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O que muda no resseguro do país com o IPO do IRB Brasil RE?

Denise Bueno
Escrito por Denise Bueno

Hoje, o IRB fixará o preço dos papéis, que devem estrear na bolsa na segunda-feira, dia 31. A aposta é que o preço das ações fique no piso de R$ 27,24 a R$ 33,65 e cerca de 20% dos papeis sejam negociados. E o que isso afetará a estratégia das 137 resseguradoras (16 locais, 38 admitidas e 83 eventuais) que atuam no Brasil?

“Parece-nos ainda uma incógnita se o IPO provocará alguma mudança significativa. Acreditamos que transformações tangíveis somente ocorrerão se um novo acionista de cunho estratégico tiver autonomia para promovê-las e uma agenda factível e convincente”, diz Rodrigo Belloube, CEO da Munich Re.

Rodolfo Rodriguez, Head de Business Intelligence da Austral Re, afirma que caso seja bem-sucedido, o IPO do IRB é boa notícia em várias dimensões: traz maior visibilidade ao segmento, há ganhos de governança associados às exigências do Novo Mercado da B3 e passa a haver um benchmark de análise do mercado financeiro sobre o setor. “Acreditamos que seja um passo importante para o amadurecimento do resseguro no Brasil”.

Segundo Belloube, mais do que o contexto específico do IPO, o importante é reconhecer que o mercado brasileiro de resseguro é um dos mais ineficientes do mundo, com altíssima carga tributária que impõe aos resseguradores, tanto os capitalizados localmente quanto os internacionais, um peso quase inviabilizante e muito superior a outros centros vizinhos, como a Colômbia, por exemplo, um emaranhado regulatório com algumas provisões sem sentido algum, com limitações de retrocessão intragrupo, por exemplo, e um tamanho pequeno.

“Sim, somos um mercado pequenino frente a outros da América Latina expostos a catástrofes naturais e, acrescentando ao desafio, com muita oferta de capacidade disponível”, avalia. “Não é à toa que a rentabilidade de praticamente todos os resseguradores atuando no Brasil é bastante baixa, o que tem promovido tentativas de internacionalização para aqueles de capital local, um apoio muito grande dos resultados na decrescente receita financeira, e, no que nos soa como tentativa de buscar um atalho ao ganho de escala, abordagens comerciais por vezes demasiadamente agressivas e sem sustentação”, comenta o CEO local da resseguradora Munich Re, uma das maiores do mundo. “Não existe almoço de graça, a conta chega mais cedo ou mais tarde. Acreditamos que o mercado em cinco anos será bem diferente do atual, talvez mais consolidado e de fato aberto”.

O mercado de resseguros é vinculado ao de seguros, que foi impactado direta e indiretamente pela recessão e pela crise fiscal. A repercussão foi sentida em diversos segmentos. Na subvenção do seguro agrícola, que trouxe consequências para toda a cadeia. “Em grandes obras de infraestrutura e construção, temos um volume substancialmente menor. No setor de óleo e gás, a diminuição do preço internacional do petróleo também trouxe diminuição de investimentos em comparação a quatro ou cinco anos atrás”, diz Rodriguez.

Entretanto, afirmam os especialistas, apesar de todos os efeitos acima, o mercado brasileiro de seguros segue tendo baixa penetração, de modo que mesmo em recessão é possível ter novos produtos e consumidores, o que compensa o efeito da crise econômica. Como exemplo, podemos citar a crescente demanda por garantias judiciais, um mercado até então pouco explorado que cresceu significativamente nos últimos anos. “A própria Austral Re desenvolveu produtos e soluções para cedentes locais que não existiam no mercado. Atualmente estas linhas correspondem a cerca de 35% do nosso faturamento”, diz.

Existe ainda o movimento das resseguradoras locais com capital nacional em diversificar suas carteiras por toda a América Latina, tanto através de crescimento orgânico com fez IRB, Austral, Terra Brasis, bem como por movimentos de fusões e aquisições como o grupo JMalucelli, configurando um movimento de exportação de conhecimento e capacidade.

Na visão de Rodrigo Botti, diretor da Terra Brasis, em termos de volume, o mercado de resseguro tem sofrido menos que outros setores da economia e menos até o que setor de seguros”, afirma. A maioria dos ramos de seguro que utilizam resseguros não são tão cíclicos e correlacionados com crescimento econômico de curto prazo. A preocupação maior, segundo ele, é com a sinistralidade, que tende a aumentar em períodos de baixo crescimento economia deprimida. Neste sentido, o mercado brasileiro tem mostrados certa recuperação, porem seus níveis de sinistralidade ainda se encontram acima dos níveis internacionais. Além disso, os possíveis impactos da lava-jato e outras investigações ainda demorarão para se tornarem visíveis em algumas linhas de negócios como o seguro garantia, D&O entre outros.

