E quem se importa com o resseguro…

Tão raro ficar à toa, mas hoje eu fiquei. Estava de plantão para tirar dúvidas, caso a editora da matéria precisasse de mim. Geralmente numa situação dessa corro para a academia, onde tem wi-fi livre. Enquanto aguardo, pratico saúde. Dou uma corrida, faço uma musculação, uma ioga ou nado.

Hoje, como estou tomando antibiótico para sarar de uma sinusite, fiquei sem fazer nada. Com a mente livre. E um pensamento não me sai da cabeça. Resseguro. Kkkk (risos). Sério. Vou explicar. Resseguro é um tema árido. Concordo. Mas o que está acontecendo com ele tem a mesma lógica que levou a AIG ou o Lehman Brothers à falência ou da escova progressiva, que faz milagres hoje pelas mulheres que possivelmente no médio prazo ficarão sem cabelos.

Fiquei matutando porque o governo mudou a regra do resseguro no final de 2010, depois de tudo tão discutido e aprovado em anos de estudos, análises, pareceres jurídicos e técnicos. Depois de ter recebido mais de 50 CEOs mundiais dispostos a investir no Brasil e fazer do país o Centro Internacional de Resseguros da América Latina.

Sem mais nem menos, mudou a regra sem consulta. Ok. A justificativa é que muitas seguradoras estrangeiras encontraram uma brecha na lei e começaram a repassar contratos para a matriz, com um preço bem menor, em detrimento dos resseguradores locais, como o IRB, que por quase 70 anos deteve o monopólio no Brasil e não aproveitou o momento favorável para se tornar o “the best”. Vale lembrar que o IRB é uma economia mista, controlado pelo Tesouro e pelas maiores seguradoras privadas brasileiras.

Bem, se as seguradoras repassaram o contrato do resseguro para a matriz por um preço menor e cláusulas mais abrangentes de cobertura, bom para o consumidor, que pagou menos pelo produto. Bom também para o país, pois no caso de um acidente, quem terá de bancar a indenização é o mercado internacional.

Os técnicos do governo poderiam apenas ter corrigido a brecha na regulamentação e pronto. Mas não. Decidiram fechar o mercado novamente. Além da exposição internacional, uma vez que a atitude foi rotulada como falta de seriedade do governo, a ação foi tomada de forma inconstitucional. Ok, considerando-se a polêmica de que está certo ou errado, constitucional ou não, pois o mercado irá se ajustar de uma forma ou de outra, o que importa é a atitude, pois temos países com resseguro totalmente aberto e outros com restrições que funcionam perfeitamente. O que é diferente é a seriedade de se tomar uma atitude dessa. Ela visa o bem do país ou o interesse de minoritários?

Ao que tudo indica, optou-se por passar esse vexame internacional — mais de 20 entidades internacionais já enviaram carta ao governo brasileiro lamentando o retrocesso e pedindo a revisão das regras — apenas para estancar a derrocada do IRB Brasil Re. Até maio de 2011, os prêmios totais de resseguro foram de R$ 2,3 bilhões, sendo quase R$ 841 milhoes ficaram com os resseguradores locais, ou seja, 38%. Desse total dos locais, o IRB ficou com 57%. Do mercado total de resseguros, o IRB ficou com 22%. Há dois anos tinha 100%.

Mesmo com um market share bem reduzido, o IRB continua tendo os mesmos 500 funcionários efetivos e outros tantos tercerizados. Ou seja, inviável. Ai, para piorar, com um mercado interno prá lá de aquecido pelos milionários contratos de financiamentos para deixar o pais pronto para os mundiais esportivos, o IRB resolve buscar riscos na Argentina e na África, se nem mesmo conseguiu renovar alguns de seus contratos automáticos, para os quais precisou pedir prorrogação para resseguradores estrangeiros. Sim, esses mesmos que o governo alega que são “espertos” por terem achado uma brecha na lei de flexibilização do resseguro.

Tal aventura de internacionalização foi feita no passado e até hoje o IRB amarga perdas com os escritórios de Londres e Estados Unidos. Parece seguir o mesmo caminho agora. Afinal, por que usar o patrimônio aceitando riscos no exterior, um mercado que não conhece e onde enfrenta concorrentes com um custo administrativo de 5% enquanto o dele supera dois dígitos, se tem tanto para fazer aqui? Para aumentar o valor patrimonial do IRB dizendo que ele é internacional? Os gringos já passaram da fase de ingenuidade do passado, quando tinham pouca experiência com fusões e aquisições pois só pensavam no próprio umbigo. Agora eles estão mais flexíveis e checam se há coerência entre o discurso e a realidade.

Ok. Uma saída vai ser entrar o dinheiro do Banco do Brasil, que aguarda o BNDES definir o valor das ações do Tesouro para que ele possa comprar a fatia do governo e gerenciar o ressegurador com o Bradesco e Itaú. Essa jogada vai tornar o IRB um ressegurador privado, o que lhe trará agilidade na tomada de decisões e também poderá fazer demissões para reduzir seu custo. Será que vale a pena tudo isso só para garantir o valor do IRB para os acionistas? Ou aceitar um contrato de resseguro barato para depois tirar a diferença com outros contratos do governo?

