AIG, um grupo complexo e simples ao mesmo tempo

A AIG completa 10 anos de reinvenção neste ano e em 2019, 100 anos. Muita coisa mudou desde o ápice da crise financeira global em outubro de 2008. De maior companhia de seguro do mundo em valor de mercado, avaliada em US$ 200 bilhões, precisou de um empréstimo de US$ 185 bilhões do governo americano para não quebrar. O governo concedeu, pois se ela fosse a bancarrota como o banco de investimento Lehman Brothers, a crise seria muito maior pelo efeito domínio em diversas outras instituições que tinham suas garantias para operações financeiras.

Desde então, passa por uma completa repaginação, numa intensa busca de simplificar o complexo, com erros e acertos. Mudou o nome AIG para Chartis. Trocou de presidente algumas vezes. Redirecionou o portfolio de produtos e de investimentos. Saiu de alguns países e entrou em outros. Repaginou total, mas nunca perdeu a sua principal característica: ser inovadora na solução de problemas. E foi essa marca que a faz voltar a se chamar AIG novamente.

O atual CEO, Brian Duperreault, que assumiu em maio do ano passado, sempre comenta em suas entrevistas: “I don’t worry about problems; we can fix them (Eu não me preocupo com problemas. Nos podemos consertá-los). Essa característica a fez a maior do mundo antes da crise. E também foi o que a sustentou nos momentos mais críticos nesse período de 10 anos de reorganização. “Nossos clientes nos procuram pois sabem que podemos resolver seus problemas”, afirmou em recente entrevista na mídia inglesa.

“Os clientes nos demandam pois querem soluções para seus problemas”

Neste ano divulgou o balanço de 2017 com prejuízos de US$ 6 bilhões justificados por perdas com catástrofes e revisão na tributação do setor nos EUA. Anunciou também a compra da resseguradora Validus, por US$ 5,5 bilhões. Em 2017, seu valor de mercado, com ações negociadas na bolsa de Nova York e de Tóquio, era de US$ 55 bilhões.

Brian Duperreault aposta na inovação e na resolução de problemas dos clientes para crescer em um cenário marcado por competição acirrada, baixo crescimento econômico, volatilidade dos ganhos no mercado financeiro e pelos altos e baixos trazidos pela revolução digital global. “A tecnologia pode revolucionar a forma como os negócios em seguros são feitos”, afirma em suas aparições públicas.

O Blog Sonho Seguro foi ver de perto algumas inovações da AIG em Londres, cidade que é o sistema nervoso central do mercado segurador mundial por concentrar as negociações das principais apólices de seguros do mundo. No elegante prédio cravado na City of London, a duas quadras do Lloyd’s of London que os principais competidores do mercado mundial, é visível o comprometimento da equipe comandada por Duperreault em solucionar problemas tendo a tecnologia como uma aliada.

Seguindo a tendência de estar sempre um passo a frente de suas concorrentes, a AIG foi a pioneira em implementar um teste piloto de blockchain em junho do ano passado para um programa multinacional de seguro. ”É um tema ainda polêmico, discutido mundialmente por governos, corporações e órgãos reguladores. Por isso estamos tratando o assunto como se fosse uma criança recém nascida. Com muito cuidado e dedicação”, conta Salil Bhalla, responsável pela área de seguros multinacionais da AIG na Gra-Bretanha.

Salil Bhalla: blockchain pode trazer muitos benefícios para seguros de multinacionais

Os programas mundiais foram a primeira escolha para o piloto pelo nível de complexidade de gerir diferentes contratos em diversos países com regulamentações únicas. Um programa de seguro de multinacionais pode ser muito simplificado com o uso do blockchain, tecnologia comparada a um cartório digital, com transações financeiras e de dados que utilizam regras para simplificar e automatizar os processos envolvidos entre os usuários da rede.

A carteira de programas multinacionais tem crescido 6% ao ano e a expectativa é manter esse ritmo em 2018. São mais de 7 mil clientes em 11 mil programas mundiais que contam com cerca de 44 mil apólices emitidas em todo o mundo. Porém, para manter esse ritmo numa economia mundial com projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI) de crescimento de 3,9% para este ano, a saída é realmente inovar e tornar os contratos inteligentes com a tecnologia blockchain.

Ariel Berman, gerente de instituições financeiras da AIG no Reino Unido, é um dos responsáveis pelo projeto piloto que nasceu de uma parceria com o banco britânico Standard Chartered e com a IBM. “A parceria permitiu converter a apólice de um cliente multinacional com sede no Reino Unido e filiais nos EUA, Cingapura e Quênia, em um contrato inteligente que fornece uma visão compartilhada dos dados e documentação em tempo real”, explica Berman. Outros participantes de um contrato de multinacionais também pode ser incorporados para acessar o “digital”. Além da AIG, estão no projeto a UnipolSai Assicurazioni, a Aon, a Willis Towers Watson e a consultoria da Capgemini Itália. Elas se uniram para implementar um projeto piloto na Itália que usa a tecnologia blockchain em contratos de seguros corporativos.

Na área de crédito comercial também tem novidades. A AIG faz parte da parceira para criar uma plataforma de financiamento corporativo baseada na tecnologia blockchain. A TradeIX oferece o financiamento com recursos do banco inglês Standard Chartered e a AIG faz o seguro de crédito da operação. O objetivo é melhorar a eficiência das operações de financiamentos para os clientes que atuam em diversos países, o que envolve diferentes moedas, leis e termos contratuais. Ao usar o cartório digital, as empresas tem mais visibilidade dos recursos, dos riscos e dos clientes, o que permite um gerenciamento de risco online. “Essa parceria com a TradeIX reflete o compromisso da AIG em buscar parceiros com a melhor tecnologia para que possamos explorar inovações que beneficiem nossos clientes”, destaca Berman.

