Resseguro foi tema da abertura da VIII ABGR

Por Denise Bueno em 26/10/2009

images31Uma grande expectativa de melhora no cenário do resseguro em 2010 deu o tom da abertura do VIII Seminário Internacional de Gerência de Riscos e Seguros, evento tradicional promovido pela Associação Brasileira de Gerenciamento de RIsco (ABGR), patrocinado pelas seguradoras, corretores e resseguradoras e que teve início hoje e termina na quarta-feira, em São Paulo.

Um fato que todos lamentam é o país ter esperado tantos anos pela abertura do mercado de resseguros e quando ela efetivamente aconteceu, em abril de 2008, o mundo é abalado por uma crise financeira sem precedentes. “Afortunadamente, no Brasil a crise chegou mais tarde e mais leve. Assim, o País sai da crise antes do que outros países”, diz Andres Holownia, presidente da ABGR e gerente de riscos da Scania.

Todos concordam que o Brasil é o país do momento e que a abertura de resseguros dá mais brilho e sustentabilidade ao mercado. No entanto, os executivos são unânimes em afirmar que é preciso melhorar algumas regras e procedimentos. “Esta abertura, ainda que imperfeita, com um complexo sistema de diferentes tipos de resseguradores, restrições e exigências, precisa ser aprimorada para atrair a farta capacidade de capital que o Brasil precisa diante de um potencial tão relevante de crescimento para os próximos anos”, acrescenta Holownia.

Segundo o Banco Mundial, o Brasil pode se tornar a quinta maior potência do mundo até 2016. Hoje, o país ocupa a décima colocação no ranking das maiores economias do mundo. Segundo o presidente Lula, em seu discurso no “Café da manhã com o presidente” hoje, o Brasil terá de se esforçar muito para que esta previsão se torne realidade.

O mercado de seguros também terá de continuar se esforçando para que os efeitos positivos da abertura do resseguro sejam efetivados. Felipe Smith, diretor de grandes riscos da Tokio Marine, disse se sentir frustrado com a abertura. “A nossa expectativa era ter mais produtos, mais capacidade e preços mais acessíveis logo no primeiro ano de abertura para ofertar aos nossos corretores e segurados. Mas não é bem este cenário que estamos vivenciando com quase um ano e meio de mercado livre e quase 70 resseguradores instalados no País”.

Segundo o executivo da Tokio, grupo japonês que tem três braços de resseguros no Brasil, sendo duas resseguradoras e o Klin, um dos maiores sindicatos do Lloyd’s of London, o que se vê hoje no Brasil são produtos que já estavam disponíveis no mercado brasileiro e eram pouco comercializados. “Como o POSI, um seguro para proteger os diretores de empresas envolvidos em emissões de ações”, comentou durante a abertura do evento da ABGR.

Os palestrantes citaram outros problemas, além da falta de produtos. “Temos uma série de ações que precisam ser tomadas para atrair um número maior de resseguradores para o Brasil”, diz Francisco Pinho, executivo da Aon Benfield Re. Seu concorrente, Eduardo Hussen, executivo do grupo Marsh McLennan, que tem corretoras na área de seguros e de resseguros, concorda. “Nosso grande desafio é como atrair resseguradores internacionais. Apesar do grande número já instalado no Brasil, ele significa menos de 50% dos resseguradores mundiais”, enfatiza.

Segundo avaliação de números divulgados pela Superintendência de
Seguros Privados (Susep), dos 67 resseguradores listados no site da autarquia, os cinco locais têm 85% do prêmio de R$ 2,4 bilhões dos prêmios de resseguro até agosto. Mesmo com tantas resseguradoras, Pinho acredita que o Brasil enfrentará dificuldades para fazer a colocação de riscos facultativos em razão de a legislação limitar a atuação dos resseguradores eventuais, geralmente empresas especializadas em nichos de negócios complexos e de riscos vultosos.

“A legislação para eventuais já foi flexibilizada, mas é preciso um pouco mais de estímulo para que estes resseguradores eventuais se interessem mais pelo Brasil”, diz Pinho. A Petrobras é um dos clientes que precisa encontrar mais capacidade para a colocação de seu milionário contrato de resseguros. Segundo um executivo da Petrobras, o contrato foi prorrogado em razão da necessidade de buscar uma capacidade acima da que estava disponível no mercado brasileiro para riscos facultativos.

