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Fôlego jovem*

images3Garantir a educação dos filhos está no topo da lista de preocupações de pais e avós quando o assunto é o futuro. “Fiz um plano de previdência para Gabriela e Luiz Gustavo logo que nasceram”, conta o atleta e empresário que acaba de lançar o livro para crianças “Tchibum!”, Gustavo Borges.
O nadador recordista em medalhas das Copas do Mundo (31, ao todo) e a esposa Bárbara (foto) esperam poder pagar a faculdade das crianças sem mexer no fundo, deixando a poupança para ser usada como um presente de formatura. “Mas, como o futuro é imprevisível, optamos por garanti-lo agora”, diz.

Assim também desejam os pais dos gêmeos Rafael e Daniela. O susto foi tão grande com a gravidez de gêmeos que até o plano de previdência veio em dose dupla. “Quando fui contar para meu sogro que tinha começado a poupança para garantir a educação das crianças, ele me disse que também havia adquirido o mesmo produto financeiro para elas”, conta Alexandre Pereira dos Santos. A mãe, Renata Húngaro, agradece, pois qualquer iniciativa para assegurar a educação dos filhos é preciosa, ainda mais num cenário profissional tão competitivo como o atual.

Motivado pela maior consciência dos pais em garantir uma educação diferenciada aos filhos, o segmento de previdência infantil cresce em média mais de 50% ao ano, passando de R$ 833 milhões em 2005 para R$ 2,9 bilhões em 2008. Já os planos voltados para aposentadoria registraram evolução média de 18% no mesmo período, encerrando 2008 com contribuições de R$ 31,8 bilhões e reservas superiores a R$ 140 bilhões.

“Hoje, de cada R$ 1 milhão destinados a planos de previdência, quase R$ 100 mil são investidos em planos para menores. Há 4 anos, eram R$ 40 mil”, compara Lúcio Flávio Conduru de Oliveira, diretor geral responsável pela Bradesco Vida e Previdência, dona de 63,7%, ou seja, mais da metade de toda a receita de planos para menores arrecadada no ano passado.

Uma das explicações para o interesse é que os pais despertaram para a necessidade de poupar. “A educação não se restringe a escola. É fundamental que ela seja dada em casa. E mexer com dinheiro é um dos pontos mais importantes da educação de uma criança”, diz Willian Eid, especialista em finanças pessoais da Faculdade Getúlio Vargas e autor de diversos livros.

A primeira lição que os pais podem dar aos filhos é a da disciplina. Uma recente pesquisa da Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (Fenaprevi) mostrou que as pessoas tendem a poupar mais em momentos de crise. Por isso, o setor de previdência privada tende a sofrer impacto menor que outros setores com a desaceleração da economia e a evolução do desemprego. As estatísticas mostram que em momentos de dificuldades os saques ou suspensão dos depósitos ficam dentro da média nos planos de aposentadoria mas são raros nos planos infantis. “Se o pai precisa de recursos, busca em outras aplicações para evitar mexer na poupança do filho”, afirma Luis Martinez, gerente de produtos de previdência Icatu Hartford.

Outro ponto positivo para o setor é a intenção do governo em mudar o cálculo da rentabilidade da caderneta de poupança. “Sempre é o momento certo de pensar no futuro. As pessoas vão refletir sobre suas aplicações e perceberão as vantagens tributárias da previdência como uma aplicação de longo prazo”, diz Tarcísio Godoy, presidente da Brasilprev e diretor da Fenaprevi. Com tais justificativas, a estimativa da entidade é de contribuições de R$ 35 bilhões em planos de previdência em 2009, mantendo a expansão de 13% registrada em 2008, com o jovem vitalizando a demanda.

Para quem acha que a educação é o melhor investimento que se pode fazer para os filhos é bom pesquisar bem antes de contratar um plano. E mesmo aqueles que já o têm, como Gustavo Borges, precisam ficar atentos às novidades lançadas pelas empresas. “Será que estou pagando taxas muito elevadas por ter um plano antigo?”, questiona Borges ao parar para pensar no assunto.

É bom investigar, recomendam os analistas, pois a competição entre as empresas está acirrada. De um lado, grandes grupos beneficiados pela solidez diante da crise. Por outro, empresas independentes, com estrutura mais enxuta e que buscam atrair o consumidor com gestores diferenciados, isenção de taxa de carregamento, rentabilidade acima da média e serviços.

Antes de tomar qualquer decisão, é preciso ter em mente o objetivo para aproveitar o benefício fiscal que os produtos de previdência oferecem. “O Brasil tem os melhores incentivos fiscais do mundo. É preciso entendê-los. Quem souber usar, otimizará os ganhos no longo prazo”, afirma Osvaldo do Nascimento, diretor de produtos de previdência do Itaú Unibanco, que conta com mais de 250 mil planos para jovens em carteira.