Ariel: “Ainda é cedo para dar notícias dos resultados, mas afirmo que superar os desafios de implementação compensam com sobra pelos benefícios gerados para toda a cadeia”

Berman explica que o uso de blockchain permite um novo nível de confiança e de transparência no processo de subscrição do risco em diferente países, com leis próprias, bem como da regulação do pagamento de indenização, ao ter o contrato todo armazenado no mundo digital à disposição de todos os envolvidos, incluindo prestadores terceirizados na rede, como corretores, auditores e outros que participam do contrato. “Ainda é cedo para dar notícias dos resultados, mas afirmo que superar os desafios de implementação compensam com sobra pelos benefícios gerados para toda a cadeia”, afirma Berman.

Quanto a saída do Reino Unido da União Europeia (UE), termo apelidado de Brexit, prevista para março de 2019, ambos afirmam que ainda há muita discussão para acontecer. “Será um desafio em termos burocráticos. Por outro lado, o Brexit vai inclusive nos ajudar a cumprir a meta de crescimento, pois nos traz uma grande oportunidade de negócios, com as companhias inglesas expandindo suas operações para outros países”, comentou Salil Bhalla.

Tecnologia para mapear riscos cibernéticos

O grupo também tem investido pesado no segmento de riscos cibernéticos, considerado o risco mais temido no mundo atualmente. Além disso, o tema está em alta com a nova regulamentação que entra em vigor em maio deste ano na União Europeia, que responsabilizará as empresas por violações à Regulamentação Geral de Proteção de Dados (GDPR). É previsto mais regulamentações e consequentemente as empresas terão de aumentar investimentos em compliance e alinhamentos para acompanhar as regulações cibernéticas.

Camillo: “Com a ajuda de programas de inteligência artificial, analisamos como a empresa pode ser afetada por um ataque e os custos potenciais

Aproveitando esse momento e também na busca por prestar um serviço diferenciado e se manter na liderança do ranking mesmo com a entrada de novas concorrente, a AIG lançou recentemente um sistema para pontuar o risco de uma empresa ter dados roubados por hackers. “Com a ajuda de programas de inteligência artificial, analisamos como a empresa pode ser afetada por um ataque e os custos potenciais com base nas informações dos questionários respondidos pelos próprios clientes”, explica Mark Camillo, responsável por riscos cibernéticos para a Europa da AIG.

O relatório revela ao cliente os pontos fortes da segurança da rede e pontua as vulnerabilidades caso sejam detectadas. “Esse processo torna a subscrição do risco mais detalhada e nos ajuda a ter um preço personalizado para cada cliente”, afirma Camillo. Ao mitigar os riscos detectados, o cliente certamente terá uma apólice de seguro com preço mais acessível e coberturas mais abrangentes, algo vital para driblar a insegurança gerada com os ataques em 2017.

A atividade cibernética maliciosa custou à economia dos EUA, maior mercado de seguro cibernético, entre US$ 57 bilhões e US$ 109 bilhões em 2016, informou a Casa Branca em fevereiro deste ano. Um estudo da Symantec divulgado no início de 2018 revela perdas de US$ 172 bilhões no mundo com ataques cibernéticos em 2017.

Mais do que perdas, o que os ataques mostraram é que a vulnerabilidade das empresas é grande. Tal estatística colocou os gestores de risco em estado máximo de alerta. Todos têm medo do que um ataque de hackers pode causar. Pesquisas internacionais e locais mostram que esse é o temor número um dos executivos. Além de danos financeiros, as consequências do roubo de dados podem ser desastrosas para os negócios.

Em março será divulgado uma nova versão do estudo da AIG sobre quantos ataques foram registrados no mundo, quais as perdas geradas em cada segmento da economia. No último estudo disponível, entre 2013 e 2016, na região EMEA (Europa, Médio Oriente e África), 20% das perdas estavam relacionados com extorsão e 14% ao roubo de dados confidenciais. O setor financeiro foi o mais afetado pelos ataques cibernéticos (23%), seguido por empresas de comunicações, media e tecnologia (18%) e pelo varejo (17%).

“Certamente 2017 foi um ano com muitas perdas. O maior deles ocorreu em maio, quando o ransomware “Wanna Cry” afetou mais de 300 mil computadores em 150 países, incluindo simples usuários, grandes empresas e governos”, cita. O vírus explorava falhas no sistema operacional Windows que haviam sido descobertas pela NSA, a agência de segurança americana, e tornadas públicas após um vazamento.

Em junho, um mês após o Wanna Cry, o vírus NoPetya, que começou na Ucrânia prejudicando bancos, ministérios, jornais e empresas de eletricidade, e se espalhou pela Dinamarca, Rússia, Reino Unido e até mesmo no Brasil, afetando os computadores do Hospital do Câncer de Barretos, interior de São Paulo. O vírus ameaçava deletar os arquivos caso não houvesse pagamento de resgate. Segundo Camillo, ataques de ransomware, em que os hackers exigem pagamento para liberar arquivos, são aqueles que mais crescem no mundo.

Assim a AIG, fundada em 1918, caminha para completar seu centenário: enfrenta problemas complexos com o lema básico da economia digital: atender às necessidades do consumidor.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

1 COMENTÁRIO

  1. É muito bom voltar a ter boas notícias sobre a AIG, onde atuei por um longo período.
    Brian, desejo sucesso!

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