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Protecionismo no resseguro está na pauta da IAIS, que reúne os supervisores mundiais

Denise Bueno
Escrito por Denise Bueno

Num tom tranquilo, mas com duras críticas, a representante de uma das maiores resseguradoras do mundo deu um recado firme aos organizadores do Insurance Forum Argentina, que debateu durante três dias temas relevantes no âmbito do G-20: “Barreiras comerciais no resseguro são um atraso”, afirmou Anja Biendarra, CEO da Munich Re na Colômbia, uma das palestrantes do painel “Negócios globalizados – a regulamentação global do mercado de resseguro”.

Anja mencionou que 44 países aumentaram o proteções a seus mercados locais nos últimos anos, incluindo a Alemanha o país de sua companhia, que exige que (re)seguradoras tenham presença local em seu divórcio com o Reino Unido. Estados Unidos são criticados por obrigar o deposito de colateral para negócios de resseguro feito com resseguradoras fora do pais. Brasil e Argentina são criticados no mundo ressegurador por manterem a exigência de que 40% de todo contrato de resseguro seja ofertado inicialmente para as resseguradoras locais. Os concorrentes vêem isso como barreiras comerciais e protecionismo.

Apesar de o Brasil e Argentina estarem indo na contramão, ao liberarem seus mercados antes monopolizados, ambos ainda tem um caminho a trilhar para acabar com barreiras comerciais. A primeira pergunta do mediador Jonathan Dixon, secretário geral do International Association of Insurance Supervisors (IAIS), foi direcionada ao CEO José Carlos Cardoso, presidente do IRB Brasil Re, questionando a legislação brasileira. Cardoso citou números de crescimento do mercado brasileiro após a abertura, em 2017, com a chegada de mais de 100 players mundiais. Desses, 16 são cadastrados como ressegurados locais, como Munich Re, Swiss Re, AIG, AXA, Scor, Mapfre entre os grupos mundiais. “Há muitas oportunidades no mercado brasileiro para todos em diversos segmentos, do rural a projetos de infraestrutura”, citou.

Cardoso enfatizou como o seguro e o resseguro subsidiam o crescimento dos setores industriais em diferentes níveis. Abordou ainda, de forma pragmática, como o mercado global de seguros contribui para amenizar as perdas com as grandes catástrofes. “O impacto é ainda maior atualmente com a alta severidade das catástrofes naturais, por conta de fatores diversos, entre eles o aquecimento global. O seguro e resseguro são fundamentais para recuperar e restabelecer as economias afetadas e o meio ambiente”.

O IRB lidera o segmento de locais. Dos prêmios totais de resseguros emitidos próximos de R$ 5 bilhões no primeiro semestre deste ano, o IRB foi responsável por R$ 3,3 bilhões, alta de 17% em relação aos seis primeiros meses de 2017. Depois de perder o monopólio, o IRB passou a ter uma participação em torno de 30% e neste ano contabiliza 46%. “Com apenas um ano após nosso IPO, temos resultados expressivos. Investimos em um corpo técnico especializado, serviços, tecnologia, novos produtos e aprimoramos muito o atendimento aos nossos clientes. E isso tem nos ajudado a crescer”, disse o presidente do IRB.

Cardoso comentou que em quatro anos a empresa teve a mais bem-sucedida história de turnaround do país, de R$ 2,7 bilhões para R$ 20,4 bilhões de valor de mercado. Resultado esse que tornou o IRB o oitavo maior ressegurador do mundo, sendo a líder em resseguros da América Latina e umas das maiores empresas do Brasil.

O IRB também é dono do maior lucro no período: R$ 541 milhões, avanço de 19% em relação ao mesmo período de 2017. Desde a abertura de capital, as ações do IRB acumulam valorização superior a 40% e hoje fazem parte da recomendação da carteira de investimento sugeridas pelos principais analistas do mercado de capital.

A Argentina, por sua vez, usou o modelo de abertura de resseguro do Brasil como modelo, como citou o Superintendente de Seguros da Argentina, Juan Pazo. Há também a preferência de oferta aos ressegurados locais. As cedentes argentinas podem colocar diretamente negócios com resseguradores admitidos até um máximo de 50% de seus prêmios cedidos por contrato a partir de 1º de julho, até 60% em 2018 e até 75% em 2019. A diferença está que na Argentina, a própria superintendência pode mudar a regra e tornar o mercado totalmente aberto. No Brasil, para isso acontecer é preciso uma lei complementar, o que significa uma burocracia e uma política muito maior para que o sistema atual mude.

“Ter um mercado de resseguro livre significa ampliar a concorrência, com produtos e preços diferenciados”, argumentou Anja, da Munich Re

Além de Brasil e Argentina, mercados como China, India e Indonesia também constavam no pedido aos órgãos reguladores sobre o fim das barreiras. “ “O protecionismo eleva o custo do resseguro, prejudica os consumidores e toda a sociedade ao reduzir o consumo de resseguro que visa mitigar os riscos das seguradoras e tornar o seguro um produto mais acessível as pessoas e ao próprio governo”, reforçou a executiva da Munich Re. Ela frisou que a baixa penetração de seguros faz com que as imensas perdas causadas por desastres climáticos custe caro para os países, pois os governos tem recursos limitados e como consequência tem limitações para socorrer a população atingida e recuperar a economia. “Ter um mercado de resseguro livre significa ampliar a concorrência, com produtos e preços diferenciados”, argumentou.

Francis Bouchard, responsável pela área de comunicações e relações públicas da Zurich, já adotou um estilo mais brincalhão em sua apresentação, mas seguiu na mesma linha de Anja. “O crescimento de governos populistas elevam as medidas protecionistas e isso atrapalha o mundo de resseguros, que tem como característica ser um mercado global de pulverização de riscos catastróficos”. Segundo ele, a Zurich tem buscado ajudar os gestores de riscos das corporações a gerenciar apólices globais, pois as barreiras trazem um problema a mais para ser gerenciado. Ele também ressaltou a importância do resseguro para o desenvolvimento do mercado de seguros, ao cita o resseguro ajuda a elevar a penetração do seguro por meio do apoio técnico e financeiro dado às seguradoras, as motivando a entrar em riscos declinados ou não explorados.

O presidente da Associação de Seguros e Resseguros das Bermudas, John Huff, defendeu também que os órgãos reguladores olhem para o tema com mais ênfase, a fim de que as empresas privadas possam assumir mais riscos que hoje ficam sob a tutela dos governos. “Somos especialistas nisso e podemos contribuir para que perdas catastróficas tenham cobertura para que os prejudicados possam se recuperar mais rapidamente”, argumentou.

Dixon finalizou o painel afirmando que os participantes do painel, bem como os integrantes da IAIS reconhecem que barreiras criam risco. “Acredito que todos farão um esforço para que os supervisores locais coloquem em prática medidas que acabem com o protecionismo, de acordo com as metas discutidas no âmbito da organização de cooperação entre os países.”

Sobre a Autora

Denise Bueno

Denise Bueno

Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista da revista Apólice, especializada em seguros, e também do SindSeg-SP. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalizacao entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil.

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