Fonte: Valor 1000
A pandemia acelerou o redesenho do mercado segurador, como resultado de um amplo processo de mudanças tecnológicas, ainda em curso, e também em função de aperfeiçoamentos regulatórios. Com o uso de big data e analytics surgiu uma infinidade de plataformas capazes de se conectar rapidamente com os sistemas legados, o que abriu as portas para a entrada de novos concorrentes. Além das insurtechs, que testam modelos e produtos num ambiente protegido lançado pela Superintendência de Seguros Privados (Susep), há os bancos digitais, que se consolidam, bem como as chamadas big tech que planejam vender seguro para a população.
“Há uma maior percepção das seguradoras tradicionais sobre a necessidade de transformar digitalmente todo o ecossistema, como forma também de tornar os processos mais simples e ágeis”, afirma Érika Ramos, sócia-líder do segmento de seguros da KPMG no Brasil. O open insurance, diz ela, veio “para acelera “para acelerar ainda mais os temas de competitividade, transparência e promoção da inclusão financeira”.
As grandes transformações que moldam o setor mexem com o mercado de forma intensa, como aponta Antonio Trindade, presidente da Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg). Essa intensidade, segundo ele, vem marcando o ano de 2021, principalmente no ambiente regulatório. Ele classifica as mudanças de positivas. “As seguradoras estão menos amarradas para criar produtos, mas é preciso levar em conta tanto os prazos como os recursos financeiros necessários para viabilizar tantas mudanças”, afirma. A ideia de ampliar a oferta e baratear os produtos é benéfica, mas o horizonte de maturação, segundo ele, ainda não está claro.
O setor vem se recuperando em 2021 depois de amargar um fraco desempenho em 2020, como mostram os números gerais do ranking. No segmento de seguros gerais, houve uma queda de 5,6% na emissão de prêmios líquidos, na comparação com 2019, de R$ 144 bilhões para R$ 136 bilhões. No segmento de capitalização, o recuo foi de 4%, de R$ 23,8 bilhões para R$ 22,9 bilhões. Os dois segmentos viram o lucro líquido encolher na casa dos dois dígitos: 11,8% em seguros e 28,8% em capitalização. Em resseguros, além do prejuízo de R$ 1,4 bilhão, a rentabilidade sobre o patrimônio líquido foi negativa em 18,7%.
Os bons resultados voltaram a aparecer no balanço do primeiro semestre de 2021, com avanço de 8,9%, somando-se os ramos elementares e de risco, cuja arrecadação subiu de R$ 62,1 bilhões para R$ 67,6 bilhões, segundo dados da Susep, apurados pela Confederação Nacional das Empresas de Seguros Gerais, Previdência Privada e Vida, Saúde Suplementar e Capitalização (CNseg). No segmento de capitalização, a arrecadação avançou de R$ 10,7 bilhões para R$ 11,7 bilhões. O lucro líquido, porém, não acompanhou a evolução da receita e encolheu de forma significativa. Só na Bradesco Seguros, a queda foi de 58,3%, no segundo trimestre, mesmo patamar que a consultoria Siscorp apurou para o setor como um como um todo nos primeiros seis meses.
Os números segmentados mostram que o desempenho não foi homogêneo. O segmento rural, por exemplo, cresceu 37,9% no primeiro semestre, seguido por responsabilidade civil (37,4%), transporte (34,1%), riscos patrimoniais (20,7%) e residencial (19,1%). “A demanda está aquecida, mas dependemos também de como vão caminhar a política e a economia”, avalia o presidente da CNseg, Marcio Coriolano. Segundo ele, se tudo correr bem, a expectativa é fechar o ano com crescimento nominal de 12,5%.
Todos apostam nas oportunidades de ganhos com o início do open finance, que consolidará o open banking e o open insurance, a partir de 2022. O open finance surge para criar um ambiente concorrencial mais equilibrado, uma vez que nem todas as sociedades são reguladas pela Susep ou pelo Banco Central. “Acreditamos que há um potencial de crescimento enorme com o open insurance, porque o setor vai atrair pessoas que nunca tiveram acesso a proteções financeiras para riscos do dia a dia”, diz Solange Vieira, superintendente da Susep.
