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Excesso de regulamentação ameaça seguro*

images10Ajudar a indústria mundial de seguros em seus desafios tem sido o dia a dia da Geneva Association há mais de 30 anos. Formada por 80 dos principais CEOs de seguradoras, a única organização mundial do setor sem fins lucrativos funciona como um fórum de debate de temas internacionais. Atualmente, a crise financeira e seus impactos tem sido o principal assunto entre os membros do comitê.

“As seguradoras foram bem menos afetadas pela crise do que os bancos. E muitas oportunidades surgem para a indústria, pois a necessidade de proteção ficou mais aguçada com a crise”, diz Patrick Liedtke (foto), presidente da associação, sediada em Geneva, Suíça. Em relação ao Brasil, o executivo expressa otimismo. “A crise e a abertura do resseguro ressaltaram o potencial da indústria de seguros brasileira, que tem bons desafios daqui para frente.”

Apoiando-se na força da indústria de seguros ser responsável por 11% do total do PIB mundial, com prêmios anuais que ultrapassam US$ 4 trilhões, a associação entregou uma carta ao grupo que compõe as 20 maiores economias do mundo, G-20, solicitando prudência na nova regulamentação dos mercados financeiros. “O excesso de regulação é uma ameaça real para a indústria de seguros”.

Depois de participar do 4º Seminário LatinoAmericano de Seguros y Reaseguros, em Buenos Aires, Patrick Liedtke veio visitar o Rio de Janeiro, cidade que sediará a reunião anual realizada pela Geneva Association, e também a CNSeg, onde concedeu entrevista à Revista de Seguros sobre os impactos trazidos pela crise financeira global para a indústria de seguros, bem como sobre as oportunidades que as companhias podem tirar deste tsunami financeiro que atingiu todas as nações. Veja a seguir os principais trechos da entrevista.

Na sua opinião, como a crise afetou as seguradoras?
A indústria de seguros tem sido bem menos afetada nesta destruição de ativos gerada pela grave crise financeira. Como os maiores investidores institucionais do mundo, as seguradoras e resseguradoras naturalmente registram perdas. No entanto, elas não ameaçam a solvência da indústria, embora alguns seguradores de vida, especialmente nos Estados Unidos, estejam sobre forte pressão, com algumas recorrendo ao programa de ajuda dos governos. A crise de crédito não trouxe dúvidas sobre o modelo de negócios básico da indústria, ao contrário do que aconteceu com o setor bancário. A imagem do seguro permaneceu inalterada, uma vez que o setor continuou honrando todos os contratos envolvidos para pagamento de indenizações.

Quais oportunidades a crise trouxe para a indústria de seguros?
A crise financeira terminará e então teremos uma série de oportunidades para a indústria de seguros. Entre elas, posso citar a conscientização da população sobre a importância do seguro e do gerenciamento de risco como proteção. Acredito que os clientes valorizarão as estratégias de investimento mais conservadoras, o modelo de negócios mais consistente e sustentável, bem como as garantias ofertadas nos negócios envolvendo seguros em comparação com o que outras instituições financeiras têm a oferecer.

O Brasil tem tido oportunidades – já atrai 80 grupos estrangeiros — por ter sido menos afetado pela crise e também pela abertura do resseguro. Como o senhor vê o Brasil antes e depois da abertura do resseguro?
Depois de tantos anos de discussões e preparo para a abertura do mercado a sensação é de alívio e orgulho. O mercado está em um processo para se tornar mais dinâmico. A presença das mais importantes companhias de resseguro internacionais facilitará a transferência de tecnologia e expertise, enriquecendo os contratos brasileiros. A abertura também torna o Brasil mais próximo do mercado mundial, o que ajuda a tornar a economia mais sustentável no futuro. As seguradoras e resseguradoras estão muito preocupadas com o excesso de regulamentação que pode ser criado em razão da crise.

Como a associação pode ajudar o mercado?
A Geneva Association tem conduzido muitos debates globais sobre as questões de supervisão e regulamentação da indústria de seguros há anos. Faz parte da nossa rotina estar em contato com todas as organizações internacionais e temos uma parceria com a Associação Internacional de Supervisores de Seguro (IAIS, na sigla em inglês), tanto na troca de informações como na organização de eventos para debater o assunto. Buscamos com isso criar uma melhor compreensão de todos os envolvidos sobre a forma de atuação do setor e suas peculiaridades. Este tem sido um canal importante de comunicação e conseqüentemente um facilitador na criação de soluções eficientes, justas e sustentáveis. Ao mesmo tempo, a Associação tem feito esforços para promover conferências e lançar publicações para compartilhar experiências e assim contribuir para o desenvolvimento dos grupos econômicos.