A redefinição da estratégia das seguradoras brasileiras dentro deste momento de crise e de consolidação do mercado brasileiro de seguros também é um dos fatores que frustrou os compradores de seguro. “Alguns clientes se queixam da falta de oferta, mas acreditamos que este novo cenário do setor estará definido em 2010”, diz Pinho, da Aon.

No entanto, uma simples volta na feira que acontece paralelamente ao evento, se nota a falta de interesse de seguradoras locais. Apenas a Allianz, Itaú, Tokio Marine e J.Malucelli tinham estandes no evento, em um local pequeno e dividido com corretores como Marsh e Aon, além dos prestadores de serviços da indústria de seguros. Na última edição, Bradesco, SulAmérica e Mapfre disputavam a tapa cada milímetro da feira de exposição.

Para Jacques Bergmann, executivo que deixou o grupo Itaú no início deste ano para montar a operação da seguradora canadense Fairfax no Brasil, elogiou a abertura e enfatizou que ela foi feita da melhor forma que pode e que como acontece em todos os mercados requer aperfeiçoamentos. Principalmente na parte tributária.

Segundo os palestrantes, é preciso definir melhor a tributação do mercado de resseguros, pois está havendo bitributação dos contratos de seguro. Também é importante avaliar as regras de solvência das seguradoras. “Muitas vezes o banco não está preparado para fazer a operação de câmbio para as seguradoras por falta de uma regulamentação mais clara e isso acaba gerando risco de oscilações das moedas. Esta situação pode afetar a capacidade de subscrição das seguradoras”, comenta Bergmann.

Fazer o repasse de riscos para seguradoras cativas de clientes também se tornou um problema na indústria de seguros. Antes da abertura do resseguro, esta operação, conhecida como fronting, era disputada pelas seguradoras, uma vez que o risco de crédito era nula por ser o IRB Brasil Re, detentor do monopólio nos últimos 69 anos, ser controlado pelo Tesouro Nacional.

Com a abertura, as seguradoras passaram a ter o risco de crédito da operação de resseguro e isso praticamente inviabilizou os contratos de fronting. Segundo os seguradores, é difícil calcular o preço de uma operação de fronting, principalmente em um momento onde a crise ainda pode esconder surpresas. Diante do risco, a opção tem sido não atuar neste tipo de operação.

Afinal, ninguém quer arriscar fazer parte dos grupos que foram engolidos pela crise, como AIG, Lehman Brothers e outros 101 bancos americanos. Ou memso o grupo ING, que anunciou hoje que venderá das operações de seguros no mundo para pagar o empréstimos de 10 bilhões de euros que teve de solicitar ao governo holandês. “As empresas que sobrevirão a esta crise não são as maiores e sim as que se adaptarem mais rapidamente às mudanças”, diz o executivo da Marsh.

 

 

E onde está o entusiamo?*

Por Denise Bueno em 15/10/2009

*artigo publicado na revista Apólice deste mês

Uma pesquisa feita durante um evento da KPMG em Nova York em setembro deste ano revelou um dado interessante se comparado ao Brasil. Entre os 271 executivos de seguradoras americanas pesquisados, apenas 9% colocam a indústria em uma forte posição nos próximos anos. Ou seja, um desânimo total.

Desanimo lá, entusiasmo aqui. Será mesmo? Aparentemente parece ser, mesmo com a falta de notícias de negociação de apólices. Mas temos discursos interessantes. Mais de 60 resseguradoras no primeiro ano de abertura do resseguro, executivos de bancos dizendo que o setor oferece um enorme potencial de ganho, vários projetos de infraestrutura que necessitam de apólices. Até mesmo o presidente Lula fala do potencial do crescimento de seguros. Quer até criar uma seguradora estatal.

Peraí. O governo, que tem o controle do mercado de grandes riscos através do IRB Brasil Re, liderou um monopolio por 69 anos, quer ampliar sua atuação no setor? Bem, isso só pode estar acontecendo para resolver uma situação problemática. Como a de Barack Obama. Ele quer mudar o sistema de saúde dos Estados Unidos porque o que existe hoje é inviável: caro e não atende às necessidades do consumidor e nem do governo.

Será que o mesmo está acontecendo no Brasil? As empresas privadas passaram anos lutando pela abertura do mercado de resseguro sem ter se preparado? E as resseguradoras, que tanto queriam a abertura, por que agora não ofertam capacidade?

É uma verdadeira catástrofe estar passando por este cenário. Sim, pois ter CSN sem seguro, Celesc sem seguro e Petrobras sem conseguir a cobertura necessária para proteger seu patrimônio é assustador. Se a explosão de uma fábrica de fogos em Santo André, São Paulo, é capaz de tirar vidas e deixar várias famílias sem sustento, imagine um acidente em maiores proporções.

