Porto e Bradesco, da ficção para a realidade*

Por Denise Bueno em 24/07/2009

42-21522418A confirmação da Porto Seguro sobre negociações com o grupo Bradesco por meio de comunicado enviado a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) esquentou o dia a dia das conversas de profissionais da indústria de seguros. A notícia deixou de ser um oba a oba das rodas de conversas - das mais discretas até aquelas formadas pelos fofoqueiros de plantão – para ser estampada na primeira página do principal jornal de economia do País.

Desde então, o assunto passou a ser analisado com mais profundidade e leva a reflexões sobre o segmento de automóvel, a cada dia mais competitivo e que ganha mais destaque com a reestruturação de taxas do VGBL, produto que vinha puxando o crescimento do setor e que agora terá de passar por uma ampla revisão. O tema também trouxe a tona questões como a consolidação da indústria de seguros brasileira diante da crise mundial, beneficiada pelo interesse dos investidores estrangeiros em busca de crescimento e lucratividade.

A Porto Seguro é hoje a principal seguradora de carros do Brasil. Tem o maior volume das vendas de R$ 6,5 bilhões de janeiro a maio deste ano, com market share de 20,28%, enquanto a Bradesco tem 13,40%. E por que consegue vender mais mesmo tendo um dos preços mais caros? Segundo pesquisa da CVA Solutinos, a Porto Seguro é a empresa mais bem avaliada, tanto por quem tem o seguro como por quem não tem. Quem não tem, gostaria de ter seguro com a seguradora.

Além de ter a preferência dos consumidores, tem a dos corretores. Para fazer um seguro de carro, o cliente é muito mais fiel ao corretor do que à seguradora, diz a pesquisa que entrevistou 200 corretores, dos quais 42% estão nesse mercado há mais de dez anos. A Porto, segundo relata o estudo e a realidade de quem observa este mercado atentamente, também é adorada pelos corretores por atender plenamente um dos principais critérios de escolha: a agilidade na resolução dos pagamentos de indenização, momento em que o corretor ganhará o céu ou o inferno com os clientes. É como estar acima do bem ou do mal por ter seguido uma estratégia fundamentada em atitudes justas.

No entanto, ela não é mais a única que oferece bons serviços aos clientes e corretores. Tem concorrentes fortes, focados em estruturar a operação nos últimos anos. Estrategicamente, Jayme Garfinkel e sua equipe de executivos criaram a Azul Seguros para competir no mercado.

Apesar de os executivos do grupo afirmarem que a Azul não compete com a Porto, é óbvio que atrai para si aqueles clientes que mesmo gostando dos serviços extras da Porto se vêem num momento financeiro difícil. Em vez de ir para a concorrência, migram para a Azul. Economizam e mantêm a qualidade de atendimento dos serviços básicos proporcionados pela rede de prestadores já consolidada.

Depois de deixar de lado a busca da liderança do ranking de automóvel a qualquer preço, há uns três anos, a Bradesco vem fazendo de tudo para cativar os corretores. Dia a dia tenta afinar o tato no relacionamento e ainda conta com problemas operacionais que atrasam a cotação ou elevam o preço, comentam os profissionais de vendas.

Em números, o ganho da Porto há anos vem do operacional e o da Bradesco ainda é gerado pelo financeiro. Enquanto o índice combinado da Porto é de 56,30%, o menor entre as seguradoras, a Bradesco ficou na outra ponta, liderando o ranking dos piores índices, com 81,83%, segundo estatísticas de janeiro a maio deste ano.

Para Porto e Bradesco, que juntas passariam a deter 35% do mercado de seguro de carro, escala é vital neste momento de queda de taxas de juros da economia. A Porto tem sentido mais a aproximação da concorrência e com sofrido os impactos das oscilações do mercado acionário. Agregar novos clientes e um canal de distribuição alternativo são caminhos naturais para o crescimento.

O conglomerado Bradesco, que perdeu a liderança com a fusão Itaú e Unibanco e passou a ser presidido por um executivo de seguros, sabe do potencial de ganho que uma operação de seguros bem estruturada pode gerar a um banco, principalmente no maior banco do Brasil em número de clientes e com grande potencial de venda de produtos massificados como o seguro de carro.

Em uma parceria de tamanho porte, onde a única informação é de que não haverá mudança acionária do controle da Porto, só pode se esperar que se mantenha o melhor de cada uma das empresas, como vem fazendo Itaú e Unibanco. Imagine uma Bradesco administrada pela cultura da Porto? Uma Porto Seguro tendo a oportunidade de fazer a inclusão social proporcionada pela dimensão e cultura de um Bradesco?

Seja como for, juntas ou separadas, a realidade é que não há mais espaço para serviços ruins, preço elevado e desrespeito aos direitos dos consumidores. O crescimento será uma realidade para aqueles que respeitarem o tripé da sustentabilidade, que leva em conta três aspectos: o econômico, o humano e o ambiental.

*artigo escrito com exclusividade para a Revista Apólice

 

 

Perfil do segurado define valor da apólice

Por Denise Bueno em 19/04/2007

A composição do valor de uma apólice é bem mais complexa e envolve índices de roubos, colisões e perfil do condutor, entre outros. Em uma cidade como São Paulo, cuja frota circulante é superior a 5,5 milhões de automóveis, roubo e furto representam 60% do total do custo. Os 40% restantes correspondem a colisões, enchentes e danos por incêndio. Já em cidades afastadas dos grandes centros urbanos, furtos e roubos equivalem a apenas 20% do total da apólice.

Em uma análise mais simples, pode-se considerar que, se um carro se desvaloriza anualmente e sofre perda total por qualquer um dos eventos acima citados, não haveria por que subir o preço do seguro, e sim cair. “Esse é o comentário que mais escuto desde que entrei neste ramo, mas a realidade não é bem essa”, garante Claudio Afif Domingos, diretor vice-presidente da Indiana Seguros.

O executivo explica que, para os casos de sinistro em que não há danos totais, apenas parciais, o veículo necessita ser reparado com peças novas, as quais obedecem ao valor do veículo zero-quilômetro. “É esse o custo considerado na composição do seguro, e não o ano de fabricação do mesmo”, afirma.

O executivo exemplifica: um Corsa Sedan, modelo 2001, que, segundo a Tabela Fipe, tem preço de mercado estimado em R$ 18.278,00, e que tenha sido parcialmente destruído e precise trocar o capô e a longarina esquerda. Essas peças custam, respectivamente, R$ 532,25 e R$ 1.098,73. Para o modelo 2006, do mesmo Corsa Sedan, cujo valor de mercado é R$ 23.553,00 (29% mais caro), o valor das peças são os exatos R$ 532,25 e R$ 1.098,73, da mesma forma que o modelo 2001.

Assim, mesmo em uma economia com baixa inflação, esse efeito de custo é repassado ao valor final dos carros novos, e também às peças que os compõem, o que explica como o valor do seguro não se deprecia de acordo com o valor do carro. “Há também ajustes para cima ou para baixo, quando determinado modelo é mais ou menos roubado em período imediatamente anterior”, reforça Afif Domingos.

Além dos índices de roubo e colisão, o perfil do condutor também é fundamental na composição do valor do seguro. Segundo o executivo da Indiana, até oito anos atrás, as seguradoras calculavam o preço do seguro de autos apenas por modelo e macrorregião de uso. “Hoje, consideram também o endereço (CEP) de pernoite e o perfil do condutor, que contempla idade, estado civil e hábitos de uso, entre outros”, explica.

 

 

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