Disseminar informação. Essa é grande missão deste 4o. Fórum de Saúde Suplementar, que tem como tema “O Desafio da Eficiência em Saúde: Um Debate Inclusivo”. Segundo Solange Beatriz Palheiro Mendes, presidente da Federação Nacional de Saúde (FenaSaúde), o desafio da eficiência em saúde exige um debate inclusivo. “A boa politica é a arte de gerenciar conflitos. Nossos recursos materiais e intelectuais são o que são e não o que gostaríamos que fossem. São tempos desafiadores. A inclusão e o acesso de novos beneficiários são vistos como ameaças e não como uma ação em prol de todo o segmento”, afirmou durante a abertura do evento.

Em 2017, a saúde suplementar movimentou receitas de R$ 180 bilhões, o que significou 2,7% do PIB. Desses, R$ 150 bilhões foram destinados a assistência social. Mais de 1,5 bilhão de procedimentos médicos e odontológicos. Mais de 137 mil estabelecimentos comerciais prestam serviço ao setor. Os números mostram a importância do setor e desafios e evidencia o papel social do nosso setor. É um desafio global, com um custo que sobe num ritmo maior do que inflação por diversos motivos, entre eles a ausência de uma política de coordenação da indústria de fármacos até a prestação de serviços médicos.
“Os desperdícios também são relevantes, com procedimentos desnecessários que podem ate causar danos aos pacientes. Por isso, o momento é de um diálogo inclusivo, que ajude a construir um segmento saudável a todos”. Segundo Solange Beatriz, não mudar significa ser mudado. “Seremos protagonistas ou vitimas”, questiona. Ela argumenta que o momento exige mais politica sadia, mais dialogo, mais consenso.
Marcio Coriolano, presidente da CNseg, aproveitou a preseça de ministros da Saúde e da Justiça na mesa de abertura para citar que recentemente, houve algum estranhamento sobre a retomada do Consu, o Conselho de Saúde Suplementar – do qual os ministros participam, assim como o ministro da Fazenda, o do Planejamento e da Casa Civil, como se estivesse sendo criado um cotovelo para a ANS.
“Muitos, como eu, sabem que não é assim. Trata-se, sim, de retomar uma instância de integração governamental, como são o CNSP, dos seguros privados, o CMN, do sistema financeiro, e tantos outros, que tem como função integrar políticas públicas”, citou. “E é evidente a tranversalidade de políticas de saúde, econômica e política do consumidor quando se trata da saúde suplementar.”

Para exemplificar a importância dessas instâncias, Coriolano citou, no caso do Consu, as suas conhecidas 23 resoluções de 1998 e 1999 foram seminais para firmar o atual marco regulatorio da saúde suplementar. “Estimo que todos os que participam da cadeia de valor da saúde suplementar já reuniram todos os diagnósticos sobre as disfunções que ainda pesam sobre o seu modelo assistencial. sobre a sua sustentabilidade econômica. e sobre o papel mais efetivo do beneficiário”, citou.
Agora é preciso, acrescentou, mirar em convergências que atendam a esses três eixos – o do cuidado da saúde, o da sustentação do financiamento e o do protagonismo do consumidor – em proveito das soluçōes que melhor atendam ao sistema. “Tenho certeza de que este evento caminhará nesta direção. e oferecerá alternativas viáveis para a ans e para o Consu”, finalizou.
Governo e empresas juntos – “Vamos ter de enfrentar juntos o envelhecimento da população. Precisamos cuidar de maneira preventiva de problemas como açúcar sódio e gordura na população. Temos o desafio do trânsito, do saneamento, do tabaco, do álcool, das drogas. Temos de melhorar a informação e informatização, como o prontuário eletrônico e agendamentos e assim ofertar um atendimento melhor na saúde pública e suplementar, que andam de mãos dadas para oferecer o que há de melhor para os brasileiros”, disse Gilberto Occhi, ministro de Estado da Saúde. Ele também reformou a importância de estimular a saúde primária, com médicos da família. Hoje, há apenas 5.486 profissionais, 1,4% dos médicos do país, com especialização em medicina da família.
“Sem o diálogo, não será possível superar os enormes desafios de encontrar uma forma de financiar a saúde”, disse Werson Rêgo, desembargador do Tribunal Regional do Rio de Janeiro e Coordenador-geral do Instituto Nêmesis. “Os recursos são limitados e finitos e precisam ser bem administrados, para que todos possam ter acesso aquilo que a nossa Constituição previu e promete”, afirmou. Temos problemas reais e soluções negociáveis. Os desafios são imensos e é preciso que haja transparência, lealdade e soluções que atendam a todos. E fundamental que o sistema como um todo esteja a estruturado em entidades independentes e técnicas, abertos ao diálogo, com o consumidor sendo representado.
Desafios no mundo – A palestra do diretor executivo e CEO do The Permanente Medical Group e professor de Medicina e Administração em Saúde da Universidade de Stanford, Robert Pearl, sobre ‘Os dilemas da assistência à saúde no mundo’ mostrou que o Brasil tem problemas semelhantes a outros países no setor de saúde e que existem quatro pilares básicos que podem reverter a situação da maioria das dificuldades do setor.