E não são só riscos considerados “vultosos” que estão sem seguro. Corretores presentes em uma discussão sobre resseguro realizada em meados de setembro pela APTS em São Paulo informaram que até mesmo bons clientes, como médias empresas, estão sem cobertura pela falta de apetite das seguradoras, que por sua vez culpam os resseguradores. Estes repassam o problema para a crise mundial. Daí, como ninguém resolve, o governo decide intervir.

Um executivo de resseguradora, daqueles mais ferrenhos na briga pela abertura do setor, em recente conversa sobre este cenário, assumiu que acredita que o mercado de seguros brasileiro realmente não estava preparado para a abertura e que um comentário que se tornou comum é “éramos felizes com o IRB e não sabíamos”.

A minha memória rapidamente resgatou a estatização do seguro de acidente de trabalho ocorrido na década de 60. Imagine o governo resolver, em vez de abrir uma estatal, voltar a estatizar o resseguro? A única reação que tive foi dizer “Cruz credo!”, o que fez com que mudássemos de assunto.

Depois parei para refletir e fiquei com inveja dos americanos em ter um presidente decidido a resolver problemas pequenos, médios e grandes. Ele disse: “Não sou o primeiro presidente a tentar melhorar o sistema de saúde americano. Mas serei o último”.

Acredito que ele realmente conseguirá, mesmo com todo o lobby que as seguradoras têm feito no congresso americano. Ele avança na reforma com determinação em ter um sistema de saúde equilibrado. Como atua com ética, transparência e flexibilidade, aposto que sairá vencedor desta luta, que inicialmente lhe custou uma queda de ibope, já quase totalmente recuperada em menos de dois meses de atitudes coerentes e muita dedicação em esclarecer a sociedade sobre sua proposta.

Imagine se os corretores dissessem: “não sou o primeiro a tentar fazer o mercado de seguros crescer. Mas serei o último da minha geração a ver esta participação tão ínfima do setor no PIB de um país que está entre as dez maiores economias do mundo”. Ajudaria bastante.

O corretor é um agente que tem o poder de fazer a seguradora aceitar o risco e melhorar o produto. O problema é que muitos corretores não conseguem mostrar para as se/resseguradoras se o cliente é bom ou ruim em razão da falta de levantamento de dados.

Na dúvida, a desculpa da falta de capital gerada pela crise serve como escudo para a ineficiência. Se o risco é ruim, o segurado deve ser orientado sobre o que deve ser feito para mitigá-lo.

Em massificados, os corretores também têm grande poder de ajudar a mudar o setor, que ainda vende seguro de roubo para armário embutido, contou o promotor da Cidadania e do Consumidor de Jacareí (SP), José Luiz Bednarski, em sua palestra no seminário de Ética e Transparência realizado em setembro, em São Paulo. Podem exigir das seguradoras mudanças nos produtos “defeituosos” e mostrar ao consumidor a importância de ter sua vida e patrimônios protegidos.

E se levarmos em conta o atual momento, o corretor é a bola da vez. Roberto Setubal, do Itaú Unibanco, e Aldemir Bendine, presidente do Banco do Brasil, disseram que o corretor é um importante canal de vendas. Jayme Garfinkel, Patrick Larragoiti, Acácio Queiroz, Antonio Cássio dos Santos, Luis Maurette, Max Thiermam também afirmam isto há tempos. Ainda mais agora diante de tanta competição.

Sendo assim, este é um momento ideal de conseguir boas negociações para os consumidores e evitar que eles fiquem insatisfeitos e o governo tenha de intervir. E podem usar outra frase de impacto, como a dita por Trabuco durante entrevista ao jornal Valor Econômico se alguém vier com aquele papo de que você é pequeno ou só vende automóvel: “A gente tem que respeitar as diferenças. E olha, cá entre nós, respeitar as diferenças é um negócio ultramoderno! É a tal da diversidade”.

Para manter o entusiasmo verdadeiro — não só da boca para fora — de todos com a indústria de seguros brasileira é preciso investir em atitudes sustentáveis: respeito por si mesmo, pelo próximo e pelo planeta.