Um ponto levantado por boa parte dos seguradores é a falta de menção ao corretor de seguros no open insurance. Qual será o papel do corretor de seguros nesse processo? “A Tokio Marine, por exemplo, é uma seguradora cujo principal canal de distribuição é o corretor, e nós não vislumbramos a exclusão desse profissional em nenhuma das nossas iniciativas, ao contrário”, questiona José Adalberto Ferrara, presidente da seguradora.
A titular da Susep afirma que a tendência é que a atuação do corretor seja ampliada. “Por vários ângulos, vemos que o setor e a sociedade serão beneficiados com todo o processo”, afirma Solange. Tanto que, entre as 109 insurtechs contabilizadas pela consultoria Distrito no Brasil no primeiro semestre deste ano, várias são plataformas digitais dedicadas à comercialização de seguros, com corretores entre os acionistas. Um dos destaques é a corretora Minuto Seguros, adquirida em julho pela Creditas, plataforma líder em crédito e soluções de consumo na América Latina.
Se depender apenas do esforço das companhias, a previsão de crescimento das vendas pode se confirmar, mas o lucro ainda deve ser impactado no terceiro trimestre. Ivan Gontijo, presidente da Bradesco Seguros, destaca que as vendas por meio dos canais digitais cresceram 80% de janeiro a junho de 2021, com aumento de 62% na quantidade de itens distribuídos. O lucro, por sua vez, registrou recuo de 29,7% no primeiro semestre de 2021, para R$ 4,7 bilhões, comparado com o mesmo período anterior.
Os custos relacionados à covid-19 somaram R$ 4,8 bilhões desde o início da pandemia, em março do ano passado. O setor vive o que ele chama de modelo “fisidigital”. “Embora o processo de transição para meios digitais esteja em curso acelerado, não podemos nos esquecer da grande parcela de clientes que permanecem no mundo analógico e precisam ser igualmente entendidos e atendidos com a mesma dedicação e eficiência.”
A Caixa e o Banco do Brasil (BB) reestruturaram sociedades, lançaram ações e agora avançam em nichos estratégicos. Em abril, a Caixa movimentou R$ 5 bilhões em um IPO e consolidação de parcerias com a Tokio Marine, Icatu, CNP Assurance, Tempo Assist e os corretores de seguros Alper e Willis Towers.
A Brasilseg, braço segurador do BB, aposta no segmento rural, em que tem a liderança. “Estamos focados em oferecer uma experiência e serviços diferenciados ao produtor rural, que conta com nossa plataforma digital, onde encontra, em um só lugar, tudo que precisa para cuidar do seu negócio, mitigando riscos e aumentando a produtividade”, afirma Rodrigo Caramez, presidente da Brasilseg.
O Itaú Unibanco tinha basicamente a Porto Seguro como sócia em auto e residência, depois de sair de grandes riscos. Hoje exibe mais de 15 seguradoras em seu marketplace digital, com ofertas que vão de riscos patrimoniais para PME até planos odontológicos. Eduardo Domeque, diretor de seguros do Itaú Unibanco, conta que a estratégia de expansão do negócio seguiu o modelo de plataforma e inovação abertas. “Esses elementos permitirão acelerar a transformação digital do negócio e proporcionar a melhor experiência dos clientes.”
A Porto Seguro retrata bem a mudança das seguradoras tradicionais. Além de criar verticais de negócios (seguros, saúde, negócios financeiros e serviços), anunciou neste ano a compra de 13% de participação na Pet Love para avançar no segmento de animais de estimação. Também adquiriu 50% da ConectCar, pertencente ao grupo Ultra, controlador da Ipiranga, e 75% da Segfy, ferramenta multicálculos que facilita o trabalho dos corretores de seguros. “O novo posicionamento estratégico observa as diferentes características dos mercados e o potencial de crescimento de cada segmento”, resume Roberto Santos, presidente da Porto Seguro.