A primeira mudança deve acontecer é na integração de serviços de atendimentos de procedimentos e prontuários, ou seja, os médicos, hospitais e pacientes devem ter uma única referência. “Hoje o sistema é fragmentado. Se integrarmos todos haverá uma coordenação do atendimento. Não há concorrentes, haverá uma equipe em busca da solução”, explicou o palestrante. O outro ponto tratado foi a necessidade de mudar a forma de remuneração. O pagamento por serviço (fee for service) não oferece um tratamento completo, nem leva em consideração a prevenção. “Já é provado se há um olhar integral do problema, o paciente não morre de causas simples, como assepsias”, explicou.
Os dois pilares seguintes tratam do uso da tecnologia e da necessidade de preparo do profissional. “Existe muita tecnologia disponível, mas precisamos ter um prontuário eletrônico. Os médicos têm muitas informações do paciente que não vão para lugar nenhum. Se todos tiverem as informações do paciente, será muito mais rápido com acesso aos diagnósticos anteriores do paciente. Por fim, a educação deste setor teria que pensar em um intercâmbio entre faculdades de medicina e administração. Precisamos de líderes médicos para desenvolver equipes e grupos que pensem não só na doença e no tratamento específico, ma sim no paciente, na gestão do sistema através de um olhar global”, finalizou Pearl.
Boas e más notícias no Brasil – No primeiro debate do dia, Marcos Lisboa, diretor-presidente do Insper, sintetizou as necessidades do setor em uma única palavra: “diálogo”. Para ele, uma real mudança na economia e saúde no Brasil só acontecerá com uma conversa entre todos os setores. “Sem diálogo, sem sentar com judiciário e com os reguladores, não tem caminho possível”, afirmou.
Ele fez um amplo panorama dos desafios do Brasil nos próximos anos. Temos uma eleição domingo. Qualquer que seja o caminho, não se discutiu uma agenda de politica pública. O país parece dispensar uma oportunidade imensa. Estamos desperdiçando o bônus demográfico”, disse. Ele destacou os muitos desafios que o Brasil terá de enfrentar nos próximos anos. “Não sei se vou causar mais ansiedades em todos, mas os números nos mostram que temos muito a fazer para que a dívida pública não saia de controle e gere aumento de impostos ou a alta da inflação. Ambos levam a um maior custo de capital, o que gera menos investimentos, essenciais para criar empregos”, citou.