 

 

Marcos Lima, o guardião do grupo Odebrecht*

Por Denise Bueno em 25/06/2009

332811Gerenciar riscos é uma cultura arraigada no conglomerado Odebrecht. Começou com o fundador. Doutor Norberto Odebrecht, como ainda é conhecido por todos. Ele tinha apenas um caminhão em 1945, comprado financiado no auge da crise, para transportar material e pessoas. Certo dia, este veículo foi para a oficina para ter a carroçaria ampliada. Foi quando doutor Norberto percebeu que seu negócio corria um sério risco por depender de apenas um veículo, que nem pago ainda estava. Decidiu então fazer um seguro. No dia seguinte, a oficina pegou fogo.

Ainda bem que doutor Norberto estava segurado. Hoje o grupo emprega mais de 82 mil integrantes no Brasil e no exterior. Em seguros, o grupo investe anualmente mais de US$ 100 milhões. Boa parte dos negócios envolve a proteção do patrimônio dos acionistas e de terceiros e também o seguro garantia, um instrumento que permitiu o avanço internacional do conglomerado. “Nos EUA você não bate um martelo sem apresentar uma garantia”, explica Marcos Lima, diretor da OCS Administradora e Corretora de Seguros, corretora cativa do grupo Odebrecht, que completou 30 anos. Veja a seguir os principais trechos da entrevista concedida por Marcos Lima à Revista Gerencia em Seguros.

Por que o grupo decidiu criar uma corretora?
Inicialmente, o grupo tinha apenas uma divisão de seguros, que tinha como estratégia contratar várias corretoras. O fundador passou a perceber que ter uma divisão não era mais o suficiente. Queria concentrar a história do seguro das obras em um só local. Também tínhamos em mente estabelecer um relacionamento de longo prazo com as seguradoras e ter estatísticas para saber quais os principais riscos e incidências para poder criar mecanismos de prevenção e cláusulas que gerassem menos polêmicas na hora da indenização.

Foi quando a OCS nasceu?
A corretora, única atividade centralizada do grupo, nasceu em 1978 com o nome Fundação Emílio Odebrecht (FEO) e a partir de 1995 passou a chamar OCS. Ela nos ajudou a criar parcerias de longo prazo na internacionalização do grupo com o desenvolvimento do seguro garantia. As pessoas sempre acham que nada vai acontecer, principalmente se acham o seguro caro. Nosso foco é fazer um programa de seguro para proteger o patrimônio de riscos imprevisíveis.

Quanto o grupo Odebrecht investe em seguros anualmente?
Acima de US$ 100 milhões, sendo a principal apólice a dos complexos petroquímicos.

Como se tornou o guardião do patrimônio do grupo?
Em 1979, o doutor Norberto Odebrecht solicitou que preparasse uma “Política de Seguros” para ser discutida e negociada com os acionistas. Naquele momento eu nem sabia o que era uma apólice de seguros. Minha formação era em Finanças, Auditoria e Desenvolvimento Organizacional, com pós-graduação nessas áreas. Naquele mesmo dia lendo num jornal a realização do primeiro curso de corretor de seguros em Salvador, resolvi participar do curso para atender à solicitação, buscando entender tudo e aprofundar-me o máximo possível em conversas e questionamentos com os professores. Quando apresentei ao Conselho de Administração uma proposta para a Política de Seguros para a Organização Odebrecht, o doutor Norberto perguntou-me se eu aceitava assumir a liderança da corretora. Topei na hora.

O seguro garantia para viabilizar operações estruturadas, que se tornou um modelo para outras empresas, tem grande fatia dos negócios da corretora, não?
Sim. São mais de US$ 16 bilhões em garantias nos últimos 18 anos sem nunca ter executado um pedido de indenização.

Qual a primeira apólice de garantia (surety) que fechou?
O grupo começou a atuar nos EUA em 1991. Lá não se bate um prego sem ter seguro. Passamos a conhecer e entender um seguro que sequer existia no Brasil. Em 1992 tivemos uma prova de fogo. Encontrei os empresários Fernando Barbosa e Roberto Benjamin no escritório do Rio. Eles estavam felizes de ter conquistado o contrato para a construção da plataforma marítima Petrobras 18. Estavam as voltas para fechar o financiamento do projeto. Em razão do elevado valor, a fiança bancária tinha limites. Foi quando sugeri o seguro garantia, explicando que era uma espécie de aval que se a Odebrecht não concluísse a obra, a seguradora garantiria o término. Em pouco tempo, um pool de seguradoras estrangeiras emitiu uma garantia de US$ 272 milhões e a P-18 ainda opera na Bacia de Campos, no Rio, com capacidade de 100 mil barris diários de petróleo.

