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Crescimento menor, mas sem recessão

A grande maioria das seguradoras passou o mês de outubro refazendo orçamentos de 2009. Uma pena ter de revisar para baixo as projeções de crescimento de vendas, de lucratividade, de contratação de funcionários e de investimentos. Porém, é uma situação melhor do que países da Europa e dos Estados Unidos têm enfrentado. Enquanto lá eles vislumbram recessão, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil deverá sair dos 5% previstos para 2008 para 3,5% no próximo. O governo fala em 4%, mas analistas projetam algo entre 2,6% e 3,5%.

“É uma situação privilegiada. O País cresceu 3,5% em 2006, melhor ano da indústria de seguros”, defendeu Antonio Cássio dos Santos, presidente da Mapfre. Santos ilustrou a diferença entre o Brasil e os países do hemisfério norte. “Nós vivemos a falta de liquidez do Plano Collor. Soubemos nos virar nas mais de treze crises que tenho lembrança. Eles não. A última crise que esses países viveram foi a Segunda Guerra Mundial”, acrescentou. Além disso, o Brasil tem hoje uma economia mais forte do que quando estouraram as outras crises.

Faz sentido. O governo dos Estados Unidos gastou US$ 4 trilhões até meados de outubro deste ano com medidas para mitigar os efeitos da crise financeira iniciada com as hipotecas de alto risco (subprime) em junho de 2007. Apesar da ajuda, várias instituições faliram. Se não fosse uma injeção de US$ 85 bilhões do Federal Reserve (FED), o banco central dos EUA, a maior seguradora do mundo, a AIG, teria ido a bancarrota. E mesmo assim os mais otimistas prevêem recessão para o país no próximo ano. E a gigante, com US$ 1 trilhão de ativos, sucumbiu por uma divisão de crédito hipotecário que movimentava prêmios próximos a US$ 2 bilhões. Nada comparado ao faturamento de US$ 110 bilhões em 2007.

No Brasil, as medidas são pontuais e ainda não se tem notícia de qualquer falência de instituições financeiras. O Banco Central do Brasil (BC) tomou medidas pontuais para mitigar o risco de contágio de crise internacional. Boa parte das medidas visou trazer liquidez. Entre elas o afrouxamento das exigências de depósitos compulsórios a partir de 24 de setembro. Além da liquidez, o BC permitiu que bancos pudessem adquirir carteiras de crédito de bancos de pequeno e médio portes que se viram em dificuldades com a escassez de recursos no mercado internacional. E depois autorizou bancos oficiais, como Caixa e Banco do Brasil a comprar bancos. Também gastou US$ 23 bilhões em leílões cambiais para segurar a valorização do dólar frente ao real até o dia 20 de outubro.

Uma situação interessante no Brasil é a postura das empresas que amargaram perdas. Algumas já mostram interesse em processar bancos por entender que foram mal assessoradas pelos executivos financeiros, como a Sadia, por exemplo, que registrou perdas superiores a R$ 760 milhões com operações financeiras com câmbio. Temos também investidores mais pobres com a queda das bolsas. E por enquanto só. O nível de desemprego se mantém, o presidente Lula garante que os investimentos, principalmente do Programa de Aceleração dos Investimentos (PAC) vão continuar e o crédito logo deverá se estabilizar com as medidas adotadas pelo BC.

Nada perto do que passa os EUA. O preço dos imóveis não pára de cair. A insegurança faz com que consumidores, empresas e bancos sejam extremamente cautelosos, o que tira a liquidez do mercado e ajuda a afundar a economia. Todos aguardam para comprar um carro novo, para planejar uma viagem de férias, para pedir um empréstimo, ou para aprovar uma nova contratação. O índice de confiança do consumidor americano caiu para 57,5 pontos em setembro. Trata-se da maior queda de confiança já vista desde que o índice começou a ser apurado, em 1978.

Imagina quem irá pensar em comprar seguro. Com certeza aqueles mais propensos a receber uma indenização. E qual será a estratégia adotada para vender seguro nesta realidade? A redução das vendas da indústria de seguros será inevitável. Junto com a queda do faturamento, as companhias registram perdas com os ativos financeiros e o índice de sinistralidade começa a se elevar com os pedidos de indenizações das catástrofes naturais e também da crise, principalmente as carteiras de crédito, de responsabilidade civil de executivos e de erros e omissões de executivos. Um cenário propício para aumento de preço de resseguro.

Sem contar na preocupação com os planos de aposentadoria. Uma pesquisa da AARP, uma organização que defende os interesses de pessoas com mais de 50 anos nos EUA, informou que um em cada cinco trabalhadores nesse faixa já deixou de contribuir com seu plano de aposentadoria privada, devido à dificuldade de pagar gastos básicos, como alimentação e moradia. A perda financeira trazida com a crise poderá reduzir a expectativa do patrimônio estimado e com isso os trabalhadores poderão ser forçados a se aposentar mais tarde ou receber benefício menor do que o esperado. Além disso, com a insegurança generalizada de quebras de empresas ou de perdas ainda maiores, muitos investidores estão sacando de suas contas antecipadamente.

Por acreditarem que este cenário internacional trará reflexos no Brasil pela redução do consumo e do crédito, executivos estão revendo o orçamento de 2009. Eles não esperam nada de tão grave, desde que o noticiário internacional sobre falências continue sem trazer resseguradoras ou seguradoras de porte em suas manchetes. E ninguém está imune. Segundo avaliou o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, a atual crise financeira global demonstra a falência dos sistemas regulatórios das economias avançadas, incapazes de fixar regras para o gerenciamento de risco das maiores instituições financeiras privadas e de estabelecer mecanismos para disciplinar o mercado. Diante disto, é importante redobrar a atenção na escolha dos parceiros e usar o primeiro semestre do ano para adequar estruturas e deixar a empresa pronta para a retomada do crescimento da economia a partir do segundo semestre.

Artigo publicado na Revista Apólice – dezembro/2008

Sobre a Autora

Denise Bueno

Denise Bueno

Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista da revista Apólice, especializada em seguros, e também do SindSeg-SP. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalizacao entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil.

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