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Copa e Olimpíada vão render gordos contratos*

*Matéria feita com exclusividade para o especial de Seguros do Jornal Valor Econômico, que circulou no dia 19 de outubro, Dia dos Securitários

Copa 2014. Olimpíada 2016. Bilhões em investimentos potenciais. Investidores em busca de proteção para os riscos inerentes aos contratos milionários. É um cenário apetitoso. Mas como todo setor que vive de lucros, as seguradoras apostam onde têm quase certeza de que sairão vencedoras. E isso vale desde as apólices que custam alguns reais como para o seguro incluído no ingresso para garantir despesas médicas hospitalares em caso de acidentes dentro do estádio. Ou mesmo planos que custam alguns milhões para garantir desde o projeto até a operação do trem bala no trajeto Rio de Janeiro a São Paulo, orçado em mais de R$ 20 bilhões.

A Fifa, por exemplo, um dos principais clientes das seguradoras no mundo, negociou coberturas para proteger-se de eventuais prejuízos com o investimento na Copa da África do Sul durante meses. As seguradoras só aceitaram fazer o seguro depois de realmente comprovado que o país conseguiria fazer as reformas necessárias para o mundial dentro do cronograma estabelecido. Mesmo assim, o contrato tem coberturas limitadas, exclusões e custou caro. O prejuízo gerado pela greve dos funcionários do setor de construção civil em agosto, por exemplo, consta das exclusões previstas.

“Ter os Jogos Olímpicos, com investimentos previstos na casa dos R$ 90 bilhões, e que certamente precisarão de seguros, é uma notícia e tanto para as seguradoras”, comemora Patrick Larragoiti, presidente da SulAmérica. Além de se preparar para conquistar os grandes contratos, a seguradora está desenvolvendo novos produtos e serviços. “Estamos criando coberturas interessantes para os estrangeiros que virão para o Brasil, como assistência 24 horas”, acrescenta.

A Bradesco também já começou a investir em produtos. Segundo Carlos Eduardo Corrêa do Lago, diretor gerente da Bradesco Auto/RE, o grupo criou um comitê responsável por estudar a experiência de outros países com a realização de mundiais e já prepara produtos específicos para as necessidades dos participantes.

Assim como as seguradoras já começaram a desenvolver produtos, os segurados devem pensar o quanto antes no assunto. A primeira dica dos corretores de seguros acostumados com a cobertura de grandes eventos é antecedência. Para a realização da última Olimpíada, realizada no ano passado na China, a seguradora PICC Property and Casuality Company Limited (PICC P&C), a maior seguradora estatal de ramos elementares do país sede, fechou o primeiro acordo em 2005. Ou seja, três anos antes da abertura oficial do evento.

O comitê organizador da Olimpíada em Londres, em 2012, por exemplo, contratou a corretora inglesa JLT em 2006 para mapear os riscos envolvidos na realização do mundial. “A indústria de seguros é uma importante peça dentro de eventos dessa grandeza, uma vez que ajuda a prever riscos e sugere formas de mitigá-los.

A antecedência é a senha para obter preços melhores, assim como as franquias devem ser vistas com muita atenção, pois são uma ferramenta importante para se compatibilizar necessidades de coberturas com os orçamentos disponíveis”, diz Marcio Correia, da Miller Insurance, corretora responsável pela colocação do seguro dos Jogos Panamericanos realizados no Brasil em 2007.

O segundo conselho é fazer um raio X dos riscos envolvidos nos investimentos. “Fazer o mapeamento possibilita mitigar e gerenciar os riscos e assim saber decidir o que é mais vantajoso assumir, ter garantias ou transferir para as seguradoras”, diz Fernando Pereira, vice-presidente da Aon Risk Services, uma das maiores corretoras de seguros do mundo.

Há muitos riscos envolvidos nos grandes contratos, principalmente nos de infraestrutura. “Temos de levantar prejuízos que podem ser causados pela realização do evento, desde a parte ambiental, o relacionamento com o público, o nível de contrato que terá com prestador de serviço”, cita Marcelo Elias, diretor da Marsh McLenann, que disputa com a Aon cada milímetro do mercado mundial de corretagem e consultoria em seguros. A partir dessa etapa é que o investidor fará uma concorrência para contratar uma seguradora para fazer a administração e gestão do programa de seguros.

Geralmente o valor investido em seguros em grandes contratos gira em torno de 0,5% e 1% do valor da importância segurada. Essa é uma mera média do mercado, pois contratos como esses são feitos sob medida e não existe um igual ao outro. Tudo dependerá do risco, da disposição e do capital dos resseguradores em assumir riscos.

Estudos prévios usados por gestores públicos e privados, ligados aos eventos, apontam para valores entre RS$ 60 bilhões e R$ 110 bilhões, especialmente na área de infraestrutura, sem considerar gastos na construção e modernização de estádios para a Copa 2014 e outros R$ 30 bilhões para a Olimpíada no Rio de Janeiro.

Além desses investimentos, a Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib) avalia investimentos em nove áreas: mobilidade urbana, como investimentos em metrôs, corredores de ônibus e estacionamentos, portos, aeroportos, telecomunicações, energia, saneamento básico, rede hospitalar, rede hoteleira e segurança. Como nenhum aeroporto do país está pronto para receber os 500 mil turistas esperados para o evento, segundo cálculos do Ministério do Turismo, há necessidade de uma participação maciça da iniciativa privada na ampliação de terminais e construção de novos aeroportos.

Como o Brasil vai virar um canteiro de obras, as primeiras apólices a serem cotadas são as que dão garantia que os contratos serão cumpridos e também as de risco de engenharia, assegurando prejuízos causados durante a execução das obras. Alexandre Malucelli, vice-presidente da seguradora JMalucelli, líder do mercado de seguro garantia, diz que os Jogos Olímpicos terão, isoladamente, condições de ampliar em 70% o volume de receitas geradas por apólices desse tipo.

“Uma realização como a Copa do Mundo provoca impactos em toda a comunidade onde é sediada, com reflexos de curto, médio e longo prazos”, diz Virgil de Souza, diretor da área de garantia da Liberty International Underwriters (LIU), divisão de grandes riscos do grupo Liberty Mutual, empresa que participa da Olimpíada de Londres 2012.

Além dos seguros envolvidos nos contratos privados, há várias apólices de seguros que são exigidas pelos organizadores. Entre as principais coberturas estão as de responsabilidade civil para indenizar terceiros prejudicados com a realização do evento, seja por produtos, profissionais tercerizados ou funcionários, montagem e desmontagem de estruturas e equipamentos. Estão cobertos riscos por contaminação de alimentos, direitos autorais, segurança e serviços médicos, bem como cobertura de acidentes pessoais para os atletas previstos na participação do evento.

Uma apólice importante é a da não realização do evento, conhecida como “no show”. Se os espectadores de algum dos jogos, por exemplo, ficarem impossibilitados de chegar ao local ou os jogadores ficarem impedidos de jogar, os custos da promotora com a devolução do valor do ingresso ou de agendamento de uma nova data, corre por conta do seguro.

Sobre a Autora

Denise Bueno

Denise Bueno

Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista da revista Apólice, especializada em seguros, e também do SindSeg-SP. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalizacao entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil.

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