Foi então um grande marco para a vida da corretora!
A partir de então o seguro passou a ser um instrumento não só de proteção do patrimônio, como também vital para dar sustentabilidade aos projetos. Uma operação estruturada de financiamento, usando o seguro viabilizou a formação da Braskem,a empresa petroquímica da Odebrecht, em 2002.

Qual o principal negócio já fechado pela OCS nestes 30 anos?
Sem dúvida foi o recente seguro de garantia contratado para o Projeto Santo Antonio Energia – Madeira, considerada a maior apólice do mundo, num momento em que as seguradoras estavam fortemente atingidas pelo tsunami provocado pela crise financeira global.

E o contrato mais difícil?
Foi fechar os seguros de Property para as plantas química e petroquímica do grupo Odebrecht, após os atentados terroristas de 11 de setembro de 2000. Nossa renovação estava agendada para 28 de novembro. Tivemos de enfrentar um cenário complicado, com dificuldades para obter as capacidades necessárias para proteger a empresa e o custo estava elevadíssimo.

Qual o pior sinistro já gerenciado pela OCS?
O sinistro do Túnel Airton Senna, que caiu, enquanto discutíamos a apólice de Risco de Engenharia para o projeto. Embora só tivéssemos o pedido de cobertura feito à seguradora, não tínhamos a apólice de seguro emitida. Após longos sete meses de debates e negociações, foi acordado que tínhamos uma cobertura de seguro baseada apenas no nosso pedido. A regulação do sinistro deu-se de acordo com o clausulado usado normalmente em nossas apólices anteriores, resultando no recebimento de uma indenização de aproximadamente US$ 9 milhões. Este fato veio demonstrar e comprovar a boa fé que embasa as relações de seguro. O mercado segurador honrou o pagamento de importante sinistro baseado apenas na manifestação do segurado quanto à sua intenção comprovada de contratação do seguro.

Conte um sinistro que ajudou a mudar procedimentos e aperfeiçoar o gerenciamento de risco?
O sinistro acima é um exemplo. A partir desse sinistro fizemos uma revisão em todo o nosso processo de encaminhamento do pedido de seguro e também no processo de gestão para viabilizar a apólice.

O projeto do Rio Madeira foi o maior programa de seguros fechado nesta crise. Como foi encontrar capacidade?
Sim, foi o maior programa de seguros fechado nesta crise. A capacidade foi alcançada pelo fato de termos uma filosofia clara de relação de longo prazo com os seguradores e resseguradores, onde privilegiamos nossas parcerias, sempre buscando uma relação que seja boa para as partes, e que o cliente, no caso a Odebrecht, receba o melhor serviço, ao preço adequado e no prazo acordado.

Qual o argumento mais usado para tranquilizar os subscritores e conseguir a cobertura desejada?
O Track Record (histórico de desempenho) da Odebrecht e a qualidade dos players envolvidos nos projetos que investem em seguro.

Tiveram de fazer mudanças no projeto para atrair um número maior de resseguradores?
Nenhuma mudança foi necessária.

A OCS tem muitos negócios com a AIG. Qual a primeira reação dos executivos do grupo quando a então maior seguradora do mundo foi socorrida pelo governo dos EUA?
Nós que estamos muito próximo da AIG sempre fomos informados de tudo a tempo e hora. A posição foi de parceiro. Ligamos imediatamente para Hamilton da Silva, o COO da AIG, e dissemos a ele que contasse conosco no que fosse preciso. Afirmamos que nossa relação não mudaria em nada e que continuaríamos fazendo negócios. É isto que esperamos de um parceiro, estar sempre junto.

De que forma os problemas da AIG afetaram os negócios da OCS?
Não afetaram em nada. Pelo contrário. As relações hoje são ainda mais fortes.

Neste episódio, qual a estratégia adotada para gerenciar o risco financeiro?
Avaliamos juntamente com o executivo da AIG a saúde da seguradora responsável por nossas apólices e concluímos que além do rating “A” mantido pela S&P, as atitudes e postura da AIG na nossa relação nos deixaram plenamente confortáveis. Não vejo risco financeiro.

Qual o maior desafio do gerente de risco diante desta crise financeira global?
Existem aqueles que sempre estão comprando cobertura e, conseqüentemente, estão colocando as seguradoras em leilão. Estes estão tendo e terão dificuldades para fechar seus programas de seguro. Aqueles que tem como filosofia vender seu risco, buscando, identificando e encontrando parceiros que estejam dispostos a comprar esses riscos, têm uma situação de certa maneira confortável. O desafio é como estabelecer esta parceria porque há momentos bons, com riscos bons, sem sinistros, e momentos ruins, onde a sinistralidade é alta e danosa. É preciso ter um balanço desta convivência pelo menos a cada três anos para poder auferir o nível de relação de parceria.

