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E onde está o entusiamo?*

*artigo publicado na revista Apólice deste mês

Uma pesquisa feita durante um evento da KPMG em Nova York em setembro deste ano revelou um dado interessante se comparado ao Brasil. Entre os 271 executivos de seguradoras americanas pesquisados, apenas 9% colocam a indústria em uma forte posição nos próximos anos. Ou seja, um desânimo total.

Desanimo lá, entusiasmo aqui. Será mesmo? Aparentemente parece ser, mesmo com a falta de notícias de negociação de apólices. Mas temos discursos interessantes. Mais de 60 resseguradoras no primeiro ano de abertura do resseguro, executivos de bancos dizendo que o setor oferece um enorme potencial de ganho, vários projetos de infraestrutura que necessitam de apólices. Até mesmo o presidente Lula fala do potencial do crescimento de seguros. Quer até criar uma seguradora estatal.

Peraí. O governo, que tem o controle do mercado de grandes riscos através do IRB Brasil Re, liderou um monopolio por 69 anos, quer ampliar sua atuação no setor? Bem, isso só pode estar acontecendo para resolver uma situação problemática. Como a de Barack Obama. Ele quer mudar o sistema de saúde dos Estados Unidos porque o que existe hoje é inviável: caro e não atende às necessidades do consumidor e nem do governo.

Será que o mesmo está acontecendo no Brasil? As empresas privadas passaram anos lutando pela abertura do mercado de resseguro sem ter se preparado? E as resseguradoras, que tanto queriam a abertura, por que agora não ofertam capacidade?

É uma verdadeira catástrofe estar passando por este cenário. Sim, pois ter CSN sem seguro, Celesc sem seguro e Petrobras sem conseguir a cobertura necessária para proteger seu patrimônio é assustador. Se a explosão de uma fábrica de fogos em Santo André, São Paulo, é capaz de tirar vidas e deixar várias famílias sem sustento, imagine um acidente em maiores proporções.

E não são só riscos considerados “vultosos” que estão sem seguro. Corretores presentes em uma discussão sobre resseguro realizada em meados de setembro pela APTS em São Paulo informaram que até mesmo bons clientes, como médias empresas, estão sem cobertura pela falta de apetite das seguradoras, que por sua vez culpam os resseguradores. Estes repassam o problema para a crise mundial. Daí, como ninguém resolve, o governo decide intervir.

Um executivo de resseguradora, daqueles mais ferrenhos na briga pela abertura do setor, em recente conversa sobre este cenário, assumiu que acredita que o mercado de seguros brasileiro realmente não estava preparado para a abertura e que um comentário que se tornou comum é “éramos felizes com o IRB e não sabíamos”.

A minha memória rapidamente resgatou a estatização do seguro de acidente de trabalho ocorrido na década de 60. Imagine o governo resolver, em vez de abrir uma estatal, voltar a estatizar o resseguro? A única reação que tive foi dizer “Cruz credo!”, o que fez com que mudássemos de assunto.

Depois parei para refletir e fiquei com inveja dos americanos em ter um presidente decidido a resolver problemas pequenos, médios e grandes. Ele disse: “Não sou o primeiro presidente a tentar melhorar o sistema de saúde americano. Mas serei o último”.

Acredito que ele realmente conseguirá, mesmo com todo o lobby que as seguradoras têm feito no congresso americano. Ele avança na reforma com determinação em ter um sistema de saúde equilibrado. Como atua com ética, transparência e flexibilidade, aposto que sairá vencedor desta luta, que inicialmente lhe custou uma queda de ibope, já quase totalmente recuperada em menos de dois meses de atitudes coerentes e muita dedicação em esclarecer a sociedade sobre sua proposta.

Imagine se os corretores dissessem: “não sou o primeiro a tentar fazer o mercado de seguros crescer. Mas serei o último da minha geração a ver esta participação tão ínfima do setor no PIB de um país que está entre as dez maiores economias do mundo”. Ajudaria bastante.

O corretor é um agente que tem o poder de fazer a seguradora aceitar o risco e melhorar o produto. O problema é que muitos corretores não conseguem mostrar para as se/resseguradoras se o cliente é bom ou ruim em razão da falta de levantamento de dados.

Na dúvida, a desculpa da falta de capital gerada pela crise serve como escudo para a ineficiência. Se o risco é ruim, o segurado deve ser orientado sobre o que deve ser feito para mitigá-lo.

Em massificados, os corretores também têm grande poder de ajudar a mudar o setor, que ainda vende seguro de roubo para armário embutido, contou o promotor da Cidadania e do Consumidor de Jacareí (SP), José Luiz Bednarski, em sua palestra no seminário de Ética e Transparência realizado em setembro, em São Paulo. Podem exigir das seguradoras mudanças nos produtos “defeituosos” e mostrar ao consumidor a importância de ter sua vida e patrimônios protegidos.

E se levarmos em conta o atual momento, o corretor é a bola da vez. Roberto Setubal, do Itaú Unibanco, e Aldemir Bendine, presidente do Banco do Brasil, disseram que o corretor é um importante canal de vendas. Jayme Garfinkel, Patrick Larragoiti, Acácio Queiroz, Antonio Cássio dos Santos, Luis Maurette, Max Thiermam também afirmam isto há tempos. Ainda mais agora diante de tanta competição.

Sendo assim, este é um momento ideal de conseguir boas negociações para os consumidores e evitar que eles fiquem insatisfeitos e o governo tenha de intervir. E podem usar outra frase de impacto, como a dita por Trabuco durante entrevista ao jornal Valor Econômico se alguém vier com aquele papo de que você é pequeno ou só vende automóvel: “A gente tem que respeitar as diferenças. E olha, cá entre nós, respeitar as diferenças é um negócio ultramoderno! É a tal da diversidade”.

Para manter o entusiasmo verdadeiro — não só da boca para fora — de todos com a indústria de seguros brasileira é preciso investir em atitudes sustentáveis: respeito por si mesmo, pelo próximo e pelo planeta.

Sobre a Autora

Denise Bueno

Denise Bueno

Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista da revista Apólice, especializada em seguros, e também do SindSeg-SP. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalizacao entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil.

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