O que a Associação espera das regras de Solvência II?
A solvência II foi um passo importante da indústria. Não só na Europa, mas também em muitos outros países por ter um caráter abrangente de reforma e internacionalização das práticas contábeis e de gestão das seguradoras. Este último ponto é muito importante, pois obrigará os concorrentes a implementarem sistemas de gestão dos riscos de elevado nível, contribuindo para aprimorar a transparência das operações do setor. É uma pena que nem todas as sugestões tenham sido aceitas na diretiva final e isso exigirá um esforço maior de todos, particularmente em mecanismos de diversificação de riscos. Ao final, no entanto, só se pode cumprimentar a União Européia no esforço de buscar soluções num período tão conturbado e que poderá ajudar a reduzir futuras crises. Politicamente foi um trabalho difícil. Esperamos que outros países sigam na implementação das normas nos próximos anos.

Como o senhor vê as novas regras para as agências de classificação de risco na Europa?
Não acredito que temos um quadro claro ainda de como as agências de classificação de risco funcionarão neste período ainda de crise e o que exatamente acontecerá no período pós-crise. Há ainda espaço para muitas discussões sobre a atuação das agências no futuro e como poderão conduzir o trabalho de análise das empresas. As agências são uma peça fundamental para o funcionamento de mercados financeiros e será extremamente importante conduzir a reforma deste mercado com muito cuidado. O que estamos vendo atualmente é só uma parte das soluções que surgirão nos próximos meses. Ou talvez anos.

As mudanças climáticas podem trazer sérios impactos na solvência das seguradoras e resseguradoras. O que a associação tem feito para auxiliar as empresas a este respeito?
A Geneva Association criou um grupo de trabalho especial para mudanças climáticas, que reúne os mais experientes profissionais do mundo no assunto. Em julho, o grupo emitirá um relatório sobre como a indústria é afetada e quais ameaças e oportunidades existem para as seguradoras em termos de negócios. O grupo também mostrará o que a indústria de seguro pode fazer para não ser tão afetada pelas mudanças climáticas em termos financeiros e como pode ajudar governos e empresas a reduzir as perdas com as catástrofes naturais. Temos buscado formas de ampliar o conhecimento da indústria sobre este tema e assim criar um elo entre as partes interessadas, como governos, políticos e empresários, estimulando um comportamento mais sustentável de todos. Em outubro deste ano organizaremos uma conferência na Colômbia, país que sofre com as catástrofes, para discutir estas questões.

O National Association of Insurance Commissioners (NAIC), órgão regulador dos Estados Unidos, tornou obrigatório que as companhias de seguro informem os riscos financeiros a que estão expostas diante das mudanças climáticas. O senhor acha que esta atitude poderá ser seguida por outros países?
É uma tentativa interessante de fazer as companhias a olharem com mais atenção aos assuntos relacionados à mudança climática. É especialmente notável que isto aconteceu nos Estados Unidos, onde as questões ligadas ao clima não receberam muita atenção e muito menos apoio nas ações tidas por outros países, especialmente a Europa. O problema – pelo menos nesta etapa – é que o conhecimento dos riscos financeiros atrelados a mudanças climáticas não são tão simples. Onde começa e onde termina o impacto das mudanças climáticas? Somente o futuro nos dirá quais serão as melhores iniciativas.

Qual o cenário que o senhor traçaria para a indústria de seguros e de resseguros?
No curto prazo, tudo vai depender do desenrolar da crise financeira. A atividade de seguro e de resseguro são ligadas com o desenvolvimento da economia. Uma recessão longa e profunda irá corroer os lucros e as perspectivas de negócios. Contudo, no médio e longo prazo, e especialmente em países emergentes, tais como o Brasil, há enorme potencial para o setor. As soluções de seguro são necessárias e as pessoas estão conscientizando-se da importância de proteger suas famílias, propriedade e as suas empresas de perdas financeiras. Ao mesmo tempo, os políticos estão descobrindo que a indústria de seguros pode ser um parceiro muito valioso para identificar riscos, criar soluções e garantir a sustentabilidade dos negócios.

O que o senhor acredita que mudará nos negócios de seguros após esta crise?
O modelo de negócios básico não sofrerá modificações, pois o setor se mostrou sólido e resistente dentro do conceito praticado. No entanto, os seguradores precisarão ser mais pró-ativos para buscar as oportunidades trazidas com um novo ritmo de crescimento, clientes melhor informados, um ambiente mais suscetível ao risco, novas normas e regulamentação, uma exposição internacional maior entre outros desafios que exigem uma atenção redobrada dos executivos. Os seguradores também terão que empreender um esforço maior na divulgação do papel da indústria, principalmente aos políticos, sobre quais as soluções de seguro que podem ser ofertadas e as que não estão no escopo dos negócios das seguradoras. Especificamente no Brasil, o setor terá de se tornar uma parte mais integrada do mundo de seguro global, participando mais ativamente em discussões internacionais sobre a política econômica brasileira.

*Matéria produzida com exclusividade para a Revista de Seguros, da CNSeg, edição abril, maio e junho de 2009

Sobre a Autora

Denise Bueno

Denise Bueno

Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista da revista Apólice, especializada em seguros, e também do SindSeg-SP. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalizacao entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil.

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