Como vê o desenvolvimento do Brasil na área de infraestrutura?
O programa do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) é uma realidade. Os recursos disponíveis tornam o programa factível.

Como a indústria de seguros pode ajudar os investidores em projetos de infra-estrutura?
Temos que buscar criar uma mentalidade de Project Finance e, neste sentido, o seguro e as garantias por seguro são vitais para conclusão de projeto. Esta estrutura ajudou o grupo Odebrecht ser o que é hoje.
Como conciliar crescimento e sustentabilidade social e ambiental?
Já existe uma consciência nas grandes empresas sobre a necessidade desta conciliação. O processo é demorado, mas aos poucos está se tornando uma realidade.

De que forma a indústria de seguros pode ajudar no crescimento sustentável?
Introduzindo produtos como o seguro ambiental, por exemplo. No Brasil, por exemplo, poucas operam com esta apólice. Também participando ativamente nos grupos de estudo em apoio ao governo e introduzindo novos produtos no mercado brasileiro que permitam uma redução dos custos com seguro e a sua conseqüente massificação.

Há muitos projetos e obras embargados por questionamentos judiciais. Como gerenciar obras nesta situação, uma vez que o ressegurador comprometeu capital em contratos que estão suspensos?
Na realidade o segurador e o ressegurador recebem na frente o prêmio de seguro para fazer face a um provável sinistro num futuro incerto. Estas suspensões, de um modo geral, não geram problemas à industria de seguros e sim à sociedade.

Como avalia este primeiro ano da abertura do resseguro no Brasil?
Excelente. O trabalho da Superintendência de Seguros Privados (Susep) tem sido excelente. Com uma postura pró-ativa, a Susep tem ajudado o mercado a superar as dificuldades naturais de abertura, após quase 70 anos de monopólio, e que ainda coincidiu com a explosão da pior crise financeira mundial depois do crash da Bolsa, em 1929.

O que acha que precisa ser aprimorado no resseguro brasileiro para facilitar o dia a dia dos gerentes de risco?
Um maior envolvimento interativo. É preciso sair da postura de esperar e aguardar a decisão do ressegurador. Em suma, empresariar o negócio seguro.

Que tipo de coberturas as seguradoras precisam desenvolver junto aos resseguradores para proteger os investidores interessados em projetos de infra-estrutura?
Sinto falta de mais dinamismo e novidades nas coberturas de riscos de engenharia, transporte, Allop, Delay in Start Up e Garantias Contratuais.

O que você mais valoriza quando escolhe corretores, seguradoras e resseguradores?
São seis fatores básicos. O primeiro deles é a capacidade econômico-financeira. Este item sempre foi importante e ficou ainda mais com a crise financeira desencadeada pelas hipotecas de alto risco (subprime) nos Estados Unidos e que se alastrou pelo mundo a partir de junho de 2007. A capacidade dos seguradores e dos resseguradores tem de ser compatível com o valor dos riscos assumidos. Temos como referencial uma avaliação equivalente ao Rating “A” ou acima desse, atribuído por empresa avaliadora com reputação reconhecida no mercado segurador. A competência técnica, estrutura e disposição da seguradora para servir globalmente, visando atender as necessidades especificas de avaliação e cobertura dos riscos preponderantes para cada caso é também fundamental.

É preciso ser parceiro?
Sim. Levamos em conta também a parceria estratégica de longo prazo em nível global com atendimento local nos países de atuação da organização; a rapidez e flexibilidade na regulação de sinistros; o cumprimento de obrigações pactuadas; a criatividade e coragem de mudar, demonstradas pelo efetivo interesse no estudo e na solução de novas condições; e o limite de crédito em Surety Bonds (Seguro-Garantia).

A OCS tem quantos funcionários?
Atualmente temos 45 pessoas trabalhando conosco, baseados em diversas localidades. Também contamos com o apoio de corretoras internacionais como AON e Marsh.

Qual o principal conselho aos gerentes de risco que querem se tornar o guardião do patrimônio dos acionistas?
Disposição em servir e avaliar os riscos com acuidade, de modo a poder vendê-los com propriedade ao mercado segurador. Sair da postura de comprador de cobertura para vendedor de risco. Também é preciso ter capacidade de disseminar a visão do desenvolvimento sustentável nas dimensões sócio econômicas, ambientais e culturais nas ações da empresa. O gerente de risco tem um grande poder em suas mãos hoje. Para isso é preciso desenvolver uma competência empreendedora que consiga romper o conhecido, ousando, viabilizando a concepção de inteligência de risco. Não basta somente ser um técnico muito bom, pois fatalmente terá seu momento de obsolescência. Precisa ser alguém que vai deixar sua marca.

