IBDS comemora a vitória da lei de contrato de seguro, mas acompanha com lupa as discussões da revisão do Código Civil

Evento do IBDS celebra 25 anos da entidade e a consolidação de um marco legal moderno para o setor

O auditório do MASP e o Teatro Municipal, em São Paulo, são palco nesta semana de um momento simbólico para o mercado de seguros e para o direito brasileiro. O Instituto Brasileiro de Direito do Seguro (IBDS) celebra seus 25 anos de fundação, entre os dias 16 e 18, com a sensação de ter concluído um ciclo histórico: a aprovação da nova Lei de Contrato de Seguro (Lei nº 15.040/2024), resultado de quase duas décadas de debates, estudos e negociações no Congresso Nacional e com entidades representativas do setor, como a Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) e a Federação Nacional dos Corretores de Seguros (Fenacor), justamente aquelas que, no passado, estiveram entre as que mais resistiram à proposta.

“Persistimos. E chegou a vitória. É uma lei moderna, sólida e construída com base no diálogo e na boa-fé”, afirmou Ernesto Tzirulnik, presidente do IBDS, em seu discurso de abertura. Ele lembrou o papel fundamental de entidades como CNseg, Fenacor, IRB(Re), o grupo espanhol Mapfre e resseguradores internacionais que “visitaram cada senador para mostrar que era possível conviver com uma lei de seguros no Brasil, apesar de muitos verem isso como um problema”.

Após longas conversas e defesas, a aprovação da lei foi unânime na Câmara e no Senado e sancionada sem vetos pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Promulgada em dezembro passado, a lei entra em vigor em dezembro de 2025, com pequenos ajustes ainda aguardados na regulamentação a ser anunciada pela Susep, especialmente no que diz respeito ao resseguro. “É uma legislação que traz, entre outros pontos, a consolidação das normas do setor, maior interação e crescimento da tecnologia, no sentido de atender às necessidades do consumidor e da sociedade brasileira”, disse Oliveira em recente evento realizado em Brasília.

Tzirulnik citou a frase “o mundo vai ver uma flor impossível do chão”, trecho da música Sonho Impossível, de Chico Buarque e Ruy Guerra. A letra sintetiza a ideia de superação e esperança, sugerindo que a conquista daquilo que parecia inalcançável é uma vitória coletiva. A imagem da “flor impossível” brotando do chão representava a própria decoração do evento, realizada com um refino totalmente aderente à sustentabilidade.

O ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo, autor do Projeto de Lei nº 3.555/2004, que deu origem à nova norma, classificou o resultado como “um exemplo raro de convergência institucional no país”. “Tivemos apoio de forças políticas divergentes, de esquerda e de direita, de juristas, empresários e reguladores. Foi uma vitória da técnica sobre a ideologia”, disse.

Para o jurista Fábio Ulhoa Coelho, professor titular da PUC-SP, o avanço da lei reflete o embate natural entre grupos de interesse. “Toda boa lei suprime privilégios de alguns em benefício da coletividade. E a sociologia mostra que os prejudicados se mobilizam muito mais do que a imensidão dos beneficiados”, observou.

O superintendente da Susep, Alessandro Octaviani, reforçou o caráter civilizatório da conquista. “Trata-se de uma proposta de país, que olha para o futuro sem desprezar o passado. A lei, que é fruto de um imenso fruto de diálogos, traz segurança jurídica e prepara o Brasil para uma economia mais sofisticada, baseada em confiança e transparência. É um instrumento de desenvolvimento nacional, um pedacinho do futuro do nosso mercado, que certamente aumentará a confiança e o fluxo de negócios ao proteger a sociedade brasileira.”

Em mensagem enviada ao evento, e secretário de Reformas Econômicas do Ministério da Fazenda, Marcos Pinto, ressaltou a importância macroeconômica do novo marco. “Seguimos empenhados em equilibrar as contas públicas, eliminar privilégios e preservar gastos sociais eficientes. Nenhuma lei aprovada neste governo representa tão bem o espírito das reformas microeconômicas quanto a nova Lei de Contrato de Seguro. Nosso mercado convivia com um arcabouço ultrapassado que impedia seu desenvolvimento”.

Um marco em meio à incerteza política

A professora e jurista Judith Martins-Costa, homenageada juntamente com o fotógrafo Sebastião Salgado no primeiro dia do evento, foi um dos nomes mais aplaudidos. “Nada sabia sobre seguros quando fui chamada por Ernesto, em 2002, para pensar uma lei. O que me encantou foi o processo: democrático, refletido, de escuta mútua. Este projeto nos educou. É uma lei que pensa no país, feita para o país”, afirmou.

O texto em discussão tenta reintroduzir regras gerais de seguros dentro do novo Código Civil, o que, na prática, pode esvaziar a eficácia da nova lei, aprovada após 21 anos de tramitação. “A política é imprevisível. Neste governo, que sancionou a lei, o risco é pequeno. Mas, se houver troca de governo, não se pode descartar movimentos de revisão. Política é algo instável em nosso país”, comentou um dos participantes em condição de anonimato.

