Do financiamento à adaptação: o papel estratégico do seguro na nova agenda da infraestrutura brasileira 

Qual é o futuro da infraestrutura brasileira diante das crescentes ameaças climáticas? “Sem seguro, não existe infraestrutura e, sem infraestrutura resiliente, o país não enfrenta a crise climática”, afirmou Dyogo Oliveira, presidente da CNseg, ao abrir a tarde de debates desta terça-feira (18), na Casa do Seguro, durante a COP30, em Belém (PA). 
 

O evento reuniu representantes do governo, especialistas internacionais, seguradoras, transportadoras e investidores, com o objetivo de debater como o setor pode sustentar o maior ciclo de obras previsto para o Brasil nas próximas décadas. 
 

Promovido pela CNseg em parceria com Abdib, SEPPI e o Ministério de Portos e Aeroportos, o Fórum de Seguros e Infraestrutura Sustentável explorou os desafios de financiar, proteger e adaptar projetos estruturais diante da necessidade de resiliência, segurança jurídica e inovação.
 

Na abertura, Dyogo Oliveira destacou avanços na estruturação de concessões e parcerias público-privadas (PPPs), mas apontou a existência de uma “lacuna de proteção” que dificulta o pleno acesso ao financiamento. O ponto central, segundo Oliveira, é integrar o mercado de seguros desde as primeiras etapas dos projetos. 
 

Tomé Franca, secretário-executivo do Ministério de Portos e Aeroportos, reforçou a relevância da previsibilidade jurídica e da modernização das matrizes de risco, enquanto Venilton Tadini, presidente da Abdib, alertou que o novo ciclo de investimentos exige evolução equivalente em produtos de seguro e engenharia de risco.
 

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Tomé Franca, secretário-executivo do Ministério de Portos e Aeroportos

As falas de abertura confluíram para um consenso: o Brasil possui demanda crescente, capacidade técnica e projetos estruturados, mas esbarra nas exigências de financiamento, proteção climática e garantias jurídicas – fatores que precisam caminhar juntos para destravar o potencial das obras públicas.​
 

Seguro: chave para destravar investimentos

O primeiro painel aprofundou o desafio de garantir que os recursos bilionários do Novo PAC, além das concessões e PPPs previstas para os próximos anos, possam viabilizar infraestrutura com qualidade e gestão eficiente de riscos. 
 

André Dabus, diretor de Infraestrutura e Construção da Marsh Brasil; Antonio Silveira, vice-presidente de Setor Privado da CAF; Denis Maelaro, diretor técnico de P&C, Specialties e Engenharia de Riscos da AXA; e Helena Venceslau, diretora de Assuntos Econômicos do Ministério de Portos e Aeroportos, discutiram caminhos para ampliar a participação do setor segurador na etapa prévia dos projetos, onde decisões cruciais sobre garantias, produtos e padrões técnicos são tomadas.
 

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Painel 1 – Seguros Como Instrumento de Proteção dos Investimentos em Infraestrutura

Os integrantes do painel apontaram avanços recentes, mas consideraram a necessidade urgente de padronização dos instrumentos de garantia, maior diálogo técnico entre transportadoras, seguradoras e financiadores, além de portfólio de produtos adaptados às novas exigências do clima, tecnologia e regulação. 
 

O ponto crítico, destacado por Silveira, é migrar de garantias estatais para mecanismos seguros robustos capazes de sustentar operações de project finance de longo prazo. “O grande desafio é migrar de garantias estatais para um mercado segurador mais robusto”, afirmou.
 

Helena Venceslau enfatizou a importância de alinhamento de contratos de longa duração com riscos emergentes e dinâmicos. “Riscos mudam. E, se mudam, contratos precisam ser revisados”, sintetizando o consenso sobre necessidade de políticas públicas e instrumentos flexíveis que deem previsibilidade e confiança aos investimentos.
 

Infraestrutura como motor de adaptação climática

O segundo painel abordou a pressão dos eventos climáticos extremos sobre os sistemas essenciais como saneamento, energia e transporte, setores cujas falhas afetam diretamente a saúde pública e o funcionamento das cidades. 
 

Com a participação de Ranjini Mukherjee, diretora de Research, Knowledge Management and Capacity Development da CDRI; Rogério de Paula Tavares, vice-presidente de Relações Institucionais da Aegea; e Rogério Moreira Jacobsen, gerente de Suporte a Projetos de Clientes PJ da Tokio Marine, o debate mostrou que a resiliência climática já é realidade urgente, ampliando custos, reduzindo margens e exigindo modernização das infraestruturas urbanas.
 

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Painel 2 – COP30: Infraestrutura Como Indutora do Desenvolvimento Sustentável

Tavares apresentou soluções práticas em saneamento, área que considera estratégica para a adaptação. “Saneamento é a infraestrutura mais importante para adaptação. Na seca, garante água; na enchente, evita doenças”, disse, relacionando impactos ambientais e sociais.
 

Jacobsen reforçou que o setor segurador está preparado para atuar, mas defende a participação desde a concepção das obras, não apenas como instrumento de transferência final de riscos. “Seguradora que só aparece no fim não consegue entregar proteção adequada”, destacou.
 

A contribuição internacional de Ranjini reforçou que os países que integraram o planejamento urbano, o financiamento e os seguros avançaram mais rapidamente e com menor custo social na agenda climática.
 

Guia Prático inaugura novo marco institucional

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Painel de lançamento do Guia Prático de Seguros e Capitalização para Concessões e PPPs

No encerramento, foi lançado o Guia Prático de Seguros e Capitalização para Concessões e PPPs, elaborado pela CNseg, SEPPI e Ministério de Portos e Aeroportos. 
 

Apresentado por Denis Morais, presidente da FenaCap; Manoel Renato, secretário-adjunto de Infraestrutura Social e Urbana da SEPPI; Helena Venceslau; e Esteves Colnago, diretor de Relações Institucionais da CNseg, o documento é um marco na tentativa de aproximar as linguagens do setor público e privado.

O documento oferece diretrizes claras sobre critérios mínimos contratuais, produtos adequados para cada fase de concessão e práticas para mitigar conflitos entre seguradoras, transportadoras e reguladores.​
 

“O guia mostra que é possível alinhar tantos órgãos diferentes em torno de uma mesma linguagem”, disse Helena Venceslau. Morais ressaltou que o material inaugura novo momento institucional. “É o pontapé inicial para transformar debates em prática.”

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Denis Morais, presidente da FenaCap

Consenso para o futuro

No início ao fim, o Fórum deixou claro que o seguro passou de componente burocrático para elemento estratégico no financiamento, execução e resiliência climática das obras brasileiras. O consenso entre especialistas foi de que só será possível avançar no portfólio de investimentos de infraestrutura com previsibilidade e instrumentos capazes de acompanhar riscos ambientais e tecnológicos.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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