Mudanças climáticas expõem vulnerabilidade do agronegócio brasileiro, alertam líderes 

CNseg participa do I Fórum de Buenos Aires e apresentou os impactos da crise climática no agronegócio

por Carla Simões

“Os efeitos dos eventos climáticos que vivemos hoje têm impacto no custo, na modelagem e na precificação de risco das seguradoras. A metodologia tradicional de riscos com base no passado se torna cada vez menos efetiva porque o futuro não se comportará mais como no passado”, disse o presidente da Confederação Nacional das Seguradoras durante o painel “Mudanças climáticas e impactos no setor agropecuário”, no I Fórum de Buenos Aires, realizado nesta sexta-feira (7), na Faculdade de Direito da Universidade de Buenos Aires (UBA). 

Dyogo Oliveira participou do painel ao lado de autoridades e especialistas que discutiram os riscos climáticos e os desafios econômicos e jurídicos que ameaçam o agronegócio que responde por 25% do PIB brasileiro.

Oliveira trouxe números alarmantes: as perdas diretas causadas por eventos climáticos no Brasil somaram R$ 180 bilhões entre 2022 e 2024, sendo 50% concentradas no agronegócio. “Estamos falando de R$ 30 bilhões por ano apenas no agro. E, paradoxalmente, apenas 2,5% da área plantada no Brasil tem seguro rural. Esse índice já foi 16% em 2020 e vem caindo”, alertou. 

Ele defendeu a aprovação do Projeto de Lei 2951, que torna os recursos do Programa de Subvenção ao Seguro Rural fora dos anúncios de contingenciamento do governo federal. “Este ano tinha R$ 1 bilhão no orçamento destinado para o seguro rural e 50% disso foi contingenciado. É preciso avançar. Sem seguro, não há como enfrentar os impactos das mudanças climáticas”, acrescentou. 

O executivo reforçou que o tema é preocupante porque terá impacto na macroeconomia. Por isso, a participação do Ministério da Fazenda neste debate é fundamental porque já que terá efeitos no crescimento do País. 

Fávaro anuncia novo modelo obrigatório

O ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro, reconheceu a fragilidade do sistema atual e anunciou mudanças estruturais no próximo ano, respondendo à fala do presidente da CNseg. “Até meados de 2026 teremos um novo marco do seguro rural no Brasil”. 

Para Favaro, o seguro rural no Brasil se tornou ineficiente e inapropriado e garantiu que o governo está trabalhando para universalizar sua obrigatoriedade para quem busca crédito oficial. “Quem quiser recursos equalizados terá que contratar seguro. Isso reduzirá custos e evitará medidas emergenciais como os R$ 12 bilhões liberados este ano para repactuar dívidas de produtores afetados por intempéries”.

Fávaro também destacou iniciativas para ampliar a produção sem avançar sobre áreas de floresta: “O que nos trouxe até aqui não é o que levará o Brasil aos próximos 50 anos. Criamos programas como Caminho Verde e Solo Vivo para recuperar áreas degradadas e dobrar a produção sem desmatamento”.

Judiciário alerta para litigância climática

Paulo Sérgio Domingues, ministro do Superior Tribunal de Justiça, trouxe a perspectiva jurídica para a questão climática e os impactos no agronegócio.  “Mudanças climáticas não são mais um tema abstrato. Elas desafiam contratos, investimentos e a própria segurança jurídica. Como planejar um investimento de longo prazo se a estabilidade climática não existe mais? Estamos diante de uma crise de incerteza”, afirmou.

Ele defendeu regras claras e combate rigoroso ao desmatamento ilegal. “Desmatamento não é desenvolvimento, é crime. Quem pratica crime ambiental não pode se apresentar como empreendedor rural. A litigância climática será o novo normal”, alertou.

Setor financeiro pede convergência e eficiência

O presidente do Conselho de Administração do Bradesco reforçou a urgência de integrar produção e preservação. Segundo Luiz Carlos Trabuco, nos últimos 30 anos, a área plantada cresceu 115%, mas a produção aumentou 456%, graças à tecnologia. Agora, o desafio é harmonizar eficiência e sustentabilidade. 

Trabuco disse que a COP30 em Belém, onde participará em debates na Casa do Seguro, é uma grande oportunidade para alinhar a convergência e a prática. “O mercado de carbono precisa evoluir. O mundo tem aprendido que não há prosperidade sem equilíbrio climático”.

Antonio Zanette, consultor da Comissão Nacional de Direito Agrário e do Agronegócio da OAB, ressaltou a importância da cooperação entre Brasil e Argentina: “Este fórum é um marco para integrar direito, economia e agricultura no Mercosul. Precisamos construir convergência regulatória e políticas públicas que combinem produção, preservação e justiça”, afirmou.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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