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Setor de resseguros no Brasil caminha para ser um mercado mais sólido, afirma CEO da Munich Re

Denise Bueno
Escrito por Denise Bueno

O grupo alemão Munich Re confirmou que mantém suas expectativas de lucro mundial para 2017 entre 2 bilhões a 2,4 bilhões de euros. A informação foi divulgada durante a publicação do balanço do segundo trimestre deste ano, quando apresentou lucro líquido de 733 milhões de euros. A queda de 25% no lucro trimestral foi melhor do que o esperado, em parte ajudado pela diminuição das catástrofes naturais. E como fica o Brasil neste contexto? Caminha para um mercado mais sólido, segundo Rodrigo Belloube, CEO da operação brasileira. “Acreditamos que o mercado em cinco anos será bem diferente do atual, talvez mais consolidado e de fato aberto”, disse ele ao Blog Sonho Seguro.

No Brasil, a Munich Re encerrou 2016 com prêmios de R$ 441,9 milhões (líquidos de comissão de resseguro), incremento de 15% em relação a 2015. O lucro líquido saltou de R$ 14 milhões para R$ 55,7 milhões. O resultado operacional praticamente quadriplicou, atingindo o montante de R$ 100,2 milhões ante R$ 27,8 milhões em 2015. “Nosso principal foco é estabelecer parcerias estratégicas com rol de clientes na pauta envolvendo assuntos pertinentes à gestão de risco, a partir das quais nosso desenvolvimento sustentável se materializa, conforme demonstram os resultados obtidos em 2016”.

Veja abaixo alguns trechos da entrevista:

Qual o impacto da recessão no resseguro no mercado brasileiro?

Há carteiras mais suscetíveis ao cenário macroeconômico, em particular aquelas que se desenvolvem em sintonia com os investimentos em infraestrutura. As mais óbvias são as relacionadas aos seguros de riscos de engenharia, que cobrem obras de diferentes magnitudes contra danos físicos acidentais e, dependendo do contrato, a perda financeira resultante do atraso gerado pelos trabalhos consequentes de reparo, e as garantias contratuais tanto no que tange ao desempenho quanto à completude das obrigações contratuais.

E as garantias ofertadas pelas seguradoras aos clientes?

Em relação às garantias, o impacto foi menos percebido em termos de escala, tanto para o mercado quanto para as operações individuais de seguradoras, em função da mudança radical no DNA da carteira. O mercado voltou-se principalmente para a demanda de garantias judiciais como fator compensatório da queda brusca nos investimentos em infraestrutura. A diferença na natureza do risco subjacente é significativa, o que leva a uma abordagem distinta na análise, precificação e gestão do risco durante seu ciclo de vida.

E a queda em carteiras como automóvel, trouxe perdas para resseguros?

As carteiras de auto, ainda pouco resseguradas no País, também apresentaram desempenho decepcionante nos últimos anos em função da queda brusca na venda de carros novos, que tradicionalmente demandam mais seguro. A sinistralidade também piorou no geral, o que parece ter relação com o crescimento sensível de furtos e roubos. O impacto sentido pelos resseguradores nessa carteira foi mínimo; ela ainda é pouco ressegurada no Brasil, uma vez que as seguradoras brasileiras ainda não se atentaram para o custo competitivo do resseguro, como fonte de capital de risco, em comparação às alternativas de dívida ou injeção própria.

A qual o peso da Lava Jato no setor, uma vez que alguns dos principais clientes de seguros até 2014 em investigações, muitas falências de empresas concentradas por setores, pedido de recuperação judicial, além de executivos solicitando cobertura de D&O?

Não identificamos volatilidade maior do lado de sinistros por conta da Lava Jato. Conseguimos aglutinar como prática de gestão uma série de iniciativas especificas que, combinadas, geram resultados satisfatórios. Dentre elas estão a gestão de nossas exposições e acúmulos, uma seleção cuidadosa dos projetos a que nos expomos, a escolha criteriosa das seguradoras com quem trabalhamos, bem como critérios com bom balanço técnico-comercial para as garantias judiciais. Na ponta de prêmios, houve a substituição das garantias de desempenho e completude pelas judiciais, o que levou o mercado a uma nova natureza de risco subjacente, a uma nova carteira de garantias.

O que pode impactar os resultados em 2017?

Não identificamos um fator específico que nos leve a um resultado maior ou menor. A volatilidade de nosso negócio é endereçada com mecanismos usuais de proteção – um conjunto de retrocessões, ou de resseguro do resseguro. Para nós, o importante é continuar a desenvolver nosso negócio em linha com nosso planejamento estratégico nos três pilares que o formam: resseguro tradicional, resseguro como capital de risco e inovação, sempre com foco na excelência de serviços para nossos clientes, com base num diálogo permanente e próximo com eles, em toda a extensão da cadeia de valor. Feito isso, continuaremos no caminho de consolidar a operação brasileira como uma das líderes e mais rentáveis do mercado local.

O IPO do IRB traz algum impacto ao segmento de resseguros?

Acreditamos que transformações tangíveis somente ocorrerão se um novo acionista de cunho estratégico tiver autonomia para promovê-las e uma agenda factível e convincente. Mais do que o contexto específico do IPO, o importante, ao nosso ver, é reconhecer que o mercado brasileiro de resseguro é um dos mais ineficientes do mundo, com altíssima carga tributária que impõe aos resseguradores, tanto os capitalizados localmente quanto os internacionais, um peso quase inviabilizante e muito superior a outros centros vizinhos (Colômbia, por exemplo), um emaranhado regulatório com algumas provisões sem sentido algum (limitações de retrocessão intragrupo, por exemplo), e um tamanho pequeno.

Mesmo com a abertura, o segmento de resseguros ainda é considerado pequeno?

Sim, somos um mercado pequenino frente a outros da América Latina expostos a catástrofes naturais e, acrescentando ao desafio, com muita oferta de capacidade disponível. Não é à toa que a rentabilidade de praticamente todos os resseguradores atuando no Brasil é bastante baixa, o que tem promovido tentativas de internacionalização para aqueles de capital local, um apoio muito grande dos resultados na decrescente receita financeira, e, no que nos soa como tentativa de buscar um atalho ao ganho de escala, abordagens comerciais por vezes demasiadamente agressivas e sem sustentação. Não existe almoço de graça, a conta chega mais cedo ou mais tarde. Acreditamos que o mercado em cinco anos será bem diferente do atual, talvez mais consolidado e de fato aberto.

Sobre a Autora

Denise Bueno

Denise Bueno

Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista da revista Apólice, especializada em seguros, e também do SindSeg-SP. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalizacao entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil.

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