Para complicar a situação atual, com dívida pública que passou a representar 77% do PIB, o futuro está ai para ser encarado. Começa pela pirâmide demográfica, que se inverteu. “Temos menos jovens chegando ao mercado de trabalho. Um número crescente de idosos. 13% do PIB são consumidos para pagamentos em assistência social. O mesmo que o Japão gasta, só que ele tem três vezes mais idosos que o Brasil. Gastamos como um país de idosos, sendo ainda jovem. A consequência disso é que faltam investimentos em infraestrutura, saneamento e por aí vai”, enumerou.
A questão é: como vamos sair dessa armadilha. “Temos de instaurar o dialogo entre os poderes. A saúde suplementar mostra isso. ANS toma uma decisão e o judiciário diz que não é bem assim. Há anos se falava que os planos individuais iriam acabar. Acabou com essa regulamentação”, citou, enfatizando que o Brasil precisa amadurecer e discutir a agenda do país “Como votar contra a idade mínima para a aposentadoria?. Não tem como resolver o problema dos Estados — são sete que não pagam salários em dia — sem fazer a reforma da Previdência. Aposentadoria precoce de professores, policiais e judiciário. Sem fazer a reforma, não tem saída”.
A boa notícia é que o pais tem uma agenda, como melhorar a gestão publica, a gestão da educação, acertar o sistema tributário, abrir a economia para a concorrência. É certo que não dá para mudar a chave do dia para a noite e desprezar o custo social que vai ocorrer. Muitos investimento equivocados foram feitos, como usinas nucleares que não param em pé. E isso terá de ser avaliado”, elencou.
“O judiciário toma decisões que não são viáveis. As regulamentações são feitas sem debates necessários com o setor. O Brasil está encolhendo. Temos que tratar os problemas com maturidade. Não é um momento de otimismo, mas precisamos enfrentar os problemas de desperdício e má gestão. Diálogo, enfrentar os problemas e todos fazendo sacrifícios. Essa é a saída dos problemas, que são grandes, e cabe a nós enfrentá-los, finalizou Lisboa.
Fragmentação, um grave problema – Durante o debate, todos os participantes concordaram que existem muitos problemas no setor, que a fragmentação é um grave problema é que o paciente deve ser o centro do debate. Para Manoel Peres, diretor-presidente da Bradesco Saúde e Mediservice, o empoderamento individual do médico, sem pensar no coletivo não é factível para a solução do problema do paciente. O que foi reforçado por Romeu Cortes Domingues, presidente do Conselho de Administração da DASA, que complementou que há necessidade também de combater as práticas inadequadas. “Temos que mostrar o custo para o paciente. Temos que ter critérios e mudar a prática médica. Se o profissional for cobrado pelo resultado e pensando no paciente vai ajudar. Temos que usar a tecnologia de forma sustentável”, explicou Domingues.
A insatisfação do setor envolve todos os setores. Para Eduardo Amaro, presidente do Conselho de Administração da Associação Nacional de Hospitais Privados (ANAHP), a judicialização, o aumento da frequência, a falta da atenção primária, entre outros problemas fazem com que existam dificuldades em toda a cadeia da Saúde Suplementar. “Precisamos de mais protocolos dentro dos hospitais para uma medicina mais adequada e racionalizada”, afirmou.

Leandro Fonseca, diretor-presidente da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), afirmou que a sustentabilidade do setor está em risco com a escaldada de custos. É preciso dar mais previsibilidade sobre o reajuste, discutir o rol de procedimentos entre outros problemas, citou. “Mas antes de tudo, é preciso colocar o beneficiário no centro da discussão. Quando todos fizerem isso, a concorrência ficará acirrada e forçará a mudança que nos levará a um ciclo virtuoso e provavelmente gastando menos”, aposta ele.
O custo do plano de saúde hoje já chega a representar em algumas empresas 15% da folha de pagamento, citou. “Temos problemas de escala para ser solucionado, o uso discriminado de especialização em serviços e isso faz com que o sistema seja pouco eficiente. Diversas medidas precisam ser tomadas, principalmente para que os operadores entreguem mais benefícios aos consumidores”, sentenciou. “Uma boa solução é tratar as causas. Não adianta querer um ação populista e só coibir o reajuste. É preciso tratar as causas para ter uma efetiva mudança de um sistema mais sustentável e evolutivo”, comentou Fonseca.


