*Matéria produzida com exclusividade para a revista Gerência de Riscos e Seguros, do Grupo Mapfre, número 102, 1º quadrimestre de 2009

 

 

Indústria precisa lançar produtos “verdes”, diz Aon

Por Denise Bueno em 19/06/2009

42-17660158As seguradoras, resseguradoras e corretoras precisam repensar a importância de criar produtos que tragam recompensas e estimulem as empresas a adotar atitudes sustentáveis. O apelo foi feito por Andrew Tunnicliffe, COO da Aon Global Risk Consulting, em sua palestra durante a Association of Insurance and Risk Manager’s - AIRMIC (semelhante a brasileira Associação Brasileira de Gerenciamento de Risco-ABGR), realizada em Bournemouth, Inglaterra, na semana passada.

Entre os produtos que podem ser criados, o executivo cita apólices com desconto ou com serviços adicionais para carros híbridos, edifícios construídos dentro dos padrões ecologicamente corretos, para corporações que usam energia renovável e benefícios para as pessoas que cuidam da saúde.

Durante sua palestra, foi realizada uma pesquisa com aproximadamente de 100 gestores de riscos dos maiores grupos econômicos da Inglaterra que estavam no evento para saber o que eles pensam do assunto. Cerca de 82% deles acreditam que a indústria de seguros tem de mudar de atitude em relação à responsabilidade social das empresas. Pouco mais de 97% dos gestores de risco informaram que a sua organização está empenhada em se tornar socialmente responsável, enquanto 71% reconhecem que esta política terá um custo inicial para o acionista, cujo retorno virá no futuro em termos de imagem.

“Nós, empresas globais, temos de incorporar esta responsabilidade em nosso dia a dia, olhando onde podemos reduzir prêmios para incentivar mais adeptos ao desenvolvimento sustentável”.

 

 

Seguros de garantia e de crédito enfrentam crise*

Por Denise Bueno em 04/06/2009

42-20913771A crise começa a fazer suas vítimas na indústria de seguros. Dois produtos financeiros, seguro garantia e de crédito, começam a enfrentar dificuldades. Depois de vivenciar dois anos de farta capacidade e taxas baixas, a atual realidade do seguro garantia é de redução de investidores interessados e aumento da sinistralidade, que já começa a ser sentida pelo consumidor brasilero. “Garantia é um segmento que tem forte dependência do resseguro e por isso sofre com o cenário externo”, disse Alexandre Malucelli, presidente da JMalucelli Re durante sua palestra no VIII Encontro Anual do Comitê do Setor Elétrico, realizada em Belo Horizonte entre os dias 2 e 4 de junho e promovido pela Associação Brasileira de Gerenciamento de Risco (ABGR).

A consequência é o aumento do preço, maiores exigências de garantias e informações ainda mais detalhadas dos riscos. “Está é a realidade que pude constatar nos últimos dias. A crise afetará o segmento no Brasil. Mas também é correto afirmar que este cenário desafiador nos traz muitas oportunidades”, disse ele para uma platéia responsável pelo maior número de projetos de infra-estrutura para serem aprovados no Brasil, durante o VIII Encontro Anual do Comitê do Setor Elétrico, realizado em Belo Horizonte entre 2 e 4 de junho.

Já o seguro de crédito, cujo efeito é mais imediato do que o de garantia, deverá passar por uma forte reformulação. As seguradoras de crédito enfrentam sérios problemas com a inadimplência na crise. Segundo Malucelli, durante suas conversas com resseguradores a sobrevivência do seguro de crédito é muito questionada.

“A imagem que ficou foi de ter a seguradora como um guarda chuva que quando começou a tempestade a companhia o pegou de volta e fechou”. Os governos da França, Espanha e Inglaterra criaram linhas para socorrer as empresas diante deste cenário, evitando assim o corte das linhas de crédito, sem muito sucesso. O resultado é uma ampla discussão sobre como ficará este segmento nos próximos anos.

No garantia, a crise tem um efeito mais retardado, porém será sentido com mais ênfase no segundo semestre. Empresas boas enfrentam dificuldade de liquidez, o que deverá se normalizar no próximo ano. “Hoje o que vemos são empresas pequenas obtendo a cobertura por estarem dentro dos limites dos contratos automáticos. Já para grandes projetos as taxas estão mais elevadas e mesmo assim faltam recursos para prover a capacidade”.