Assim como a Porto, Tokio Marine, Liberty e HDI, cujo carro-chefe em vendas é o seguro auto, ampliaram seus portfólios para os corretores de seguros e ganharam novos canais de distribuição com toda a tecnologia embarcada. A Liberty desenvolveu um novo portal para o corretor com uso de inteligência artificial e renovou sua parceria com o Banco Inter para vender produtos de seguros na rede do banco por mais 15 anos.
A HDI espera ganhar musculatura por meio da joint venture com o Santander. A Santander Auto faturou R$ 100 milhões em prêmios em 2020, no seu primeiro ano de funcionamento, num período em que as vendas da carteira auto recuaram 2,1%. A HDI fez também uma parceria com a Icatu para a venda de seguros de vida aos clientes de automóveis, o carro-chefe da seguradora, e PME. “O foco de nossa estratégia é o ganho de escala e a busca por sinergia”, diz o CEO da HDI, Murilo Riedel.
Zurich e AXA, que investiram pesado na venda de seguros pelo varejo, sofreram com o fechamento do comércio para conter a pandemia da covid-19. Como já tinham tecnologia embarcada, a recuperação das vendas foi rápida. “Além da retomada do varejo físico, compensando, em parte, a retração do ano passado, vamos intensificar as parcerias com canais digitais”, diz Igor Di Beo, vice-presidente de subscrição, comercial e marketing da AXA no Brasil.
Para Edson Franco, CEO da Zurich, os impactos da pandemia em parcerias com o varejo são transitórios. “Machuca e passa. Temos previsão de um segundo semestre bem melhor, embalado pela estratégia de transformação digital adotada por nós há anos”, diz. Além dos corretores e do varejo, a Zurich tem como parceiros bancos tradicionais, como Santander, e bancos digitais, como C6 e Original. Além de fintechs e gestoras de ativos, como Genial e Onze.
Na área de resseguros, Trindade, da FenSeg, destaca que todos aguardam o destravamento dos investimentos e projetos que geram novos negócios e oportunidades. O setor ainda se ressente dos problemas de fraudes contábeis que desencadearam uma crise institucional e financeira no líder do mercado, o IRB Brasil RE, desde fevereiro de 2020, com mudança de toda a direção da empresa.
Apesar dos avanços em colocar a empresa nos eixos novamente, o IRB apresentou prejuízo líquido de R$ 156 milhões no primeiro semestre. Resultado bem melhor ante prejuízo de R$ 622 milhões no mesmo período do ano passado. Wilson Toneto, presidente interino e vice-presidente-executivo técnico e de operações do IRB, conta que a companhia descontinuou 162 contratos desde julho de 2020, dos quais 17 de grande impacto sobre os resultados. “Firmamos cerca de 239 novos negócios com novas taxas e renovamos 84% dos contratos no primeiro semestre de 2021”.
Rodrigo Belloube, CEO da Munich Re, segunda maior resseguradora no Brasil, conta que a empresa conseguiu aumentar a fatia de mercado ampliando participações em vários contratos existentes, assim como desenvolvendo o mercado de agronegócios, além de oferecer soluções híbridas de transferência de risco e otimização de solvência das seguradoras. “Os segmentos agrícola, de mobilidade e de pequenas e médias empresas estão em nosso foco para os próximos anos. Alcançamos mais de R$ 1 bilhão no primeiro semestre em prêmio bruto de resseguro, o que equivale a mais de R$ 700 milhões em prêmios líquidos de comissão.”
O segmento de capitalização também passa por transformações, alimentadas pela crise. Para Marcelo Farinha, presidente da Federação Nacional de Capitalização (FenaCap), a superação das dificuldades dependerá da estratégia de cada empresa. No caso da Bradesco Capitalização, maior do segmento, o quadro de dificuldades enfrentadas em 2020 está sendo superado com um portfólio diferenciado e adoção de uma nova plataforma de comercialização. Ela viabiliza projetos como a inclusão e o aceite remoto das operações via aplicativo, além da assinatura eletrônica presencial nas agências via biometria. “Temos ainda grandes oportunidades de crescimento também pela capacidade de distribuição das agências e das facilidades de contratação nos canais digitais”, diz o CEO Gontijo.
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