Munich Re e Swiss Re alertam para riscos crescentes e reforçam papel estratégico do resseguro

Ambas as companhias reforçam que o mercado entra na temporada de renovações de 2026 com demanda em alta e capacidade estável, o que deve garantir equilíbrio, mas também manter a disciplina de preços

No tradicional encontro anual de Monte Carlo, que marca o início das discussões para as renovações de janeiro, Munich Re e Swiss Re trouxeram mensagens claras: o mercado global de resseguros vive um ambiente de riscos crescentes e demanda elevada, no qual a disciplina de preços, a robustez de capital e a inovação em soluções de transferência de risco serão determinantes para garantir a resiliência da indústria.

Para a Munich Re, a conjuntura geopolítica e macroeconômica aumenta a incerteza e pressiona a necessidade de proteção. Inflação volátil, tarifas comerciais imprevisíveis e perdas naturais em escala recorde — que desde 2020 superam US$ 100 bilhões anuais em indenizações seguradas — colocam o gerenciamento de riscos no centro da agenda.

Segundo Thomas Blunck, membro do board da companhia, o setor seguirá como “escudo protetor das economias nacionais contra grandes riscos”. No primeiro semestre de 2025, os desastres naturais já resultaram em US$ 80 bilhões em perdas seguradas e US$ 131 bilhões em perdas econômicas totais, com destaque para tempestades severas nos EUA.

Stefan Golling, também membro do board, reforçou que a Munich Re mantém capacidade estável e independente de retrocessão, capaz de suportar até mesmo um furacão de mais de US$ 100 bilhões em perdas de mercado sem comprometer sua solvência.

Outro ponto central é o avanço do risco cibernético, cuja percepção cresce entre empresas, mas ainda encontra baixa penetração de seguro. A Munich Re projeta que esse mercado dobre de tamanho até 2030, alcançando US$ 30 bilhões em prêmios.

A resseguradora também destacou investimentos em novas fronteiras de cobertura — de baterias de armazenamento a energia geotérmica, passando por soluções paramétricas e aplicações de inteligência artificial — fruto da integração entre seguro primário, seguros especializados e resseguro.

Em Monte Carlo, a Swiss Re chamou atenção para o impacto da incerteza global no mercado de (re)seguros. Tensões geopolíticas, políticas protecionistas e mudanças econômicas estão remodelando cadeias de suprimentos, elevando custos e aumentando os riscos de fragmentação de longo prazo. Nos últimos 12 meses, mais de 70 países registraram protestos significativos, reforçando a necessidade de uma compreensão holística dos riscos e de uma subscrição disciplinada.

As catástrofes naturais continuam no centro das preocupações da indústria. Segundo o Swiss Re Institute, a combinação de crescimento econômico, inflação de sinistros e eventos mais intensos levou as perdas seguradas anuais a superar consistentemente a marca de US$ 100 bilhões. Em anos de pico, esse valor pode chegar a US$ 200 bilhões ou até US$ 300 bilhões, ressaltando a importância de medidas preventivas, como padrões de construção mais robustos, melhor zoneamento urbano e investimentos em resiliência climática por meio de parcerias público-privadas.

Outro ponto central foi o papel transformador da inteligência artificial. A Swiss Re avalia que o uso de IA para processar dados não estruturados — como e-mails, contratos e arquivos de sinistros — deixou de ser uma aspiração técnica e se tornou requisito competitivo. Para a resseguradora, a combinação de expertise, tecnologia e parcerias será decisiva para transformar esse potencial em realidade e fortalecer a resiliência do setor diante de riscos crescentes.

Crescimento das receitas de P&C

A Swiss Re destacou o crescimento do mercado global de property & casualty (P&C), que dobrou em 20 anos, alcançando US$ 2,4 trilhões em prêmios. Segundo o Swiss Re Institute, a tendência é que o setor siga crescendo em linha com o PIB mundial, quase duplicando novamente até 2040.

De acordo com Jérôme Jean Haegeli, economista-chefe global da Swiss Re, o crescimento não é apenas de escala, mas de “capacidade e resiliência”, com maior eficiência na precificação, gestão e transferência de riscos. A demanda crescente por resseguro confirma o papel da indústria como absorvedora de choques sistêmicos.

O relatório sigma mostra que a desagregação da cadeia de valor é um vetor de eficiência, com brokers e MGAs assumindo funções de subscrição e distribuição. Ao mesmo tempo, soluções alternativas — como cativas e pools públicos-privados — ampliam a capacidade em regiões expostas a catástrofes.

Para Gianfranco Lot, Chief Underwriting Officer de P&C Reinsurance da Swiss Re, a adoção de inteligência artificial tende a dividir o setor entre “seguradoras globais orientadas por dados e players especializados mais ágeis”, em um contexto de transferência crescente de riscos para resseguradoras.

Ambas as companhias reforçam que o mercado entra na temporada de renovações de 2026 com demanda em alta e capacidade estável, o que deve garantir equilíbrio, mas também manter a disciplina de preços. Para a Munich Re, preços adequados ao risco são condição inegociável. Já a Swiss Re aponta que a diversificação de players e estruturas vem ajudando a manter o seguro acessível, mesmo em um mundo mais arriscado.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

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