Para as seguradoras, o risco não é apenas jurídico, mas também financeiro: a adaptação à nova legislação exige investimentos milionários em sistemas, contratos e treinamento, que podem se tornar inúteis caso o Código Civil — em vigor desde 2002 e atualmente em processo de revisão, com a proposta de atualização de mais de 900 artigos e inclusão de 300 novos dispositivos — volte a prevalecer.

Apesar da celebração pelo teor da lei e pelo processo de aprovação, há no ar um tom de atenção. “A lei foi gestada por anos, submetida ao contraditório e ao teste parlamentar. Utiliza a linguagem jurídica com precisão e equilíbrio. É o oposto da proposta de seguros que hoje tenta alterar o Código Civil — redigida às pressas, em linguagem coloquial e sem o Brasil como pano de fundo”, afirmou Judith.

Recorrendo ao escritor português José Saramago, ela destacou a necessidade de garantir a efetividade da norma: “Suponho ter sido esta a única vez que, em qualquer parte do mundo, um sino, uma campânula de bronze inerte, depois de tanto haver dobrado pela morte de seres humanos, chorou a morte da Justiça.” Judith então comentou: “os sinos estão tocando. Comemoremos como devemos comemorar esta lei. Louvemos o esforço descomunal do IBDS desde 2001 para dar ao Brasil uma regulamentação voltada à realidade social e aos ditames constitucionais. Peço perdão pela disrupção ao comentar o risco do Código Civil. Os sinos existem. Eles soam. Ouçamos o som dos sinos. Comemoremos, mas não nos esqueçamos dos dotes que estão a soar”.

Nos bastidores, conversas com fontes que estavam na plateia — formada por advogados, magistrados, reguladores, executivos e acadêmicos — transmitiam a impressão de que a luta não terminou. A vitória legislativa foi conquistada, mas a batalha pela eficácia e pela sobrevivência política da nova lei está apenas começando. Há incômodo com o que virá da redação do novo Código Civil, relatado por Rodrigo Pacheco, que tem reiterado à imprensa que “o novo Código Civil será resultado de uma construção coletiva”.

Como presidente do Senado Federal e do Congresso Nacional de 2021 até 2025, Pacheco teve papel decisivo na aprovação da Lei 15.040, garantindo sua unanimidade. Todos concordam que o apoio do governo Lula foi crucial. Caso haja mudança de governo nas eleições de 2026, há um pequeno risco quanto ao futuro tratamento do tema “seguro” no Código Civil — ainda sem prazo definido, mas certamente sujeito a um longo processo, semelhante ao percorrido pela lei proposta por Tzirulnik.

Outro ponto levantado durante o intervalo do almoço foi a judicialização. Há temor de que, com a entrada em vigor da lei, surjam disputas judiciais envolvendo pedidos de indenização relativos a contratos anteriores à validade da 15.040. Um cenário de desconfiança entre os players seria um contrassenso à própria essência do contrato de seguro — a boa-fé. Durante a Conseguro 2025, em maio, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Fux, afirmou que a nova lei de seguros só deverá ser aplicada a contratos celebrados após sua entrada em vigor.

“Foram 21 anos de luta sem trégua”, relembrou Tzirulnik. “Nesse período, o projeto foi examinado, debatido e aperfeiçoado com a colaboração de inúmeros juristas e profissionais do mercado, brasileiros e estrangeiros. Cabe-nos agora produzir doutrina responsável e construtiva, assim como estimular jurisprudência cuidadosa, ambas livres de atecnia e de subordinação a interesses econômicos — vícios que o IBDS tanto batalhou para corrigir durante o último quarto de século. O importante é que a lei e sua futura regulamentação infralegal melhorarão substancialmente as relações contratuais securitárias no país e conduzirão a um mercado maior e melhor protegido.”

Agenda

O evento também celebrou os 40 anos do escritório ETAD – Ernesto Tzirulnik Advocacia, reconhecido por seu apreço à cultura e pela sofisticação de suas iniciativas. Nesta edição, o projeto cultural “Ceará 202” foi apresentado em 16 de outubro, com show da banda Nave Mãe, legado do compositor e multi-instrumentista Hermeto Pascoal, falecido em setembro.

Na noite seguinte, 17 de outubro, haverá um coquetel no Teatro Cultura Artística, seguido de apresentação de Renato Braz, Andreas e Iohan Kisser, Toninho Ferragutti, Ulisses Rocha, Nelson Ayres, Salomão Soares, Hércules Gomes, Neymar Dias e João Camarero, curador musical da noite. O encerramento, com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, reforçará a dimensão institucional da aprovação da Lei 15.040, culminando em um show de Paulinho da Viola — artistas que, segundo a organização, “simbolizam um Brasil que, entre avanços e riscos, tenta equilibrar técnica, política e cultura na construção de seu futuro jurídico”.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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