Para Botti, o mercado continua bastante competitivo, com players locais, regionais e globais disputando o mercado brasileiro, ainda tido como de grande potencial no médio prazo. A capacidade de retenção de riscos no mercado local continua a crescer e estimamos que a capacidade atual é cerca de 3 vezes o volume atualmente retido. Esta dinâmica, apesar de comprimir o resultado de nós resseguradores, beneficia o consumidor brasileiro.

2017 – Olhando o futuro próximo como desafio, o mercado trabalhará com uma taxa de juros menor, restringindo o resultado financeiro. Por outro lado, as oportunidades permanecem presentes. O movimento de internacionalização dos resseguradores locais continua em ritmo acelerado, com 6 das 16 entidades hoje presentes no brasil já atuando no exterior. Nos 12 meses findos em março de 2017, o volume de resseguro emitido originado no exterior foi de R$ 1,6 bilhões, cerca de 18% do volume total emitido por elas, um crescimento de 25% relativo ao período equivalente anterior.

Fonte: Terra Brasis

Outra grande oportunidade para o mercado ressegurador brasileiro de acordo com Botti é no auxílio ao desenvolvimento de novas linhas de seguro. Quando se fala em resseguro no brasil, se pensa em grande riscos, porem resseguro é muito mais que isso. No mercado americano, por exemplo, prêmios de resseguros ligados a grande riscos são somente cerca de 10% do volume total, no Brasil cerca de 40%.

Botti destaca que a inovação é uma grande aliada do crescimento. “Existe uma gama de produtos de seguros que ainda não chegaram ou não se desenvolveram plenamente no Brasil que usam resseguro intensivamente. Entre eles, seguro de vida por acumulo e risco de longevidade, mercado privado para risco de responsabilidade civil de automóvel. E o seguro de acidentes do trabalho. O setor de saúde é outro que está se voltando ao mercado de (re)seguros buscando soluções para melhor administração de seus riscos. O setor agrícola também tem espaço para novos produtos com tecnologia mais elaborada, onde certamente o resseguro pode auxiliar”, enumera Botti.

Quanto ao que pode impactar os resultados do segmento de resseguro e 2017, o executivo da Munich Re afirma que não há um fator específico que nos leve a um resultado maior ou menor. “A volatilidade de nosso negócio é endereçada com mecanismos usuais de proteção – um conjunto de retrocessões, ou de resseguro do resseguro. Para nós, o importante é continuar a desenvolver nosso negócio em linha com nosso planejamento estratégico nos três pilares que o formam: resseguro tradicional, resseguro como capital de risco e inovação, sempre com foco na excelência de serviços para nossos clientes, com base num diálogo permanente e próximo com eles, em toda a extensão da cadeia de valor. Feito isso, continuaremos no caminho de consolidar a operação brasileira como uma das líderes e mais rentáveis do mercado local.”

Acreditamos em recuperação econômica, ainda que tímida. O aumento de investimentos pode trazer alívio ao setor de grandes obras, bem como uma melhor organização fiscal pode trazer mais segurança ao setor agrícola. Percebemos também uma recuperação do varejo, que tem impacto direto em linhas de seguros como prestamista e garantia estendida, segmentos nos quais o resseguro também tem participação”, afirma o executivo da Austral. Segundo ele, o mercado internacional de resseguros ainda permanece soft (ou seja, os preços estão baixos). Isto significa que os resseguradores brasileiros podem aproveitar a capacidade internacional para oferecer maior proteção aos seus clientes. “Acreditamos que estes incrementos nos resultados de subscrição devam compensar a queda da taxa de juros.”

Segundo a mais recente edição do Terra Report, que analisa o comportamento do mercado brasileiro de resseguro no primeiro trimestre de 2017, o volume de resseguro cedido pelas seguradoras brasileiras (bruto de comissão) foi de R$ 2,72 bilhões, aumento de 15% em relação ao mesmo período de 2016, sendo que 68% foi colocado nas resseguradoras locais. A sinistralidade bruta das resseguradoras locais ficou em 47% (39% para o IRB e 59% para o conjunto das outras locais) contra 87% do mesmo período do ano anterior. O Combined Ratio ficou em 98% (87% para o IRB e 112% para o conjunto das outras locais), relativamente estável em comparação aos 97% apresentados em 2016 (91% para o IRB e 105% para o conjunto das outras Locais).• A capacidade de retenção de risco pelo mercado local continua a crescer e comporta confortavelmente o volume de riscos atualmente retido, existindo significativo espaço para uma maior retenção de risco pelo mercado local.

Sobre a Autora

Denise Bueno

Denise Bueno

Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista da revista Apólice, especializada em seguros, e também do SindSeg-SP. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalizacao entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil.

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