Jamaica recebe US$ 150 milhões por título catastrófico após furacão Melissa – e lição serve de alerta ao Brasil

Com a intensificação de eventos extremos — enchentes, secas e deslizamentos —, cresce a necessidade de estruturar mecanismos de proteção financeira climática, seja via seguros paramétricos, fundos soberanos de resiliência ou títulos catastróficos

O Banco Mundial anunciou nesta sexta-feira, 7, que, após a passagem devastadora do furacão Melissa, o governo da Jamaica receberá pagamento integral de US$ 150 milhões referente ao seu título catastrófico paramétrico IBRD CAR Jamaica 2024, lançado em parceria com a instituição. O título foi criado justamente para prover proteção financeira rápida em caso de desastres naturais severos — como o que atingiu o país em outubro.

Segundo o Banco Mundial, a decisão foi tomada após análise técnica da AIR Worldwide Corporation, que confirmou que o furacão Melissa atingiu os parâmetros predefinidos (como pressão central e trajetória do olho do furacão) para o acionamento total da apólice. “Nossos pensamentos estão com o povo da Jamaica neste momento de reconstrução. A estratégia abrangente de gestão de riscos do país serve de modelo para outras nações que enfrentam ameaças semelhantes e buscam fortalecer sua resiliência financeira”, afirmou Jorge Familiar, vice-presidente e tesoureiro do Banco Mundial.

Ele destacou que o pagamento reforça o papel dos títulos catastróficos (cat bonds) como instrumentos eficazes de gestão de risco, capazes de transferir perdas de desastres naturais para o mercado de capitais global, aliviando a pressão sobre os cofres públicos. O pagamento à Jamaica será financiado por investidores de diversas regiões do mundo, refletindo a natureza colaborativa e internacional do instrumento.

Na emissão do título, 15 investidores globais participaram, com alocação de 66% em fundos especializados em seguros e resseguros (ILS), 1% em companhias seguradoras e resseguradoras e 33% em gestores de ativos. Geograficamente, os recursos vieram de 43% dos Estados Unidos, 40% da Europa, 14% das Bermudas e 3% da Ásia e Austrália.

Além da indenização automática do cat bond, o Banco Mundial mobilizou um pacote de apoio à Jamaica, incluindo financiamento emergencial, reprogramação de recursos de projetos existentes e suporte do setor privado por meio da IFC. “O compromisso da Jamaica com a preparação está provando seu valor — permitindo uma transição rápida do socorro à reconstrução, e abrindo caminho para uma infraestrutura mais resiliente”, disse Susana Cordeiro Guerra, vice-presidente do Banco Mundial para a América Latina e o Caribe.

O desembolso integral deve ocorrer até 1º de dezembro, e marca mais um exemplo de como o uso de seguros e instrumentos financeiros inovadores pode acelerar a resposta a catástrofes climáticas — tema central da COP30, que será realizada em 2025 em Belém (PA).

Exemplo para o Brasil

Com o mundo reunido em Belém para discutir financiamento climático, o exemplo da Jamaica mostra que o seguro pode ser uma poderosa ferramenta de política pública, transformando solidariedade em resiliência financeira.

Com a intensificação de eventos extremos — enchentes, secas e deslizamentos —, cresce a necessidade de estruturar mecanismos de proteção financeira climática, seja via seguros paramétricos, fundos soberanos de resiliência ou títulos catastróficos. Eventos como a catástrofe no Rio Grande do Sul, no litoral de São Paulo, só para citar os mais recentes com excesso de chuvas, mostram a urgência deste tipo de parceria entre governo e setor de seguro.

Enquanto países do Caribe já utilizam instrumentos como o IBRD Cat Bond Facility e o CCRIF (Caribbean Catastrophe Risk Insurance Facility), o Brasil ainda engatinha na adoção de soluções de transferência de risco climático em larga escala. A criação de um mercado nacional de seguros paramétricos, envolvendo o setor privado e o Tesouro, poderia acelerar a recuperação de estados e municípios após desastres, reduzindo o impacto fiscal e social.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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