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Todos gostam do Brasil, diz conselheiro da Allianz

enrico-cucchiani*entrevista publicada na Revista Apólice

Max Thiermann, presidente da Allianz Brasil, está com tudo. A alta cúpula da maior seguradora do mundo demonstrou completa satisfação com o desempenho da subsidiária brasileira. Para começar, Michael Diekmann, presidente mundial do Grupo Allianz, autorizou que o segundo dia do Encontro Brasil Alemanha, realizado dias 31 de maio e 1º de junho e patrocinado pela Allianz e pela BMW, acontecesse dentro do Allianz Arena, em Munique, considerado um dos mais modernos estádios do mundo.

“Concordei por três razões: a primeira delas para retribuir os bons resultados que o Brasil vem dando ao grupo, com crescimento médio de cerca de 20% nos últimos cinco anos. A segunda razão é pessoal. Fui responsável pela região por vários anos e sei do potencial do país. E a última é porque o Allianz Arena é um ambiente fantástico para o Encontro, por ser símbolo da cooperação entre esporte, política e economia”, disse Diekmann na abertura do segundo dia do evento.

Se não bastassem as honrarias do presidente mundial ao Brasil, Enrico Cucchiani, membro do conselho de Administração da Allianz SE e responsável também pelo Brasil, fez questão de abrir um horário em sua atribulada agenda para atender jornalistas e corretores de seguros brasileiros.

Acostumado a grandes números, Cucchiani vê grande potencial na jovem indústria de seguros do Brasil. “Alocaremos os recursos necessários para o desenvolvimento dos nossos negócios na região”, disse ele, com tranqüilidade e sem tirar um simpático sorriso do rosto durante quase duas horas de perguntas.

Dinheiro parece não ser um problema para o grupo. Em 2009, a Allianz faturou quase € 100 bilhões, mais do que o dobro da indústria de seguros brasileira inteira, com prêmios de R$ 111 bilhões, que convertidos para a cotação de R$ 2,4 do último dia de 2009, significa € 44,4 bilhões. Pagou € 1,9 bilhão em dividendos para os acionistas, € 9,9 bilhões aos funcionários que fazem este enorme conglomerado funcionar, € 16 bilhões em comissões aos corretores, € 8,2 bilhões em indenizações aos clientes. Tem ainda € 1,3 trilhão em recursos administrados em 70 países pela Allianz Global Asset, a segunda maior do mundo, considerando-se também a Pacific Investment Management (Pimco). Ativos de 75 milhões de clientes e que representam pouco mais do que o PIB do Brasil de 2009, R$ 3,1 trilhões (ou € 1,24 trilhão). “Ou 40 vezes o PIB da Colômbia”.

Veja a seguir os principais trechos da entrevista:

São números expressivos. Parte destes recursos administrados pode ser direcionada para investimentos no Brasil, como na construção de estádios ou projetos de infraestrutura, por exemplo?

Estamos preocupados em atender as demandas brasileiras. A alocação de capital para os países depende das oportunidades que são apresentadas. Temos de justificar aos acionistas os aportes de capital que fazemos. Estamos em um mundo capitalista, movido a lucro. Não podemos perder dinheiro. Temos hoje mercados com fortes perdas, como a Espanha. O Brasil está crescendo e vamos suportar o crescimento do país a medida que as oportunidades forem sendo apresentadas.

Há muitas oportunidades no Brasil hoje…

O Brasil tem grande potencial. E nos temos pessoas capacitadas para detectar os movimentos mundiais. Entre nossos executivos temos Mohamed El-Erian, CEO da Pimco e CEO e autor do bestseller “When Markets Collide”. Ele nasceu no Egito, cresceu nos Estados Unidos, trabalhou na França, no FMI. Temos também Bill Gross, que previu a crise da Argentina mesmo antes dela acontecer. Veja como estamos preocupados em contratar os melhores colaboradores para detectar as boas oportunidades de negócios.

Construir um estádio, como fez aqui em Munique, em parceria com os clubes de futebol, ajudaria a tornar a Allianz muito conhecida no Brasil com a Copa de 2014. Afinal, o nome Allianz é novo por lá. Até 2008, os brasileiros conheciam mesmo era a marca AGF.