Tentar projetar um futuro por enquanto ainda é uma missão quase impossível. Para Malucelli, o futuro próximo destes dois segmentos de seguro é de consolidação, reduzindo o número de concorrentes. “Já vemos muitos efeitos em diversas áreas com a falta de cobertura para projetos importantes”.

Segundo ele, as companhias ficarão ainda mais seletivas em razão da lucratividade ter de vir do operacional, uma vez que do financeiro será difícil, com taxas de juros declinantes e investidores com aversão a risco neste momento. Os bancos começam a voltar a competir com o seguro garantia ofertando fiança bancaria. “Esses fatores criam um cenário desafiador e cheio de oportunidades”, conclui Malucelli.

*a jornalista viajou a convite da Mapfre Seguros

 

 

Malucelli renova contrato automático de garantia*

Por Denise Bueno em 04/06/2009

images11Depois de viajar vários dias para negociar com 16 resseguradores estrangeiros a renovação de contratos automáticos para garantir as operações de seguro da JMalucelli, Alexandre Malucelli (foto), presidente da resseguradora chegou a conclusão de que a crise chegou no segmento de seguro de crédito e garantia. “Mesmo diante do baixo astral instalado no exterior, conseguimos renovar nossos contratos até junho de 2010 com mais capacidade em razão do bom momento que o Brasil vive e pelo histórico de crescimento de vendas e rentabilidade do segmento no País”.

O crescimento econômico do Brasil tem estimulado fortemente o seguro de garantia. A previsão da JMalucelli Re é de que os prêmios deste segmento vão atingir R$ 643 milhões em 2009 e R$ 803 milhões em 2010. A expectativa considera a crise, que será compensada pelos projetos de infraesturtura que não podem esperar outro momento para serem iniciados, como as que fazem parte das exigências da Fifa, que escolheu 16 cidades brasileiras para sediar os jogos da Copa do Mundo em 2014.

Ser 2010 um ano eleitoral também conta pontos para alavancar as vendas de seguro garantia. “Historicamente em anos eleitorais os projetos governamentais avançam para finalizar o mandado”, explica Malucelli durante sua palestra no VIII Encontro Anual do Comitê do Setor Elétrico, realizada em Belo Horizonte entre os dias 2 e 4 de junho, promovido pela Associação Brasileira de Gerenciamento de Risco (ABGR).

Na apresentação aos gestores de riscos das maiores empresas de energia do País, a mesma feita aos resseguradores internacionais durante o road show, Malucelli buscou mostrar o desenvolvimento do seguro garantia. “É um mercado em expansão e rentável”, disse, exigindo dados de crescimento dos prêmios e evolução dos sinistros.

O seguro garantia encerrou 2008 com prêmios de R$ 499 milhões, evolução de 43% sobre 2007, que já tinha avançado 77% sobre 2006. No primeiro quadrimestre deste ano, o segmento exibe crescimento de 75%. “Temos aqui o seguro da Usina Santo Antonio, do Rio Madeira, que representa R$ 130 milhões, mas mesmo assim percebemos o crescimento acelerado do setor mesmo num cenário de crise”, disse o executivo da Malucelli.

Desde 1994 até 2008, o índice médio de sinistralidade ficou em 18%. “Tivemos três grandes sinistros indenizados, que elevaram o índice para 85% e 107% em 1997 e 1999 e para 46% em 2005. “Isso mostra que diferente dos outros países o Brasil é um mercado em crescimento e com resultados técnicos”.

A Malucelli detém pouco mais de 40% das vendas totais de seguro garantia no Brasil, abaixo da fatia de 50% no encerramento de 2008. A abertura do resseguro tende a pulverizar os negócios com a entrada de novos competidores. “O que é bom para todos”, comentou o executivo. A retenção de risco das seguradoras neste segmento é de apenas 20%, o que evidencia tratar-se de uma carteira fortemente focada no resseguro.

Mesmo com a forte dependência do resseguro, o patrimônio líquido das seguradoras cresceu nos últimos anos, passando de R$ 22 milhões em 2003 para R$ 82 milhões em 2008. Até 2008, antes das novas regras de solvência, as seguradoras podiam reter em cada risco especifico cerca de 3% dos ativos líquidos. Agora, a retenção passou a ser ajustada ao risco ponderado.

*a jornalista viajou a convite da Mapfre Seguros

 

 

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