Saúde ganha protagonismo na COP30 em meio à tripla crise planetária, segundo Samplemed

Mudanças climáticas ampliam riscos de doenças e pressionam sistemas de saúde; setor de seguros surge como aliado na prevenção e adaptação.

Por Denise Bueno

A relação entre saúde e mudanças climáticas só começou a ganhar maior relevância global a partir da COP28, realizada em 2023 nos Emirados Árabes. Foi nesse encontro que governos assinaram a Declaração sobre Clima e Saúde, reconhecendo a urgência de medidas para enfrentar os impactos climáticos sobre a vida humana. Dois anos depois, a expectativa é que a COP30, em Belém do Pará, em 2025, coloque o tema no centro das discussões.

Para a médica Simone Melnick, responsável por pesquisa e subscrição na Samplemed, esse avanço ainda é incipiente. Um estudo do Instituto de Estudos Avançados da USP, publicado em fevereiro de 2025, mostrou que as políticas brasileiras de clima e saúde caminham de forma desarticulada. “No Brasil, persiste a falta de sinergia entre políticas de clima e saúde, somada à baixa percepção do risco, à carência de dados e à insuficiente capacitação de profissionais para lidar com essa agenda”, observa. 

O estudo mostra que ainda são raras as comparações entre custos de impactos na saúde e benefícios de medidas preventivas, além de persistirem falhas na notificação de mortes e doenças associadas a eventos climáticos extremos.

“Se alguém morre afogado numa enchente, a causa de óbito aparece apenas como afogamento, sem ligação com um desastre climático. Isso distorce os dados e impede políticas públicas eficazes”, alerta a médica.

A chamada “tripla crise planetária” — mudanças climáticas, poluição e perda da biodiversidade — já está refletida em surtos e padrões de adoecimento. Entre os exemplos citados por Simone:

  • Doenças respiratórias (asma, alergias) agravadas pela poluição do ar.
  • Doenças infecciosas (dengue, chikungunya, malária, febre amarela), impulsionadas pela elevação da temperatura e pela alteração da geografia de vetores.
  • Doenças cardiovasculares, associadas tanto ao calor extremo quanto à má qualidade do ar.
  • Transtornos mentais (ansiedade, depressão e estresse pós-traumático), comuns após enchentes e deslizamentos.
  • Impacto dos agrotóxicos, que formam um ciclo vicioso: usados em excesso para compensar perdas agrícolas causadas pelo clima, emitem gases de efeito estufa, reduzem a oferta de alimentos saudáveis e favorecem tanto a desnutrição quanto a obesidade.

Estudos recentes reforçam essas preocupações: em julho de 2025, a revista The Lancet Planetary Health publicou um estudo que encontrou evidências de que a exposição prolongada à poluição do ar aumenta a incidência de demência por meio de mecanismos inflamatórios e estresse oxidativo no cérebro.

De acordo com Simone, os impactos recaem de forma desproporcional sobre povos indígenas, pequenos agricultores, moradores de áreas urbanas precárias, pessoas em situação de rua, crianças e idosos.

“As crianças têm sistemas imunológicos ainda em desenvolvimento e ficam mais expostas ao calor e à poluição. Já os idosos, pela perda de massa muscular e menor regulação da temperatura, enfrentam maior risco de desidratação e agravamento de doenças pré-existentes”, explica.

Seguros como ferramenta de adaptação

Nesse cenário, o setor de seguros aparece como um aliado estratégico para financiar adaptação e resiliência. Simone defende o desenvolvimento de produtos mais inclusivos e personalizados, voltados a populações vulneráveis e a doenças ligadas ao clima.

Ela cita também a necessidade de novos modelos de subscrição que considerem dados preditivos: “Assim como conseguimos na Covid-19 correlacionar morbidade e mortalidade à pandemia, é possível usar dados estruturados para monitorar padrões relacionados ao clima. Mas para isso precisamos investir em modelos mais ágeis e integrados”.

Um exemplo vem da própria Samplemed, que desenvolve a plataforma digital S.360, integrando dados de saúde, geográficos e comportamento para apoiar seguradoras na avaliação de risco e na criação de novos produtos.

Entre as soluções que já vêm sendo adotadas pela Samplemed, destaca-se a ferramenta de Pontuação de Saúde desenvolvida pela dacadoo, inclusa também no s.360, que utiliza ciência comportamental e monitoramento em tempo real para incentivar escolhas mais saudáveis no dia a dia. Além de contribuir para a prevenção de riscos de saúde e a redução da sinistralidade, a ferramenta também estimula a adoção de práticas sustentáveis, mostrando como pequenas mudanças individuais podem gerar impacto coletivo.

A agenda em Belém prevê o lançamento do relatório GeoBrasil 2025, elaborado pelo PNUMA em parceria com o Ministério do Meio Ambiente e a FGV. O documento terá capítulos temáticos — saúde, cidades, agricultura, indústria, recursos hídricos e biodiversidade — que dialogam entre si.

Para Simone, a COP30 é a chance de consolidar o conceito de “One Health” (Uma Só Saúde), que integra saúde humana, animal e ambiental. “Não dá mais para tratar essas áreas de forma isolada. Assim como os eventos climáticos impactam todos os ramos de seguro — vida, saúde, automóvel, patrimoniais —, também a saúde precisa ser entendida em sua interdependência com o meio ambiente”.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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