Dá na mesma. Atrasa o crescimento do Brasil da mesma forma. Eleva o custo Brasil e não traz o retorno esperado pelo acionista, que opta por investir em outro lugar, com menos risco. E ai o Brasil fica com esse volume de investimento de 15% do PIB enquanto em outros países ele é no mínimo acima de 40%. Ai o dinheiro que entra só serve para valorizar o real, desvalorizar o dólar e lá se vão as reservas do Brasil para equilibrar o fluxo de capitais. Além das reservas, se algo der errado com as obras em andamento, lá vai o patrimônio público. Primeiro porque quem tem colocado dinheiro nas obras é o governo, por meio do BNDES, do Banco do Brasil, com resseguro da BB Mapfre, e do IRB em muitos casos.

Com a atuação estrangeira limitada a 40% dos contratos para as matrizes, os locais podem abocanhar o resseguro para garantir contratos de infraestrutura, que já estão atrasados e precisarão ser cumpridos num prazo recorde. Ou seja, um risco enorme. Afinal, a Copa tem data para começar. As chances de acidente e desembolso de indenizações são grandes. E quem vai pagar? Quem assumir o risco. E quanto vão cobrar para assumir um risco tão grande? Será que um preço bem menor do que os resseguradores internacionais?

Quando a plataforma da Petrobras afundou em 2001, quem pagou foi o mercado internacional. Quando os aviões da Tam e Gol acidentaram-se, matando uma grande quantidade de pessoas, quem pagou a maior parte das indenizações foi o mercado internacional, pois o risco estava pulverizado no mundo. Ou seja, se o IRB concentrar os contratos, vai ter de concentrar os pagamentos.

Como a Susep regula os resseguradores, não será possível fazer tantas peripécias com o IRB, como no passado recente, na época do Mensalão. Talvez ressuscitem a Segurobrás, como uma agência, assim aqueles que tem necessidade de fazer coisas irregulares podem ficar mais livres. Só que hoje temos a liberdade trazida pelas mídias sociais. Me lembro que a ex-senadora e ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, dona de 19% dos votos válidos na última eleição presidencial, conseguiu mudar o rumo do Código Florestal ao postar no twitter que o deputado federal Aldo Rebelo apresentou um texto diferente do acordado com o governo para a votação.

Tenho comentado sobre essa angústia, mas só o que ouço é .. tudo bem, sempre foi assim…ninguém se importa com seguro…quem pagará a conta no final serão os contribuintes… lembra do Banespa e de todos os outros bancos federais e estaduais na década de 80….Que triste isso, pois pode ser diferente sem muito esforço. Afinal, o Brasil tem tudo a seu favor atualmente. Temos hoje apenas três bancos públicos e os três podem ser símbolo de riqueza no longo prazo. Claro que se houver uma crise os bancos privados — destaque no ranking de lucro mundial do setor — vão ajudar. Afinal, eles tem em suas carteiras de investimentos bilhões de títulos públicos e não interessa ver o Brasil quebrar.

Vejam a Grécia. Boa parte da dívida começou na preparação do país nas Olimpíadas, em 2004. Sem infraestrutura e poupança interna, endividaram-se para fazer tudo a toque de caixa. E olha só no que está dando. E aí não adianta querer achar culpados, pois o sofrimento de toda a nação já está instalado.

Agora, imagina que pena perder a oportunidade de crescer de forma sustentável em detrimento de pequenos interesses? Quando estive na Argentina há dois anos, observando a frota de veículos tão antiga, fiquei imaginando que tristeza daquele povo ter vivido um momento próspero e agora sofrer com as conseqüências da recessão. Realmente, será uma pena se o governo Dilma perder a chance de mudar um pais só para privilegiar tão poucos e por tão pouco tempo. Afinal, isso não vai durar porque não é sustentável. Assim como a AIG quis ser a maior a qualquer custo não durou. Assim como o Lehman quis lucrar a qualquer custo e não durou. Assim como querer ter um cabelo que não é seu não vai durar.

É isso. Acabou meu tempo de ócio. Agora tenho de correr para o quinto round do dia porque realmente me importo em construir um país melhor a cada dia.

Denise Bueno
Denise Buenohttp://www.sonhoseguro.com.br/
Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Valor 1000, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista do InfoMoney e do SindSeg-SP. Foi articulista da Revista Apólice. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalização entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil. Recebeu, por 12 vezes, o prêmio de melhor jornalista de seguro em concursos diversos do setor e da grande mídia.

3 COMENTÁRIOS

  1. Olá Denise,
    Sempre leio suas notícias e todas são muito interessantes, mas essa, na minha opinião, realmente me impressionou com a qualidade e a inteligencia que você comenta sobre o mercado de (re)seguros brasileiro. Realmente você tem razão e o Brasil está em uma fase de prosperidade que precisa ser aproveitada para colher bons frutos no futuro de maneira sustentável. O mercado de resseguros no Brasil realmente estava no rumo certo. A abertura foi uma aposta certeira e alinhava o mercado (re)segurador às maneiras lógicas e desenvolvidadas de se negociar resseguro. A proposta de criação da tal segurobras ( que nao foi pra frente) e a mudança das regras no final de 2010 foram muito mal vistas pelo mercado internacional, pela instabilidade da legislação brasileira e isso pesa muito na imagem do Brasil. Os resseguradores na minha opinião “ainda” apostam no Brasil, alguns optaram por se adequar “novamente” e se tornaram locais talvez mais rapido do que pensavam, mas espero que nenhuma outra medida protecionista, que só prejudica o mercado, os segurados, e o país apareça novamente,.
    Um abraço. seu fã! Marcos

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