Esta é uma idéia única realizada aqui em Munique onde está a sede do grupo. Este é de longe o melhor estádio da Europa, mas acredite, custa muito dinheiro mantê-lo. Mas o fato de ser caro, não significa dizer que não vale a pena. Temos um grande retorno de imagem, que chega a € 3,5 milhões a € 4 milhões por ano. Sabemos que é o estádio mais fotografado do mundo e recebemos cerca de 4 milhões de visitantes por ano.

Como o Brasil pode atrair mais investimentos?

Atualmente, quando o assunto é crescimento, logo os investidores pensam em China, o motor do mundo hoje. Todo mundo gosta do Brasil, principalmente os europeus. Futebol, mulheres bonitas. Por muito tempo o Brasil ameaçou avançar, mas as frustradas tentativas não se traduziram em oportunidades de negócios. Agora mudou.Temos uma boa plataforma no país, que está crescendo a taxas anuais de 20%. Isso é impressionante. Além desta taxa, no Brasil o europeu se sente em casa, ao contrário da China, que tem vários dialetos, o que dificulta os negócios. Já na Índia, colonizada por ingleses, temos mais semelhanças no arcabouço jurídico, por exemplo. O Brasil tem recursos naturais, de pessoas. É um grande exemplo para outros países e por isso temos dado oportunidade para a companhia local se desenvolver.

A Allianz está fora de previdência, um dos segmentos que mais cresce no Brasil. Há planos de voltar a atuar neste mercado?

Saímos de previdência no passado, mas vamos voltar no momento oportuno. Já retomamos vida e compramos no início do ano a participação de 14% do capital acionário que o Itaú detinha da subsidiária brasileira. Isso demonstra a relevância do Brasil para o grupo Allianz e sinaliza o compromisso com um mercado que apresenta excelentes oportunidades de crescimento.

A estratégia do grupo também foi ser uma resseguradora admitida e não local, como optaram algumas concorrentes de peso como Munich Re, ACE, Chartis ou XL.

Sim. A Allianz não tem planos no momento de mudar esta estratégia.

A grande preocupação dos clientes brasileiros, que enfrentam um mercado recém aberto de resseguro e que estavam acostumadas com o ressegurador local com o qual tinham relacionamento até mesmo pessoal, é negociar com empresas que realmente sejam comprometidas a pagar as indenizações.

O nosso negócio é pagar indenização. Se não fosse isso, não existiríamos, pois ninguém contrataria seguro. Com a crise, todos estão mais cautelosos, pois o índice de fraude costuma crescer muito. Se pagássemos as fraudes, o preço do seguro ficaria inviável para todos. Temos grande apetite por riscos, mas também temos cautela, principalmente porque a crise trouxe riscos novos, que não estavam computados nos balanços das empresas.

Há planos de investir numa parceria com grandes canais de distribuição, como bancos?
Trabalhamos com diversos canais de distribuição, sendo os corretores os principais.

Nosso objetivo, como disse, é crescer com as parcerias e isso significa dizer que somos leais com quem nos ajudou a chegarmos no estágio que estamos hoje.

Acredita que os corretores podem perder mercado para as novas tecnologias, como a venda por celular, por exemplo?

A venda de seguros é uma negociação complexa. Muitos têm celulares, mas os smartphones, que ainda tem baixa penetração, serão cada dia mais usados como uma ferramenta para divulgar o produto seguro. Como o aumento de ofertas, o corretor se torna ainda mais prioritário para ajudar o cliente a decidir pelo produto que mais se encaixa no seu perfil.

Qual a prioridade do grupo Allianz?

Atender bem os nossos parceiros e clientes. Ontem (dia 1º de junho), recebemos uma carta da United Airlines, que começamos a atender após o fatídico 11 de setembro, de que passamos a ser o principal parceiro da empresa aérea. A escolha de deu, diz a carta, pela forma como a seguradora atende e negocia. Isso é um prioritário para nós. O nosso negócio não é emitir uma apólice. É fazer parcerias.

Sobre a Autora

Denise Bueno

Denise Bueno

Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista da revista Apólice, especializada em seguros, e também do SindSeg-SP. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalizacao entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil.

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