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Os impactos do subprime*

42-21522248As perdas geradas pela crise nos mercados mundiais de crédito devem superar US$ 600 bilhões, sendo a maior parte do prejuízo dos bancos e das seguradoras, segundo estudo divulgado no final de fevereiro pelo banco suíço UBS. Juntas, as principais seguradoras do setor garantem dívidas estimadas em US$ 2,4 trilhões.

É muito dinheiro. Tanto que o presidente do Federal Reserve, banco central dos Estados Unidos, Ben Bernanke, fez um alerta de que alguns pequenos bancos dos país podem falir. Apesar disso, ele garante que o sistema bancário dos EUA continua sólido.

Essa crise não vai parar por aí. Aliado ao prejuízo com pagamentos de indenizações, as seguradoras registram também perdas na carteira de investimentos em razão da baixa das ações de grupos atingidos pela inadimplência do crédito hipotecário de alto risco (subprime). Muitas seguradoras estão tendo de dar baixa contábil no valor dos títulos conhecidos como credit-default swaps, que garantem o investidor contra a inadimplência da empresa tomadora. Algo parecido com o nosso garantia de crédito interno.

O American International Group Inc. (AIG), a maior seguradora mundial em termos de ativos, afastou o executivo Joseph Cassano, que comandava a divisão de produtos financeiros, depois dos US$ 15 bilhões em prejuízos no último trimestre de 2007 sobre garantias vendidas a investidores em títulos de renda fixa. Trata-se do maior prejuízo trimestral já contabilizado em seus 89 anos de história. E não foi apenas a AIG que perdeu. Swiss Re, XL Re, e muitas outras, além das maiores seguradoras de crédito dos Estados Unidos, conhecidas como monolines: MBIA e Ambac Financial Group.

A Fitch, agência classificadora de rating, mostra que o subprime é uma grande bola de neve. As empresas de hipoteca têm dificuldades para financiar as operações, há uma queda acelerada no preço das moradias, o que, por sua vez, dificulta o refinanciamento das dívidas e o uso da casa como garantia para empréstimo. Com isso, as companhias estão ameaçadas de perder os ratings AAA por causa de prejuízos com papéis atrelados às hipotecas de alto risco.

Se isso ocorrer, novo efeito cascata. Uma queda no rating das seguradoras reduz imediatamente o valor dos papéis que garantem. Além disso, alguns investidores só podem possuir ativos em suas carteiras que tenham o selo AAA. Com o rebaixamento do rating, são obrigados a fazer provisões para perdas, reduzindo seus lucros. Por isso até o megainvestidor Warren Buffett se propôs a ajudar, ofertando US$ 800 bilhões para garantir títulos emitidos por municípios, onde o risco de não pagamento é bem menor do que de uma empresa privada.

E o que nós temos a ver com tudo isso? O impacto no Brasil deverá ser restrito. Algumas empresas brasileiras que contam com seguro dessas seguradoras podem ter de substituir a garantia ou fazer provisionamento para perdas caso a seguradora contratada tenha o rating rebaixado. Investimentos de seguradoras estrangeiras previstos aqui podem ser suspensos até que se saiba qual a verdadeira extensão da crise subprime.

E o pior para todos. A alta do preço de alguns dos seguros que mais cresce nos últimos anos: responsabilidade civil de executivos. Os corretores de apólices de responsabilidade civil receberão pedidos de indenização de diretores e executivos com relação à crise, mas poderão pagar quase sem dificuldade, disse Christian Schmidt, economista sênior da Swiss Re, em evento realizado em Luxemburgo entre 20 e 21 de fevereiro. “Prejuízos ocorrerão, mas o céu não está caindo para o lado dos diretores”.

O executivo acredita que a capacidade de capital possivelmente se tornará mais dispendiosa para as seguradoras, porém deverá permanecer abundante.
O cenário para as seguradoras de crédito, que garantem pagamentos do principal e dos juros sobre os créditos podres, não está tão claro. Seus prejuízos são extremamente pesados e os órgãos reguladores dos EUA tentam analisar como manter as seguradoras saudáveis o suficiente para que possam pagar as indenizações. “O valor dessa parte do setor de seguros recai na reputação, e as seguradoras perderam parte dela”, disse Schmidt. “Portanto precisam ampliar seu gerenciamento de risco para recuperar a confiança do investidor”.

Que esta crise, ou qualquer outra que possa abalar a credibilidade do setor, continue bem longe daqui.

* Articulista da revista Apólice

Sobre a Autora

Denise Bueno

Denise Bueno

Denise Bueno sempre atuou na área de jornalismo econômico. Desde agosto de 2008 atua como jornalista freelancer, escrevendo matérias sobre finanças para cadernos especiais produzidos pelo jornal Valor Econômico, bem como para revistas como Época, Veja, Você S/A, Valor Financeiro, Fiesp, ACSP, Revista de Seguros (CNSeg) entre outras publicações. É colunista da revista Apólice, especializada em seguros, e também do SindSeg-SP. Escreveu artigos diariamente sobre seguros, resseguros, previdência e capitalizacao entre 1992 até agosto de 2008 para o jornal econômico Gazeta Mercantil.

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