Uncategorized

ARTIGO: Que futuro para o Seguro de Vida?

Denise Bueno
Escrito por Denise Bueno

por Nuno David, executivo responsável por marketing na Mongeral Aegon

A geração que vai viver para além dos 120 anos já nasceu.

É o que nos dizem especialistas do mundo todo, é aquilo que ouvimos em congressos, lemos em estudos sérios e bem sustentados feitos pela comunidade científica, por resseguradoras, pela Academia. Discretamente alguns deles começam a falar da possibilidade da imortalidade…

Deixemos de lado esse cenário mais incrível e vamos nos concentrar naquilo que já sabemos com algum nível de certeza: vamos morrer cada vez mais velhos. Provavelmente muito mais velhos.

O que isso pode querer dizer para a indústria de Seguros de Vida e de Previdência?

• Como vai ficar o conceito tradicional da Previdência, que diz que passamos o primeiro período da nossa vida acumulando dinheiro e o segundo consumindo essa acumulação?
• É possível que passemos a ter uma intermitência continuada de períodos de acumulação e consumo dessa acumulação ao longo da nossa vida (agora muito mais longa)?
• Os sistemas previdenciários típicos das nações ocidentais (compostos pelos pilares Estado, Empresas e Indivíduos) foram desenhados e estão preparadas para esta nova realidade?

Uma importante contribuição para esse enorme aumento da longevidade vem das evoluções recentes da biogenética e de outras tecnologias associadas direta ou indiretamente à saúde. Elas estão permitindo que os indivíduos tenham cada vez mais e melhor conhecimento prévio sobre as suas doenças e os melhores meios para as prevenir ou curar.

Nesse cenário como ficará a aceitação de risco pelas seguradoras?

• O mapeamento do genoma já custa hoje 100 dólares nos EUA e pode ser feito pelos correios; em breve vai custar 10 dólares; e depois 1…
• A epigenética está nos dando crescente acesso e compreensão da camada “acima” dos genes que permite “ligá-los” ou “desligá-los”, aparentemente com base em características hereditárias ou alterações de comportamento adotadas pelos indivíduos;
• Os indivíduos conhecerão e poderão usar todos esses dados (a informação é deles), enquanto as seguradoras não (as leis de privacidade americana e europeia assim determinam);
• Levado ao extremo, isso não coloca as seguradoras numa situação em que seria quase impossível prevenir fraude (ou, no mínimo, controlar seleção negativa de risco)?

Ora, se não há incerteza, deixa de haver risco. Ou seja, pode esta nova realidade pôr fim ao conceito de risco relacionado com a morte não acidental, assim como nós o conhecemos?

Viver mais tempo, com mais saúde.

Não podem ser más notícias!!!

Mas então, que seguro de vida poderemos ter no futuro?

• Será que os produtos que existem hoje podem atender a esta nova realidade?
o Teremos cada vez maior demanda “apenas” por coberturas de morte e invalidez acidentais?
o Como poderá ser um produto de Morte Qualquer Causa nesta nova realidade, em que a incerteza diminui tanto (juntamente com o risco)?
o Será que há espaço para uma nova geração de produtos, em que serviços relacionados com o que as novas tecnologias da Saúde (ou com ela relacionadas) podem oferecer ao indivíduo, ganhem o protagonismo?
o Estaremos frente à oportunidade de mudar completamente o paradigma de precificação da indústria, criando produtos muito mais acessíveis e universais?
o Será que não teremos que procurar melhores soluções para democratizar o acesso à proteção para perda temporária de renda (para ajudar os clientes a fazer face a períodos de transição de conhecimento/carreira)?

• Será que o objeto social das seguradoras de vida não deveria integrar a Educação?

o Para ajudar a (re)ensinar a aprender?
o Para ajudar a ensinar novas coisas às pessoas mais velhas?
o Para ajudar as pessoas a conseguir novas formas de trabalho e fontes de renda?

• Como é que a utilização cada vez mais intensiva de tecnologias como a Realidade Virtual/Aumentada ou a IoT (wearables, usables, insidables) podem nos ajudar a sensibilizar os indivíduos para esta nova realidade? De que forma?

o Se todos os investimentos de educação financeira que a indústria e o estado brasileiro fizeram ao longo do tempo surtiram apenas crescimentos modestos na securitização financeira das famílias brasileiras, será que o recurso a estas novas tecnologias não poderá se revelar um investimento mais eficaz, mais barato e mais universal?
o Um câncer de pulmão de pessoas que nos sejam próximas convence a parar de fumar mais do que todas as campanhas antitabagismo que um fumante vê ao longo da vida. Sensibilizar através da oferta de experiências virtuais que permitam aos indivíduos tangibilizar e partilhar todos os dias as razões pelas quais é importante ter produtos de proteção financeira, poderá ser um melhor investimento?

Num país em que a produção da indústria de Seguros de Vida representa apenas 0,37% do PIB, equivalente a um consumo per capita de apenas USD$42,74 (nos EUA esse valor é 3,34% e o consumo per capita é de USD$1.823,64*) e em que assistimos à crescente dificuldade em sustentar o sistema público de Previdência, poderá este momento de profunda transformação ser a maior oportunidade de sempre para entregarmos um nível muito maior de segurança financeira e proteção Previdenciária (com coberturas adequadas para os riscos de Morte prematura, Invalidez e Sobrevivência) às famílias e à sociedade brasileira?

Num texto tão cheio de perguntas não há respostas certas.
Apenas um convite à discussão.

* Fonte: Axco Global Statistics, dados referentes a 2014.

Sobre a Autora

Denise Bueno

Denise Bueno

Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista da revista Apólice, especializada em seguros, e também do SindSeg-SP. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalizacao entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil.

Deixar um comentário