O PGBL é indicado para quem faz a declaração completa do Imposto de Renda. Ele permite o abatimento de até 12% da renda bruta. Já o VGBL tem o ganho tributado no saque. É possível optar por duas tabelas de IR. A regressiva tem tributação de 35% de IR sobre os rendimentos no primeiro ano e cai para 10% no décimo ano, alíquota menor do que a aplicada em fundos de investimentos, de 15%. Já a tabela progressiva é mais indicada para quem vai compensar a alíquota de até 27,5% sobre os rendimentos na declaração anual de IR. “São vantagens importantes e que ficaram ainda mais competitivas com a tabela regressiva de Imposto de Renda”, diz Juvêncio Braga, diretor da Caixa Seguros.

O plano de previdência, ao contrário de outros produtos financeiros, traz a possibilidade do titular de agregar um seguro de risco, por um custo próximo a 2% do aporte mensal. “Em caso da morte ou invalidez do titular, o filho receberá o valor total previsto pelo participante”, explica Edson Franco, diretor de produtos de previdência do grupo Santander, onde o plano infantil representa 5% da base total de clientes de previdência, com reservas de R$ 47 milhões.

Este foi o diferencial que atraiu o casal de médicos Vera Lúcia Tavares Nakamura e Marcelino Yoshikazu. “Além dos benefícios fiscais, poder agregar um seguro de vida que complete o valor que estimamos que será necessário para nosso filho cursar o ensino médio no exterior foi decisivo para a nossa opção de poupança”, conta a endocrinologista Vera Lúcia. “E é melhor poupar desde já, pois estou com 46 anos. Daqui a dez, quando ele for para a universidade, terei 56 anos e a disposição para fazer plantões e ter uma renda extra diminui muito.”

Quanto mais cedo se começa a poupar, maior será o efeito no longo prazo. O fim da inflação trouxe mais transparência aos ganhos das aplicações financeiras, facilitando a comparação entre fundos. “E a portabilidade existe não só para celular e plano de saúde. Ela também existe para a previdência. Quem não estiver satisfeito com rentabilidade ou com os serviços prestados pode mudar, sem qualquer custo”, diz Bento Zanzini, vice-presidente responsável por vida e previdência na Mapfre Seguros, que viu sua carteira crescer no primeiro trimestre deste ano, principalmente pela portabilidade.

Mais recentemente, com a queda da taxa básica de juro, a Selic, o investidor passou a ter mais clareza ainda do efeito multiplicador dos juros. Um cálculo tradicional dos consultores financeiros mostra que um rendimento de 1% ao mês durante dez anos significa 230% no final do período em razão dos juros compostos, ou seja, juros sobre juros.

Segundo cálculos de Edson Lara, diretor de varejo do HSBC Seguros, quem comprar um plano para o filho assim que nascer e projetar uma renda de R$ 60 mil aos 18 anos – valor estimado do custo de uma universidade -, terá de fazer aportes mensais de R$ 130. Se começar esta poupança quando o filho tiver dez anos, terá apenas oito anos para compor os R$ 60 mil e precisará contribuir mensalmente com R$ 480, considerando-se rentabilidade anual de 6%.

Por isso, é bom ficar de olho nas taxas cobradas pelas empresas, pois meio ponto percentual faz uma grande diferença no longo prazo. A taxa de administração é cobrada anualmente sobre o patrimônio e a de carregamento é aplicada sobre os aportes. A concorrência tem feito com que várias empresas isentem os clientes com aportes elevados da taxa de carregamento. A taxa de administração, que há pouco tempo superava 4%, pode ser encontrada por menos de 1% ao ano.

Novos benefícios fiscais para tornar o produto ainda mais atrativo são negociados com o governo. A Fenaprevi tenta convencer o governo de que dar incentivos para educação e saúde desonera o governo, a medida empurra as pessoas para a iniciativa privada. “Estimular a poupança de longo prazo é um benefício enorme para as pessoas e também para o governo”, diz Renato Russo, vice-presidente da SulAmérica e da Fenaprevi.

Além disso, o estímulo amenizaria os impactos diretos na previdência oficial no longo prazo. O tema “custo da educação” tem tido o poder de mudar o futuro de um país. Ele tem sido muitas vezes um fator decisório no planejamento familiar. Já se tornou rotina escutar a célebre frase “se não fosse tão caro educar, teria outro” de mães de filho único. E o efeito de baixa natalidade pode ser devastador para um país. Afinal, quem alimentará a receita da previdência oficial para pagar os benefícios dos idosos de amanhã?

Sobre a Autora

Denise Bueno

Denise Bueno

Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista da revista Apólice, especializada em seguros, e também do SindSeg-SP. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalizacao entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil.

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