duda, ser mulher nunca foi um obstáculo — ao contrário. “Acho que ser mulher é uma vantagem, já que nascemos com espírito de resiliência inconsciente”, diz. Ela destaca características que associa à experiência feminina, como a capacidade de lidar com múltiplas demandas e a curiosidade constante, atributos que considera especialmente valiosos em ambientes de alta performance e competição. “Somos naturalmente multitarefas e curiosas, o que acaba sendo uma grande virtude.”
Ao falar sobre diversidade, Duda amplia o olhar para além do recorte de gênero. Em sua avaliação, as barreiras atuais estão muito mais ligadas a questões culturais e educacionais. “As barreiras de diversidade, não somente de gênero, mas sob todos os aspectos, estão muito mais ligadas a questões culturais e de educação”, afirma. Para acelerar avanços, ela defende diálogo contínuo, treinamentos regulares, programas de apoio e mentoria para mulheres em início de carreira e em fase de ascensão, além de políticas parentais equitativas, flexibilidade de jornada e foco consistente em meritocracia.
A executiva é enfática ao destacar os ganhos concretos de ambientes diversos. “Um ambiente de trabalho diverso e equipes multidisciplinares geram resultados impressionantes”, afirma. Para ela, o benefício se distribui de forma ampla, alcançando acionistas, colaboradores, stakeholders e os próprios indivíduos, enquanto seres humanos.
O cenário de negócios para 2026, segundo Duda, será desafiador não apenas pelas transformações regulatórias e tecnológicas, mas também pelo contexto de mercado. O setor ainda atravessa um ciclo considerado super soft, com quedas acentuadas de taxas em praticamente todas as linhas de negócio. “Apesar dos recentes eventos climáticos que começaram a afetar o Brasil com maior frequência, ainda não vimos uma retração de capacidade ou endurecimento de taxas”, observa, lembrando que o mesmo movimento é visto no mercado internacional, mesmo diante de perdas relevantes.
Foi nesse contexto que a Latin Re decidiu se antecipar. “Há quase 24 meses já vínhamos nos preparando e pensando em como podemos fazer mais, de maneira mais eficiente”, explica. A estratégia incluiu otimização de recursos, ganho de escala em volume e expansão territorial, além do aprimoramento de estruturas já desenvolvidas para parceiros. Um dos movimentos mais emblemáticos foi a criação de uma inteligência artificial própria. “Criamos nossa própria IA, a LARA, para nos auxiliar em nossos processos dentro de um ambiente controlado”, conta. Segundo Duda, a solução garante segurança da informação para clientes e parceiros, ao mesmo tempo em que amplia eficiência e resultados.
As mudanças regulatórias, embora tragam ruídos e algum grau de insegurança, também são vistas como oportunidade. “Esse momento traz a chance de gerar um ambiente de confiança e credibilidade e fortalecer parcerias estratégicas”, afirma. Para ela, o mais importante é manter-se aberta ao diálogo e à construção de soluções personalizadas que atendam às necessidades específicas de cada player. “Mudanças sempre geram ruídos, mas é nelas que surgem grandes oportunidades.”
Ao falar com mulheres que almejam posições executivas, Duda é direta na mensagem. “Eu gostaria que as mulheres pudessem acreditar genuinamente que podemos ser o que quisermos”, afirma. Para ela, mais do que discursos, é fundamental uma convicção interna de que não existem impeditivos reais para quem deseja avançar. “Somos incansáveis, naturalmente resilientes e curiosas.”
No mundo corporativo atual, marcado por machine learning e inteligência artificial, Duda acredita que as soft skills ganham ainda mais relevância. “Nossos traços de personalidade, comportamentais e nossa experiência são o grande diferencial”, diz. E faz uma reflexão final sobre o ambiente de trabalho como um todo: “O mundo corporativo ainda carece muito de empatia.” Na sua visão, ambientes mais empáticos ajudariam a tornar desnecessárias, no futuro, conversas recorrentes sobre equidade e diversidade — porque elas já estariam plenamente incorporadas à cultura das organizações.


















